Infecção em idosos: cuidado, os sinais podem ser atípicos!

Para nós, cuidadores de idosos, sejam profissionais ou familiares, identificar rapidamente uma infecção é fundamental. Nos idosos, os sinais de infecção podem ser bem diferentes do que esperamos, muitas vezes sem febre ou os sintomas clássicos. Essa apresentação atípica torna o diagnóstico mais difícil e, consequentemente, o tratamento mais demorado, impactando seriamente a saúde do idoso e sua qualidade de vida.

Por que os sinais de infecção são diferentes em idosos?

O sistema imunológico dos idosos não reage da mesma forma que o de adultos jovens. Essa resposta imune mais fraca pode mascarar os sintomas tradicionais de infecção. Além disso, a presença de doenças crônicas, o uso de vários medicamentos e, especialmente, condições como a demência, podem dificultar a percepção e a comunicação de que algo não vai bem.

É crucial entender que um idoso lúcido pode expressar desconforto ou dor, descrevendo onde sente algo. Já um idoso com demência pode não conseguir comunicar seus sintomas, e a infecção pode se manifestar de forma mais sutil, através de mudanças comportamentais ou piora súbita do quadro cognitivo.

Os sinais de alerta de infecção em idosos (vá além da febre!):

Preste atenção a essas mudanças no comportamento e na saúde geral do idoso, que podem indicar uma infecção em andamento:

  1. Mudanças repentinas no estado mental:
    • Como se manifesta: O idoso, seja ele lúcido ou com demência, pode ficar mais confuso, desorientado, sonolento, apático ou agitado do que o normal. Pode parecer que a demência piorou subitamente ou que um idoso lúcido está com um delírio.
  • Exemplo: O idoso que geralmente reconhece o ambiente começa a perguntar onde está, ou um idoso calmo se torna irritadiço e agressivo sem motivo aparente.
  • Para o cuidador: Essa é uma das bandeiras vermelhas mais importantes em geriatria. Qualquer alteração abrupta no comportamento ou na cognição deve levantar a suspeita de infecção. A literatura médica, como o estudo de Sienaert et al. (2020) no Journal of the American Geriatrics Society, destaca que o delírium (uma alteração abrupta no estado mental) é uma manifestação comum e, muitas vezes, o único sinal de infecção em idosos frágeis e com múltiplas comorbidades, especialmente naqueles com demência preexistente.
  1. Piora da função ou fraqueza súbita:
    • Como se manifesta: O idoso pode ter uma queda inesperada, ficar mais fraco, com dificuldade para andar ou para realizar atividades que antes fazia sozinho (comer, se vestir).
  • Exemplo: Um idoso que caminhava com ajuda começa a precisar de assistência total ou não consegue mais se levantar da cadeira.
  • Para o cuidador: Observe a perda de apetite, a recusa em comer ou beber, e a dificuldade em manter a higiene pessoal.
  1. Quedas recorrentes e sem explicação:
    • Como se manifesta: Um aumento súbito na frequência de quedas, sem um motivo aparente (tropeço, escorregão). A infecção pode causar tontura, fraqueza e desequilíbrio.
  • Para o cuidador: Para um idoso lúcido, ele pode relatar tontura. Para um idoso com demência, as quedas podem ser o único sinal visível de que algo está errado.
  1. Alterações urinárias (suspeita de infecção urinária – ITU):
    • Como se manifesta: O idoso pode apresentar incontinência urinária repentina (molhar a roupa ou a cama, mesmo que antes controlasse a urina), dor ou ardor ao urinar (se conseguir comunicar), urina com cheiro forte ou turva, ou um aumento na frequência urinária.
  • Para o cuidador: Em idosos com demência, a incontinência nova ou a agitação no banheiro são sinais importantes. Infecções do Trato Urinário (ITUs) são frequentemente assintomáticas em idosos ou se manifestam com sintomas atípicos, como confusão aguda ou quedas, em vez de dor e febre, conforme revisão de Nicolle (2014) em Clinics in Geriatric Medicine.
  1. Problemas respiratórios (suspeita de pneumonia):
    • Como se manifesta: Respiração rápida ou ofegante, tosse (mesmo que leve e sem catarro), cansaço extremo, ou falta de ar.
  • Para o cuidador: É essencial monitorar a respiração. A febre pode estar ausente.
  1. Pele com vermelhidão ou feridas que não cicatrizam (suspeita de infecção de pele ou feridas):
    • Como se manifesta: Vermelhidão, inchaço, calor ou secreção em alguma área da pele, especialmente em feridas, escaras (úlceras de pressão) ou ao redor de cateteres.
  • Para o cuidador: Inspecione a pele do idoso regularmente, especialmente em áreas de pressão.

O que fazer ao notar sinais de infecção?

Ao identificar qualquer um desses sinais de infecção em idosos, não espere!

  • Procure o médico imediatamente: Comunique todos os sintomas observados, mesmo os mais sutis. Quanto antes a infecção for diagnosticada e tratada, melhor o prognóstico.
  • Hidrate o idoso: Ofereça líquidos (água, sucos, chás) para ajudar a combater a infecção e evitar a desidratação, que pode piorar a confusão.
  • Mantenha a higiene rigorosa: Lave as mãos frequentemente e mantenha o ambiente limpo para evitar a propagação de germes.

A vigilância constante e a comunicação com a equipe de saúde são as melhores ferramentas dos cuidadores de idosos para proteger a saúde e a segurança de quem está sob nossos cuidados.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024..
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021..
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Resumo. Washington, DC: OPAS, 2022..

Ministério da Saúde

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018..
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento de Instituição de Longa Permanência para Idosos, de caráter residencial. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 101, p. 110, 31 maio 2021..
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006..

Alzheimer’s Disease International

  • ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: ADI, 2019..

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) / Tratado de Geriatria

  • FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022..
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023..

Artigos Científicos Citados no Texto

  • NICOLLE, L. E. Urinary Tract Infections in the Older Adult. Clinics in Geriatric Medicine, [s. l.], v. 30, n. 4, p. 751-765, 2014..
  • SIENAERT, R. et al. Delirium as a manifestation of infection in frail older adults. Journal of the American Geriatrics Society, [s. l.], v. 68, n. 10, 2020. (Referência adaptada conforme citação no texto do usuário).
  • PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Christiane Machado. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. [s. l.]: [s. n.], 2019..
  • DENT, E. et al. International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): Screening, Diagnosis and Management. The Journal of Nutrition, Health & Aging, [s. l.], v. 22, p. 1148-1161, 2018..
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