Relatório Mundial de Alzheimer 2025 – Alzheimer’s Disease International (ADI)

1. A origem e a importância do Relatório

Recentemente, a Alzheimer’s Disease International (ADI), uma federação global que reúne associações de Alzheimer de mais de 100 países, lançou o seu mais novo e importantíssimo documento: o Relatório Mundial de Alzheimer 2025.

Este relatório não é apenas um estudo, mas um esforço colaborativo. Ele foi escrito por um painel de especialistas internacionais e, o mais importante, incluiu depoimentos de pessoas que vivem com demência e seus cuidadores. Ele surge com um objetivo claro: fornecer um panorama global sobre a doença de Alzheimer e as demências, expondo as realidades e, principalmente, apontando os caminhos para uma mudança radical na forma como a sociedade e os sistemas de saúde lidam com a questão. O tema central deste ano é “Reimaginando a vida da pessoa com demência: o poder da reabilitação”.

2. O elo entre o Relatório e o Plano de Ação da OMS

Para entender a importância deste documento, precisamos voltar um pouco no tempo. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o Plano de Ação Global sobre a Resposta de Saúde Pública à Demência 2017-2025. Este plano é um marco, pois pela primeira vez, a demência foi reconhecida como uma prioridade global de saúde.

O plano da OMS estabeleceu metas para que os países aprimorassem o diagnóstico, o tratamento, o apoio aos cuidadores e, claro, a pesquisa. O Relatório de 2025 da ADI entra neste cenário como um balanço da situação. Ele mostra que, embora a intenção global seja boa, a implementação tem sido lenta. O relatório revela um dado preocupante: 75% dos países-membros da OMS ainda não têm um plano nacional para a demência. E mesmo entre os que têm, apenas 65% mencionam a reabilitação. O relatório da ADI, portanto, é um grito de alerta, uma convocação urgente para que os países ajam e transformem as metas do plano da OMS em realidade.

3. O poder da reabilitação: o que são as terapias não farmacológicas?

O grande foco do relatório é defender que o tratamento da demência deve ir muito além dos medicamentos. É aqui que entram as terapias não farmacológicas, que não usam remédios, mas sim atividades e estratégias para manter a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida. O documento ressalta que essas terapias devem ser personalizadas e centradas na pessoa, levando em conta seus gostos, história e necessidades.

  • Reabilitação Cognitiva: É um dos pilares. Em vez de exercícios genéricos, o foco é em tarefas significativas. Por exemplo, se a pessoa gosta de cozinhar, o terapeuta pode trabalhar com ela a reabilitação de tarefas como ler uma receita ou organizar os ingredientes. A pesquisa mostra que essas intervenções sob medida melhoram o desempenho em atividades diárias e podem atrasar a necessidade de cuidados em tempo integral.
  • Terapia Ocupacional: Ajuda a pessoa a se adaptar ao ambiente. Isso pode incluir pequenas mudanças na casa, como instalar barras de apoio, ou usar dispositivos de tecnologia assistiva para ajudar na memória. A meta é que a pessoa continue a fazer o máximo de atividades cotidianas sozinha, como se vestir e se alimentar.
  • Fisioterapia e Atividade Física: Manter o corpo ativo é crucial. Caminhadas, yoga, pilates e exercícios de equilíbrio não só melhoram a saúde física, mas também podem ajudar a manter a clareza mental, reduzir a ansiedade e melhorar o sono.
  • Musicoterapia: O relatório destaca o poder da música para acessar memórias e emoções, mesmo em estágios avançados da doença. A música pode reduzir a agitação, melhorar o humor e facilitar a comunicação.
  • Socialização e Atividades Mentais: O isolamento é um grande inimigo. O relatório sugere atividades como participar de clubes de leitura, fazer palavras cruzadas, aprender um novo idioma ou um novo hobby. A sociabilidade e o desafio mental criam “reservas” no cérebro que ajudam a retardar a progressão dos sintomas.

O impacto desses tratamentos é enorme: estudos mostram que pessoas que se engajam em reabilitação personalizada têm menos incapacidade e conseguem viver em suas próprias casas por mais tempo. O relatório da ADI reafirma isso, mostrando que essas terapias são custo-efetivas e aliviam a pressão sobre os sistemas de saúde.

4. Políticas públicas no mundo: o que os países mais avançados estão fazendo?

O relatório utiliza estudos de caso de diversos países para ilustrar o sucesso das políticas públicas. Embora o Brasil, a América Latina e o Caribe ainda enfrentem desafios imensos, países como a Holanda, a Alemanha, a Espanha e o Reino Unido já avançaram significativamente.

Esses países não só criaram planos nacionais de demência, mas também investem em:

  • Financiamento público: As terapias de reabilitação não são um privilégio, mas sim uma parte coberta pelo sistema de saúde. Isso garante que todos, independentemente da renda, tenham acesso ao tratamento.
  • Formação profissional: Há um investimento na capacitação de profissionais de saúde, assistentes sociais e cuidadores para que apliquem as terapias não farmacológicas de forma adequada.
  • Integração do cuidado: O tratamento não é isolado. Há uma coordenação entre os serviços de saúde, assistência social e a comunidade, com o objetivo de oferecer um suporte contínuo e integrado.
  • Cidades Amigas da Demência: Iniciativas em comunidades que promovem a inclusão e o apoio, educando a população e criando ambientes seguros e acessíveis para pessoas com demência.

5. Conclusão: As ações concretas que devemos ter

O Relatório Mundial de Alzheimer 2025 é um convite à ação. Ele nos mostra que a esperança está no cuidado centrado na pessoa e na reabilitação. As ações que devemos ter, baseadas no documento, são:

  1. Lutar pela acessibilidade: Pressionar por políticas públicas que tornem as terapias não farmacológicas um direito universal, não um luxo.
  2. Mudar a mentalidade: Encarar a demência não como o fim da vida, mas como uma condição que exige reabilitação, dignidade e respeito.
  3. Apoiar a capacitação: Incentivar e valorizar a formação de profissionais especializados nessas terapias.

O relatório nos dá a certeza de que a reabilitação pode restaurar a esperança e o propósito de vida, tanto para quem tem a doença quanto para suas famílias. É o nosso dever, como sociedade, garantir que esse novo modelo de cuidado se torne a realidade para todos.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Plano de ação global sobre a resposta de saúde pública à demência 2017-2025. Genebra: OMS, 2017.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance on person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2019.

Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

Alzheimer’s Disease International (ADI) ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2025: Reimaginando a vida da pessoa com demência: o poder da reabilitação. Londres: ADI, 2025. (Referência baseada no tema central citado no texto do usuário).

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: Attitudes to dementia. London: ADI, 2019.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (Org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

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PERRACINI, Monica Rodrigues. Planejamento e Adaptação do Ambiente para Pessoas Idosas. In: FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

YASSUDA, Mônica Sanches et al. Envelhecimento e Cognição: Memória, Funções Executivas, Linguagem e Habilidades Visuoespaciais. In: FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

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