Paciência: a chave que vira o jogo do cuidado – estratégias práticas para treinar sua paciência

Olá, cuidadores e familiares! É ótimo estar de volta para mais uma conversa que toca o coração de quem se dedica a cuidar de alguém. Hoje, vamos falar sobre um desafio comum e super importante: a paciência.

Muitos de nós não nascemos pessoas calmas e tranquilas, e cuidar de um idoso, especialmente com as particularidades da idade ou da demência, pode testar os limites de qualquer um. A boa notícia é que paciência não é só um dom; é uma habilidade que podemos treinar e desenvolver! Vamos descobrir como?

A paciência é a cola que segura o dia a dia do cuidado. Sem ela, a frustração, o estresse e o esgotamento podem tomar conta, tanto do cuidador quanto do idoso.

No cuidado com idosos lúcidos, a paciência é fundamental para lidar com a lentidão natural, as queixas de dor ou a dificuldade em aceitar ajuda. É um exercício de empatia e compreensão das limitações do envelhecimento.

No cuidado com idosos com Alzheimer ou outras demências, a paciência é ainda mais crucial. A doença afeta diretamente a capacidade de comunicação, a memória e o comportamento, gerando situações que exigem uma calma quase heroica. O idoso pode repetir perguntas incessantemente, resistir a cuidados básicos, ficar agitado ou até apresentar agressividade. Nessas horas, a sua paciência é a âncora que impede que o barco vire.

Mas por que a paciência parece “sumir” justo quando mais precisamos dela?

  • Acúmulo de estresse: A rotina do cuidador é desgastante física e emocionalmente. O estresse crônico corrói a paciência.
  • Falta de sono: Noites mal dormidas afetam diretamente o humor e a capacidade de lidar com frustrações.
  • Excesso de demandas: Tentar fazer tudo sozinho, sem apoio, sobrecarrega a mente e o corpo.
  • Expectativas irreais: Esperar que o idoso reaja como antes ou que a doença não progrida leva à desilusão e à impaciência; assim como imaginar que você dará conta de tudo e conseguirá executar tudo que é necessário para um cuidado de excelência – o cuidado ideal não exIsite!

Estudos da Psicologia do Cuidado e Gerontologia indicam que o estresse do cuidador e o burnout estão diretamente relacionados à diminuição da tolerância e paciência, ressaltando a necessidade de estratégias de manejo de estresse para manter a qualidade do cuidado (Pinquart & Sörensen, 2011).

Estratégias práticas para treinar sua paciência (mesmo sem ter nascido calmo!)

Você não precisa ser zen para ser paciente. Essas estratégias são ferramentas que você pode usar no seu dia a dia para construir essa habilidade:

1. Respire fundo e conte até dez (ou até onde for preciso!):

  • Como fazer: Quando sentir a impaciência subindo, pare, busque um lugar calmo (nem que seja de porta fechada no banheiro). Respire fundo, lenta e profundamente, algumas vezes. Mentalmente, conte até dez (ou mais, se precisar).
  • Por que funciona: A respiração profunda ativa o sistema nervoso parassimpático, que é responsável pelo relaxamento. Ela desacelera o ritmo cardíaco, diminui a tensão e dá ao seu cérebro alguns segundos preciosos para processar a situação antes de reagir impulsivamente.
  • Técnicas de mindfulness e respiração consciente são comprovadamente eficazes na redução do estresse e no aumento da autorregulação emocional, o que contribui diretamente para a paciência (Grossman et al., 2004).

2. Mude sua perspectiva (o olhar empático):

  • Como fazer: Em vez de focar no comportamento difícil e desafiador do idoso, tente se colocar no lugar dele. Pergunte-se: “Por que ele está agindo assim?” Para o idoso com demência, a pergunta é: “O que a doença está fazendo com ele agora?”.
  • Por que funciona: Essa mudança de perspectiva te ajuda a enxergar a situação com mais empatia. Você percebe que o comportamento não é pessoal, mas sim uma manifestação de uma dificuldade ou da doença. Isso diminui a raiva e aumenta a compaixão.
  • A capacidade de empatia é um fator protetivo contra o estresse no cuidado, pois permite uma compreensão mais profunda das necessidades e limitações do outro, como sugerem pesquisas em psicologia social.

3. Fragmenta as tarefas (pequenas conquistas, menos frustração):

  • Como fazer: Se uma tarefa parece enorme e demorada (como um banho ou uma refeição), divida-a em pequenos passos.
  • Por que funciona: Ver o progresso em cada micro etapa reduz a sensação de que a tarefa é infinita e te deixa menos impaciente. Além disso, cada pequena vitória te dá um gás para continuar. Para o idoso com demência, passos menores também são mais fáceis de processar.

4. Tire pequenas pausas (respiros estratégicos):

  • Como fazer: Mesmo que seja por cinco minutos, afaste-se da situação (se for seguro para o idoso) e faça algo que te dê um breve alívio: beba um copo d’água, olhe pela janela, ouça uma música, lave o rosto e, se sentir vontade, chore.
  • Por que funciona: Essas micro-pausas são como “resetar” seu nível de paciência. Elas quebram o ciclo de estresse e evitam que a impaciência se acumule ao ponto de explodir.
  • A importância das pausas regulares e do autocuidado para cuidadores é amplamente reconhecida na literatura de saúde, prevenindo o esgotamento (Family Caregiver Alliance, 2020).

5. Tenha um “mantra da paciência” (repita para si mesmo):

  • Como fazer: Escolha uma frase curta e positiva para repetir para si mesmo quando sentir a impaciência chegando. Exemplos: “É a doença, não ele(a)”, “Vou respirar”, “Está tudo bem se eu não conseguir”.
  • Por que funciona: Repetir um mantra ajuda a focar a mente, a desviar dos pensamentos negativos e a reforçar uma atitude mais calma e controlada.

6. Peça ajuda e delegue (não seja um super-herói sozinho):

  • Como fazer: Não tente carregar o mundo nas costas. Converse com familiares, amigos, vizinhos ou profissionais. Busque grupos de apoio para cuidadores.
  • Por que funciona: Compartilhar o peso do cuidado alivia a sobrecarga e te dá o respiro necessário para recarregar as energias e, consequentemente, exercitar a paciência. Saber que você tem uma rede de apoio faz toda a diferença.
  • O suporte social é um dos preditores mais fortes da resiliência e do bem-estar em cuidadores, contribuindo diretamente para a capacidade de lidar com desafios e manter a paciência (Schulz & Martire, 2004).

Paciência no cuidado: idosos lúcidos x idosos com demência

A paciência é um recurso precioso para ambos os cenários, mas a forma como a usamos pode ser diferente:

  • Com o Idoso Lúcido: A paciência é exercitada ao lidar com as perdas da idade (físicas, sociais), com a resistência à ajuda, ou com as preocupações e medos do próprio idoso sobre o envelhecimento. É uma paciência para ouvir, para esperar e para aceitar as limitações que a pessoa, plenamente consciente, está vivenciando.
  • Com o Idoso com Alzheimer ou outras Demências: A paciência se torna uma ferramenta de comunicação e manejo. É a paciência para repetir a mesma informação inúmeras vezes, para lidar com a desorientação, com a perda de memória de curto prazo, com as alterações de humor e com a resistência a atividades básicas. Aqui, a paciência é uma resposta à doença, não à pessoa em si. É aceitar que o comportamento é um sintoma e que a lógica não vai funcionar.

Cuidadores, a paciência não é um traço com o qual se nasce ou não. É um “músculo” que se exercita. Cada vez que você respira fundo, muda o foco ou pede ajuda, você está treinando sua paciência. E acredite: essa paciência treinada não beneficia apenas o idoso, mas transforma a sua própria jornada de cuidado, tornando-a mais leve e significativa.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre envelhecimento e saúde. Genebra: OMS, 2015. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/186468. Acesso em: 16 jan. 2026.

Ministério da Saúde (Brasil) BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19). Disponível em: http://www.saude.gov.br. Acesso em: 16 jan. 2026.

Alzheimer’s Disease International (Relatório Mundial) ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: ADI, 2019. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2019. Acesso em: 16 jan. 2026.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

Artigos Científicos Citados no Texto

  • Grossman et al. (2004): GROSSMAN, P. et al. Mindfulness-based stress reduction and health benefits: a meta-analysis. Journal of Psychosomatic Research, [s. l.], v. 57, n. 1, p. 35-43, 2004.
  • Pinquart & Sörensen (2011): PINQUART, M.; SÖRENSEN, S. Spouses, adult children, and children-in-law as caregivers of older adults: a meta-analytic comparison of differences in caregiving experience. Journal of Marriage and Family, [s. l.], v. 73, n. 2, p. 357-381, 2011.
  • Schulz & Martire (2004): SCHULZ, R.; MARTIRE, L. M. Family caregiving of persons with dementia: prevalence, health effects, and support strategies. The American Journal of Geriatric Psychiatry, [s. l.], v. 12, n. 3, p. 240-249, 2004.
  • Family Caregiver Alliance (2020): FAMILY CAREGIVER ALLIANCE. Self-care for family caregivers. San Francisco: FCA, 2020. Disponível em: https://www.caregiver.org. Acesso em: 16 jan. 2026.

Obra de Referência Adicional (Tratado) FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

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