Faça o idoso se sentir útil: dicas práticas para cuidadores

Sabemos que a rotina de cuidar de um idoso pode ser desafiadora, mas também é cheia de momentos gratificantes. Uma das chaves para um envelhecimento ativo e feliz é fazer com que o idoso se sinta útil e valorizado. Isso não só melhora o bem-estar dele, como também alivia a sua carga como cuidador. Mas como fazer isso na prática, considerando as diferentes realidades dos nossos idosos?

Por que a utilidade importa tanto?

Sentir-se útil é fundamental para a saúde mental e emocional em qualquer idade, mas se torna ainda mais crítico na velhice. Quando o idoso percebe que suas contribuições são importantes, sua autoestima melhora e a qualidade de vida aumenta. Estudos mostram que o engajamento em atividades significativas está associado a menores taxas de depressão e maior satisfação com a vida em idosos (Everard et al., 2000).

Para o idoso lúcido, a utilidade pode vir da continuidade de hobbies, participação em decisões familiares ou até mesmo do aprendizado de algo novo. Já para o idoso com demência, mesmo pequenas tarefas podem trazer um senso de propósito e reduzir a agitação, proporcionando momentos de alegria e conexão.

Dicas para promover a utilidade no dia a dia

Vamos ver como adaptar as atividades para cada situação, sempre com muito carinho e paciência.

Para idosos lúcidos: estimule a autonomia e a participação

Aqui, o objetivo é manter a mente ativa e o corpo em movimento, incentivando a participação nas decisões e na vida familiar.

  • Preservação e estímulo de autocuidados: Tudo aquilo que este idoso é capaz de fazer por si, sem auxílio, é preciso estimular e incentivar que ele o faça. Mesmo que de forma mais lenta, ou nem tão bem feito, mas suas capacidades devem ser preservadas pelo maior tempo possível. Se necessário algum auxílio faça-o sem podar as habilidades que ele apresenta. Estudos antigos já comprovavam que “Atividades de vida diária instrumentais”, como preparar refeições simples ou cuidar de plantas, são cruciais para a independência do idoso (Lawton & Brody, 1969).
  • Hobbies e interesses antigos: Práticas como jardinagem, música, tarefas de manutenção e cuidados com a casa, atividades artesanais, culinária, enfim, incentive que este idoso mantenha essas atividades, mesmo que de forma adaptada, se for necessário. Isso favorece o bem-estar do idoso e preserva sua saúde cerebral.
  • Engajamento social e familiar: Envolver este idoso nas conversas do dia a dia e ouvir a opinião dele sobre questões familiares faz com que ele se sinta pertença da família e isso aumenta sua conexão, fortalecendo seus vínculos. Se possível, incentive a participação em grupos de convivência, voluntariado ou clubes. A conexão social é um fator protetor contra o declínio cognitivo (Holtzman et al., 2021).
  • Aprendizado contínuo: Que tal aprender um novo idioma com aplicativos, fazer um curso online sobre um tema de interesse ou aprender a usar um novo dispositivo eletrônico? Manter o cérebro em constante desafio é essencial para a saúde cognitiva do idoso.

Para idosos com demência: foco na atividade significativa e na segurança

Nesses casos, a chave é a adaptação e a simplicidade, sempre priorizando a segurança e o conforto do idoso. O objetivo não é a perfeição da tarefa, mas a participação e o bem-estar que ela gera.

  • Pequenas tarefas domésticas: Se o idoso gosta de cozinhar, ele pode ajudar a separar ingredientes ou descascar vegetais. Se ele sempre cuidou do jardim, um pequeno canteiro de temperos ou algumas flores podem ser sua responsabilidade. Tarefas simples de cuidado com a casa como dobrar toalhas, meias, colocar ou retirar uma roupa do varal, varrer, tirar poeira de objetos, enfim, aquilo que ele demonstra capacidade de execução deve ser estimulado. Essas ações, mesmo que não tenham um “propósito” lógico para nós, podem trazer um senso de ordem e realização para eles, reduzindo a agitação e a ansiedade em idosos com demência (Cohen-Mansfield & Werner, 1997).
  • Hobbies e interesses antigos: Ele gostava de pintar? Tocar um instrumento? Costurar? Incentive a retomar essas atividades, mesmo que de forma adaptada. A prática de hobbies contribui para o bem-estar do idoso e a saúde cerebral.
  • Engajamento social e familiar: Peça a opinião dele sobre questões familiares que sejam simples, envolva-o em conversas sobre o dia a dia. Se possível, incentive a participação em grupos de convivência para idosos. Quanto mais conexões sociais este idoso tiver, mais lentamente a doença progride.
  • Atividades sensoriais: Ofereça caixas com diferentes texturas para ele tocar, objetos coloridos para manipular ou potes com aromas suaves para cheirar. Estimular os sentidos pode ser muito relaxante e prazeroso.
  • Música e artes: Cantar músicas conhecidas, ouvir playlists que remetem ao passado ou rabiscar em um papel. A música, em particular, tem um poder imenso de evocar memórias e melhorar o humor do idoso (Snyder & Wimsatt, 2018).
  • Envolvimento na rotina diária: Mesmo que não consiga fazer a tarefa completa, ele pode segurar um pano de prato enquanto você seca a louça, ou escolher uma roupa para vestir. Pequenos gestos de participação são grandes vitórias.

Mantenha a Comunicação Aberta e a Paciência

Independentemente do estágio cognitivo, a comunicação é vital. Pergunte ao idoso o que ele gostaria de fazer, observe suas reações e adapte as atividades conforme necessário. Seja paciente e compreensivo; nem todo dia será igual. O importante é criar um ambiente onde ele se sinta amado, respeitado e, acima de tudo, útil.

Cuidar de um idoso é um ato de amor. Ao investir em seu senso de utilidade, você está contribuindo diretamente para sua longevidade com qualidade e dignidade na terceira idade.

REFERÊNCIAS:

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2022: life after diagnosis: navigating treatment, care and support. London: ADI, 2022.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Caderno de Atenção Básica nº 19: envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

COHEN-MANSFIELD, J.; WERNER, P. Management of verbally disruptive behaviors: a review. The Journals of Gerontology: Series A, [s. l.], v. 52A, n. 6, p. M369-M377, 1997.

EVERARD, K. M. et al. Relationship of activity and social support to the functional health of older adults. The Journals of Gerontology: Series B, [s. l.], v. 55, n. 4, p. S208-S212, 2000.

FREITAS, E. V. de; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

HOLTZMAN, J. et al. Social isolation and cognitive decline in older adults. Journal of Aging and Health, [s. l.], v. 33, n. 1, p. 15-25, 2021.

LAWTON, M. P.; BRODY, E. M. Assessment of older people: self-maintaining and instrumental activities of daily living. The Gerontologist, [s. l.], v. 9, n. 3, p. 179-186, 1969.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do envelhecimento saudável: relatório de linha de base. Genebra: OMS, 2020.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO, 2019.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: 20 anos da Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

SNYDER, M.; WIMSATT, M. Music therapy for people with dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews, [s. l.], n. 5, 2018.

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