Em 21 de setembro, celebramos o Dia Mundial do Alzheimer, uma data importante para falarmos sobre essa doença que, infelizmente, afeta milhões de pessoas no mundo. Mas, mais do que uma data, é um lembrete para nos unirmos no combate ao preconceito e na busca por mais qualidade de vida para quem vive com a doença e seus cuidadores.
Qual a realidade do Alzheimer no Brasil e no mundo?
A Doença de Alzheimer (DA) é a forma mais comum de demência, e os números são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 55 milhões de pessoas vivem com demência em todo o mundo. A previsão é que esse número aumente para 78 milhões em 2030 e para 139 milhões em 2050.
No Brasil, os dados também nos preocupam. Embora não tenhamos um levantamento específico e atualizado apenas sobre a DA, as estimativas são que cerca de 1,2 milhão de brasileiros vivam com alguma forma de demência, e a maioria deles tem Alzheimer.
Um estudo recente publicado na revista Alzheimer’s & Dementia (2022), conduzido por pesquisadores brasileiros, aponta que a prevalência de demência em idosos no Brasil varia de 5% a 10%, com variações importantes entre as regiões. Esse dado reforça a necessidade de políticas públicas de saúde e suporte adequados para a população.
Além disso, o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a população idosa no Brasil cresceu significativamente. São mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Esse envelhecimento populacional é um fator de risco para a doença de Alzheimer, o que torna ainda mais urgente a discussão sobre o tema.

Sinais iniciais: O que a família deve observar?
Muitas vezes, a família é a primeira a notar que algo está diferente. A detecção precoce é crucial para um melhor planejamento e manejo da doença. Fique atento a estes sinais:
- Esquecimento que interfere na vida diária: É diferente de esquecer onde colocou a chave. A pessoa com Alzheimer pode esquecer informações que acabou de aprender, repetir a mesma pergunta várias vezes e não se lembrar de eventos importantes.
- Dificuldade em planejar ou resolver problemas: Tarefas simples, como seguir uma receita de bolo ou pagar as contas mensais, podem se tornar complicadas. O planejamento financeiro, por exemplo, pode se tornar impossível.
- Dificuldade para realizar tarefas habituais: Atividades que a pessoa fazia sem pensar, como dirigir até um lugar conhecido ou jogar seu jogo favorito, podem se tornar desafiadoras.
- Desorientação de tempo e lugar: A pessoa pode não saber que dia da semana é, onde está ou como chegou até ali.
- Problemas com a linguagem: A pessoa pode ter dificuldade para acompanhar uma conversa, parar no meio de uma frase e não saber como continuar, ou repetir as mesmas histórias. Um estudo de 2021 no Journal of Alzheimer’s Disease destacou a disfunção na linguagem como um dos primeiros marcadores de demência.
- Julgamento pobre ou diminuído: A pessoa pode tomar decisões financeiras ruins, como gastar dinheiro de forma imprudente, ou negligenciar a higiene pessoal.
- Mudanças de humor e personalidade: A pessoa pode se tornar confusa, desconfiada, deprimida ou ansiosa.

Como podemos prevenir o Alzheimer?
Ainda não existe uma forma de prevenir 100% a doença, mas estudos mostram que um estilo de vida saudável pode ajudar a diminuir o risco de desenvolver Alzheimer e outras demências. O conceito de Reserva Cognitiva explica isso: quanto mais você estimula seu cérebro e seu corpo, mais “caminhos alternativos” ele cria, o que pode atrasar o surgimento dos sintomas da doença, mesmo se houver alterações no cérebro.
- Mantenha o cérebro ativo: Desafie sua mente. Aprenda um novo idioma ou instrumento, leia bastante, faça palavras cruzadas e jogue jogos que exijam estratégia. Uma pesquisa publicada em 2023 na eLife mostrou que manter a mente ativa ao longo da vida, por meio de atividades como leitura e escrita, está associado a uma menor incidência de demência.
- Exercite-se regularmente: A atividade física melhora o fluxo sanguíneo para o cérebro, o que é fundamental para a saúde neurológica. Caminhadas, natação, dança ou qualquer atividade que você goste podem fazer uma grande diferença.
- Alimente-se bem: Uma dieta equilibrada, rica em frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras saudáveis (como azeite e nozes), pode proteger o cérebro. A dieta mediterrânea, por exemplo, tem sido amplamente estudada e associada a um menor risco de demência.
- Controle sua saúde: Fatores de risco como pressão alta, diabetes, colesterol alto e obesidade devem ser monitorados e controlados. Visite seu médico regularmente.
- Tenha uma vida social ativa: Interagir com outras pessoas, participar de grupos e manter amigos e familiares por perto ajuda a manter a saúde mental e emocional. O isolamento social é um fator de risco para a demência.
Diferenciando a pessoa idosa lúcida daquela com demência
É fundamental entender que nem todo idoso tem Alzheimer ou demência. A pessoa idosa pode ser completamente lúcida, ativa e independente. A demência, por outro lado, é uma condição que causa um declínio progressivo nas habilidades cognitivas, como memória, linguagem e raciocínio.
Pessoa Idosa Lúcida:
- Pode esquecer coisas pequenas de vez em quando (como onde deixou a chave), mas se lembra logo depois.
- Tem dificuldade em aprender algo novo, mas consegue seguir a rotina sem problemas.
- Consegue tomar decisões, gerenciar finanças e interagir socialmente de forma independente.
Pessoa Idosa com Demência:
- Lapsos de memória frequentes: esquece eventos importantes, nomes de pessoas próximas e não se lembra mesmo quando é lembrado.
- Dificuldade para se comunicar: pode ter problemas para encontrar as palavras certas ou para entender o que os outros dizem.
- Problemas com tarefas diárias: tem dificuldade para cozinhar, se vestir ou pagar contas. Um estudo de 2023 na Journal of the American Geriatrics Society destaca que as alterações nas atividades instrumentais da vida diária são um dos primeiros sinais clínicos da demência.

Dicas práticas para cuidadores
A jornada do cuidador, seja familiar ou profissional, é cheia de desafios. Aqui estão algumas dicas para ajudar a tornar o dia a dia mais leve:
- Estimulação cognitiva é chave: Mantenha a mente da pessoa ativa. Jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, leitura e até mesmo ouvir músicas antigas são ótimas opções.
- Crie uma rotina: A repetição ajuda a pessoa a se sentir mais segura e menos confusa. Tente fazer as refeições e o banho nos mesmos horários todos os dias.
- Cuide de si mesmo: O desgaste emocional e físico do cuidador é real. Não hesite em procurar grupos de apoio ou conversar com um profissional de saúde mental. Ajudar a si mesmo é a melhor forma de ajudar o outro.
Referências:
Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório Mundial sobre o Idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/340208. Acesso em: 16 jan. 2026.
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Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 16 jan. 2026.
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Outras Referências Pertinentes INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022: primeiros resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
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