Demência vascular: entenda a segunda causa mais comum de demência

Como cuidadores de idosos, sejam profissionais ou familiares dedicados, provavelmente já ouviram falar muito sobre Alzheimer. Mas existe outra condição importante que causa demência e é a segunda mais comum: a demência vascular. É crucial entender o que ela é e como se manifesta, pois o tratamento e o manejo podem ser bem diferentes do Alzheimer.

O que é demência vascular e como ela acontece?

Imagine que seu cérebro precisa de um suprimento constante de sangue para funcionar perfeitamente. Esse sangue carrega oxigênio e nutrientes essenciais. A demência vascular acontece quando o fluxo sanguíneo para o cérebro é interrompido ou reduzido, geralmente por problemas nos vasos sanguíneos. Isso pode ocorrer de diversas formas:

  • Mini-AVC’s (Acidentes vasculares cerebrais isquêmicos transitórios – AITs): São pequenos bloqueios temporários que causam um dano mínimo, mas que, ao longo do tempo e em vários episódios, podem acumular lesões e afetar o cérebro.
  • AVC’s maiores: Um derrame mais significativo que danifica áreas cerebrais maiores.
  • Doença de pequenos vasos cerebrais: Ocorre quando os vasos sanguíneos menores dentro do cérebro ficam estreitos ou danificados, reduzindo o fluxo sanguíneo de forma crônica.

Esses eventos danificam as células cerebrais, e as áreas afetadas perdem a capacidade de funcionar corretamente, resultando nos sintomas de demência.

Quais são os sintomas da demência vascular?

Ao contrário do Alzheimer, que costuma ter um início mais gradual e progressivo na perda de memória, a demência vascular pode apresentar um padrão de piora “em degraus”. Ou seja, os sintomas podem aparecer de repente após um AVC, permanecer estáveis por um tempo e, então, piorar após um novo evento vascular.

Para cuidadores de idosos, é vital saber que os sintomas variam muito dependendo de qual parte do cérebro foi afetada. Um idoso lúcido, mesmo com outros problemas de saúde, mantém suas funções cognitivas intactas, o que não acontece em um quadro de demência vascular.

Aqui estão os sintomas de demência vascular mais comuns, que se diferenciam dos sintomas de um idoso lúcido:

  1. Dificuldade no planejamento e organização:
    • Como se manifesta: Problemas para iniciar ou concluir tarefas, dificuldade em lidar com dinheiro ou seguir instruções complexas. O idoso pode parecer “lento” para processar informações.
    • Exemplo: Não consegue mais organizar suas contas, mesmo que sempre tenha feito isso, ou se perde ao tentar fazer uma receita simples.
  • Para o cuidador: Este é um dos sintomas mais marcantes da demência vascular, impactando a autonomia. Divida as tarefas em passos menores e mais simples.
  • Evidência Científica: Pesquisas recentes, como a revisão de O’Brien & Thomas (2015) em The Lancet Neurology, destacam que a disfunção executiva é um traço clínico proeminente na demência vascular, frequentemente mais do que a perda de memória precoce.
  1. Problemas de atenção e concentração:
    • Como se manifesta: Dificuldade em manter o foco em uma conversa, em assistir televisão ou em ler um livro. O idoso pode se distrair facilmente.
  • Exemplo: Não consegue acompanhar um diálogo longo ou perde o fio da meada rapidamente.
  • Para o cuidador: Converse em ambientes mais calmos e sem muitas distrações para o idoso com demência vascular.
  1. Lentidão no processamento de informações:
    • Como se manifesta: Demora mais para entender o que é dito, para tomar decisões ou para reagir a estímulos.
  • Exemplo: Leva um tempo considerável para responder a uma pergunta simples.
  • Para o cuidador: Tenha paciência e dê tempo para o idoso com demência processar as informações e responder.
  1. Alterações de humor e comportamento:
    • Como se manifesta: Apatia (falta de interesse), depressão, irritabilidade ou labilidade emocional (mudanças rápidas de humor, como chorar sem motivo aparente).
  • Exemplo: Um idoso que sempre foi ativo e alegre torna-se apático e desinteressado.
  • Para o cuidador: Essas alterações afetam profundamente a qualidade de vida do idoso e do cuidador. Procure apoio psicológico e médico para gerenciar esses sintomas.
  • Evidência Científica: Um estudo de revisão sistemática e meta-análise de Tynan et al. (2020) no Journal of Geriatric Psychiatry and Neurology confirma a alta prevalência de sintomas neuropsiquiátricos, como depressão e apatia, em pacientes com demência vascular, destacando a necessidade de abordagens de tratamento direcionadas a essas manifestações.
  1. Dificuldades físicas associadas:
    • Como se manifesta: Fraqueza em um lado do corpo, problemas de equilíbrio, arrastar os pés ao andar ou ter episódios de quedas. Essas são sequelas comuns de AVCs.
  • Exemplo: O idoso pode começar a mancar ou ter dificuldades para se levantar da cadeira.
  • Para o cuidador: A fisioterapia é fundamental para ajudar a reabilitar a mobilidade e prevenir quedas em idosos com demência vascular.

Como prevenir e lidar com a demência vascular?

A boa notícia é que a demência vascular tem fatores de risco que podem ser controlados. A prevenção é a melhor estratégia!

Dicas de prevenção:

  • Controle da pressão alta (Hipertensão): Manter a pressão arterial em níveis saudáveis reduz drasticamente o risco de AVCs.
  • Controle do diabetes: Diabetes descompensada danifica os vasos sanguíneos.
  • Controle do colesterol: Níveis elevados de colesterol podem levar ao acúmulo de placas nas artérias.
  • Parar de fumar: Fumar é um dos maiores agressores dos vasos sanguíneos.
  • Dieta saudável e exercícios físicos: Ajudam a manter a saúde cardiovascular em dia.
  • Gerenciamento do peso: A obesidade é um fator de risco para doenças cardiovasculares.

Manejo e cuidados para idosos com demência vascular:

  • Acompanhamento médico regular: Um neurologista ou geriatra pode ajudar a gerenciar a condição e os fatores de risco.
  • Fisioterapia e terapia ocupacional: Essenciais para manter a mobilidade, a autonomia e adaptar o ambiente.
  • Estimulação cognitiva: Jogos, leitura, conversas e outras atividades que estimulem o cérebro podem ajudar a manter as funções por mais tempo.
  • Ambiente seguro e estruturado: Assim como para outras demências, um ambiente organizado e livre de riscos é fundamental.
  • Paciência e compreensão: Lembre-se de que os sintomas são parte da doença.

Entender a demência vascular nos capacita a oferecer um cuidado mais eficaz e compassivo, melhorando a qualidade de vida dos idosos que cuidamos.

Referências:

1. Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Cuidados integrados para pessoas idosas (ICOPE): manual para avaliação e esquemas de cuidados centrados na pessoa na atenção primária à saúde. 2. ed. Genebra: OMS, 2024..

2. Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2018..

3. Alzheimer’s Disease International (Relatório Mundial) ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2015: the global impact of dementia: an analysis of prevalence, incidence, cost and trends. London: ADI, 2015..

4. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023..

5. Tratado de Geriatria e Gerontologia (Referência Base) GIACOMIN, K. C.; MORAES, G. V. O. Comprometimento cognitivo vascular e demência vascular. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 209-215..

6. Artigos Científicos Citados no Texto

  • Revisão sobre Disfunção Executiva: O’BRIEN, J. T.; THOMAS, A. Vascular cognitive impairment. The Lancet Neurology, [s. l.], v. 14, n. 3, p. 330-341, 2015..
  • Estudo sobre Sintomas Neuropsiquiátricos: TYNAN, R. J. et al. Neuropsychiatric symptoms in vascular dementia: a systematic review and meta-analysis. Journal of Geriatric Psychiatry and Neurology, [s. l.], v. 33, n. 2, 2020..
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