Para nós, cuidadores de idosos, sejam profissionais ou familiares, garantir a segurança e a autonomia do idoso é uma prioridade. Uma casa bem adaptada pode fazer toda a diferença na qualidade de vida do idoso, diminuindo o risco de acidentes e promovendo maior independência. Não se trata de transformar a casa em um hospital, mas sim de fazer ajustes inteligentes que beneficiam a todos.
Por que adaptar o ambiente do idoso?
A maioria dos acidentes com idosos acontecem dentro de casa, e as quedas são as mais comuns e perigosas. Elas podem levar a fraturas, hospitalizações e perda de autonomia. Ao adaptar o ambiente, nós:
- Reduzimos o risco de quedas e acidentes.
- Promovemos a independência e a capacidade do idoso de realizar suas atividades diárias.
- Aumentamos a segurança e a tranquilidade para o idoso e seus cuidadores.
- Melhoramos o bem-estar geral.
É importante lembrar que um idoso lúcido pode precisar de algumas adaptações para evitar quedas, por exemplo, mas manterá a capacidade de usar os recursos da casa de forma independente. Já um idoso com demência precisará de adaptações mais específicas e, muitas vezes, de supervisão constante para garantir sua segurança, pois sua capacidade de perceber riscos e tomar decisões pode estar comprometida.

Adaptações essenciais em cada cômodo da casa
Vamos focar nos cômodos mais importantes e nas adaptações que fazem a diferença para a segurança do idoso.
1. Banheiro: onde o perigo mais ronda
O banheiro é o campeão em acidentes com idosos devido à superfície escorregadia e à necessidade de movimentos de sentar e levantar.
- Chão antiderrapante: Se o piso atual for liso, considere instalar tapetes antiderrapantes ou, se possível, trocá-lo por um material mais seguro.
- Barras de apoio: Instale barras de apoio fixas dentro do box, ao lado do vaso sanitário e, se houver espaço, perto da pia. Elas dão firmeza para levantar e se mover.
- Evidência científica: Um estudo de revisão sistemática publicado no Journal of the American Geriatrics Society (por exemplo, Gillespie et al., 2012, embora seja um pouco mais antigo, seus princípios são perenes e frequentemente citados em revisões mais recentes sobre prevenção de quedas) aponta que as modificações no ambiente doméstico, incluindo a instalação de barras de apoio no banheiro, são intervenções eficazes na redução do risco de quedas em idosos.
- Tapete antiderrapante no box: Use um tapete de borracha com ventosas dentro do box ou da banheira.
- Banco para banho: Um banco fixo ou portátil dentro do box permite que o idoso tome banho sentado, economizando energia e prevenindo quedas.
- Vaso sanitário elevado: Um assento elevado para o vaso sanitário facilita o ato de sentar e levantar, reduzindo o esforço nas pernas e joelhos.
- Iluminação: Garanta boa iluminação, inclusive uma luz noturna fraca, caso o idoso precise ir ao banheiro de madrugada.

2. Quartos e corredores: caminhos livres e bem iluminados
Esses são os locais de circulação e descanso.
- Remover tapetes soltos: Tapetes soltos são armadilhas! Eles causam tropeços e quedas. Remova-os ou fixe-os firmemente.
- Caminhos livres: Mantenha corredores e passagens livres de obstáculos como fios, móveis em excesso ou caixas. Um idoso com demência pode não perceber esses obstáculos.
- Iluminação adequada: Instale luzes que iluminem bem o caminho, com interruptores de fácil acesso. Luminárias com sensor de movimento em corredores podem ser muito úteis à noite.
- Cama na altura certa: A altura ideal da cama permite que o idoso sente com os pés totalmente no chão. Isso facilita levantar e deitar.
3. Cozinha: atenção aos detalhes
A cozinha pode ser um local de grande risco, especialmente para idosos com demência que podem esquecer o fogão ligado ou lidar mal com facas e panelas quentes.
- Utensílios de fácil manuseio: Talheres com cabos mais grossos, abridores de fácil uso, e panelas leves.
- Armazenamento acessível: Guarde os itens de uso diário em prateleiras baixas e de fácil alcance, evitando que o idoso precise subir em bancos ou se esticar.
- Fogão com sensor de desligamento: Para idosos com demência, fogões com desligamento automático são uma medida de segurança importante.
- Piso antiderrapante: Assim como no banheiro, é crucial que o piso da cozinha não seja escorregadio.
4. Escadas: um grande desafio
Se a casa tiver escadas, elas exigem atenção máxima.
- Corrimãos fixos e firmes: Instale corrimãos em ambos os lados da escada, que sejam fáceis de segurar e que se estendam além do primeiro e último degraus.
- Iluminação intensiva: Cada degrau deve ser bem iluminado. Fitas antiderrapantes nos degraus podem aumentar a segurança.
- Portões de segurança: Para idosos com demência que têm tendência a perambular ou se desorientar, portões de segurança no topo e na base da escada são indispensáveis.

Dicas gerais para qualquer ambiente:
- Telefones acessíveis: Mantenha telefones sem fio ou celulares simples e carregados em vários pontos da casa. Salve números de emergência na discagem rápida.
- Sinalização clara: Em casos de demência, coloque etiquetas com figuras ou palavras simples nos armários e portas para ajudar o idoso a se localizar.
- Mobiliário estável: Cadeiras e sofás devem ser firmes, com braços para facilitar o ato de sentar e levantar. Evite móveis com rodinhas que possam se mover inesperadamente.
- Alarmes e sensores: Para idosos que moram sozinhos (e são lúcidos), sistemas de alerta pessoal (botões de pânico) ou sensores de movimento podem ser uma boa ideia. Para idosos com demência, sensores de porta ou câmera podem ajudar a monitorar a segurança.
Lembre-se: adaptar o ambiente é um investimento na segurança, autonomia e bem-estar do idoso. Consulte profissionais como terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e arquitetos. Eles podem fazer uma avaliação detalhada da casa e sugerir as melhores adaptações para as necessidades específicas do idoso.
Referências:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
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