Idoso dorme demais: o que fazer e quando se preocupar?

Como cuidadores, sejam vocês profissionais ou familiares, é comum a preocupação com o padrão de sono dos idosos. Se, por um lado, a insônia é um desafio, o idoso que dorme muito também acende um alerta. É importante entender o que é normal e quando o sono excessivo pode indicar um problema de saúde. Afinal, um bom equilíbrio é chave para a qualidade de vida do idoso.

O sono excessivo é normal na velhice?

Existe um mito de que idosos são mais sonolentos por causa da idade. Isso não é verdade! O que muda, como falamos no nosso último post, é a arquitetura do sono, tornando-o mais leve e fragmentado. Então, quando um idoso dorme excessivamente durante o dia ou tem dificuldades para se manter acordado, isso geralmente não é um sinal de envelhecimento “normal”.

O sono diurno excessivo ou hipersonia em idosos pode ser um sintoma de condições médicas subjacentes, e não apenas cansaço. É crucial investigar a causa para garantir a saúde do idoso. Um estudo de 2017 de Ohayon et al., ressalta que a sonolência diurna excessiva em idosos está frequentemente associada a problemas de saúde crônicos, uso de medicamentos e distúrbios do sono.

Causas comuns do sono excessivo em idosos

Vamos explorar as possíveis razões pelas quais seu idoso pode estar dormindo mais do que o esperado, diferenciando entre idosos lúcidos e aqueles com demência.

Fique atento a hábitos e condições médicas

Para os idosos que mantêm suas capacidades cognitivas, o sono excessivo pode ter várias explicações, algumas mais simples, outras que exigem atenção médica.

  • Noites mal dormidas: Paradoxalmente, um idoso que dorme muito de dia pode estar tendo um sono noturno fragmentado e de má qualidade. Distúrbios como apneia do sono, síndrome das pernas inquietas, dores crônicas ou idas frequentes ao banheiro à noite podem impedir um descanso adequado.
  • Medicamentos: Muitos remédios, especialmente aqueles para pressão alta, ansiedade, depressão, dor e alergias, podem causar sonolência como efeito colateral. Sempre converse com o médico sobre os medicamentos em uso e seus possíveis efeitos.
  • Depressão: A depressão em idosos nem sempre se manifesta com tristeza. Às vezes, o principal sintoma é o excesso de sono, perda de interesse em atividades, fadiga e isolamento. A saúde mental do idoso é vital.
  • Condições médicas: Doenças como hipotireoidismo, diabetes descompensada, anemia, infecções e até insuficiência cardíaca podem levar à fadiga e ao desejo de dormir mais.
  • Desidratação e má nutrição: A falta de nutrientes essenciais ou a ingestão insuficiente de líquidos podem causar cansaço extremo e sonolência. A nutrição do idoso desempenha um papel fundamental, afinal a carência de certas vitaminas como a Vit D e a |Vit B podem deixá-los mais sonolentos.
  • Falta de estímulo e atividade: Um idoso que tem poucas atividades durante o dia, seja física ou mental, pode acabar entediado e sonolento. A atividade física para idosos e o engajamento social são importantes.

Para idosos com demência: o sono excessivo e a progressão da doença

Em idosos com demência, o padrão de sono pode ser ainda mais alterado devido às mudanças cerebrais causadas pela doença. O sono excessivo pode ser parte da própria progressão da demência ou um sintoma de outras questões:

  • Alterações cerebrais: As áreas do cérebro responsáveis pela regulação do sono-vigília podem ser danificadas pela demência. Isso pode levar a um ciclo de sono desorganizado, com o idoso dormindo mais durante o dia e ficando agitado à noite (distúrbio do ritmo circadiano).
  • Fadiga relacionada à demência: A demência pode causar uma fadiga constante, fazendo com que o idoso precise de mais descanso. Atividades simples, que para nós são corriqueiras, podem ser muito desgastantes para um cérebro afetado pela demência.
  • Medicamentos: Assim como nos idosos lúcidos, alguns medicamentos usados para tratar sintomas da demência (como agitação ou psicose) podem ter a sonolência como efeito colateral.
  • Depressão e ansiedade: A depressão é comum em pessoas com demência e pode se manifestar com aumento do sono. A ansiedade também pode levar à exaustão e, consequentemente, ao desejo de dormir.
  • Infecções ocultas: Uma infecção do trato urinário, por exemplo, pode não apresentar os sintomas clássicos em um idoso com demência, mas a fadiga e o aumento da sonolência podem ser os únicos sinais.

O que fazer quando o idoso dorme demais?

Seja proativo! A primeira atitude é observar e registrar.

  • Observe e registre: Anote os horários em que o idoso dorme e acorda, a duração dos cochilos diurnos e qualquer mudança no padrão. Isso será muito útil para o médico.
  • Converse com o médico: Este é o passo mais importante. Explique suas observações ao médico do idoso. Ele pode solicitar exames para investigar causas médicas, revisar a lista de medicamentos e encaminhar para um especialista em sono, se necessário. Não hesite em buscar ajuda médica para idoso.
  • Revise a higiene do sono: Mesmo que o problema seja o excesso de sono, as boas práticas de higiene do sono (ambiente adequado, rotina, etc.) são fundamentais, e aqui no blog tem uma matéria completa sobre Higiene do sono.
    • É fundamental: Incentivar atividades diurnas que os mantenham engajados; exponha-os à luz natural pela manhã, o que ajuda a regular o ritmo circadiano; mantenha uma rotina diurna consistente, com atividades leves e previsíveis; evite cochilos muito longos durante o dia. Se ele acordar agitado à noite, evite ligar luzes fortes; uma luz noturna suave pode ser suficiente.

O sono é um pilar da saúde e bem-estar na velhice. Ao ficar atento aos sinais e buscar o apoio profissional necessário, você estará contribuindo para uma longevidade com qualidade para o idoso que você cuida.

As referências bibliográficas do texto fornecido, estruturadas de acordo com as normas da ABNT (NBR 6023) e baseadas nas fontes citadas e disponíveis nos documentos fornecidos, são apresentadas abaixo:

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