As festas de fim de ano chegaram e, com elas, a vontade de reunir a família e celebrar. No entanto, visitar um idoso, especialmente aqueles diagnosticados com Alzheimer ou outras demências, exige um planejamento cuidadoso e muita empatia. O ambiente festivo, cheio de estímulos, pode ser um gatilho para alterações de comportamento se não soubermos manejar a situação corretamente.
Preparamos este guia prático focando na segurança e no bem-estar da pessoa idosa e de toda família.
1. Não Crie Expectativas
Antes de sair de casa, ajuste suas expectativas. A abordagem deve mudar radicalmente dependendo da condição cognitiva do anfitrião ou visitado.
O foco é o acolhimento e a segurança. Se você não vê esta pessoa há muito tempo pode ser que perceba diferenças em seu comportamento, mas isso não é uma regra. Cada fase da demência apresenta um tipo de comportamento e nas fases iniciais você pode nem perceber alteração nenhuma, ou oscilações leves. O importante é você observar como esta pessoa se comporta para que você possa agir com naturalidade mediante qualquer atitude ou fala “estranha e desconexa” que ela porventura apresentar. Nunca tente trazer essa pessoa para a sua realidade, entre você na realidade dela.
• Atenção: É normal que o comportamento desta pessoa idosa com alguma demência fique até “normal” na presença de pessoas que ela não convive diariamente. Com quem ela convive todos os dias, as mudanças de comportamento são bem perceptíveis, portanto, não diga que é exagero do cuidador, afinal, na sua frente este idoso não se comportará da mesma maneira que se comporta quando está a sós com quem cuida dele.

2. A Regra de Ouro da Visita: Não Teste a Memória
Ao chegar na festa ou na casa da pessoa idosa com demência, evite a pergunta clássica: “Você sabe quem eu sou?”. Se perceber que esta pessoa está te olhando, sem muita certeza de quem você é b
• Por que não fazer: A memória recente e a de reconhecimento facial (prosopagnosia) são frequentemente afetadas no Alzheimer. Perguntar se ele lembra gera constrangimento, humilhação e ansiedade, pois ele sente que deveria saber, mas não sabe.
• O que fazer: Apresente-se imediatamente. Diga: “Oi, Vô, sou eu, a Maria, sua neta, filha da Joana”. Isso situa o idoso, traz segurança e evita o estresse cognitivo.
3. Comunicação e Terapia de Reminiscência
Para manter uma conversa agradável, utilize a Terapia de Reminiscência. Estudos apontam que estimular memórias antigas melhora o humor, o bem-estar e a comunicação, reduzindo a sobrecarga do cuidador.
• Foque no Passado: A memória remota (do passado distante) costuma estar mais preservada do que a recente. Converse sobre o Natal da infância dele, as comidas que ele gostava de fazer ou histórias de pescaria e trabalho antigo. Envolva a pessoa idosa no assunto e não ignore sua presença. Mesmo que de forma limitada, ela pode interagir de alguma forma
• Evite perguntas complexas: Não pergunte “O que o senhor almoçou hoje?”. Prefira contar histórias e deixar ele completar se conseguir. Se ele repetir a mesma história várias vezes, ouça como se fosse a primeira vez. Para este idoso é sempre a primeira vez que ele está dizendo.

4. Gerenciamento do Ambiente: Cuidado com o Excesso de Estímulos
As festas de fim de ano são barulhentas e iluminadas. Para um cérebro com demência, isso pode ser interpretado como ameaça.
• Ruídos e Luzes: Músicas altas, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e luzes piscando podem causar agitação, irritabilidade e até agressividade. O idoso pode não compreender o que está acontecendo e sentir medo.
• Dica Prática: Se perceber sinais de irritação, leve o idoso para um cômodo mais silencioso. Utilize a técnica da distração, oferecendo algo que ele goste de comer ou colocando uma música suave que ele conhecia antigamente.
5. Respeite a Rotina
A quebra de rotina é um dos maiores inimigos do bem-estar do idoso com demência. A rotina gera segurança neurológica.
• Horários: Antes da visita, converse com o cuidador/cuidadora e veja se esta pessoa está em um bom dia para te receber. O comportamento muda muito e, se esta pessoa idosa estiver agitada, a presença de pessoas no ambiente pode deixar tudo ainda mais difícil. Pergunte qual o melhor horário para evitar o momento de sono e a Síndrome do Pôr do Sol, que causa agitação no final da tarde.
• Apoie o Cuidador: O familiar ou profissional que cuida diariamente sabe a realidade “nua e crua”. Se ele disser que não é uma boa hora para visitas, respeite. O idoso pode parecer bem, mas o cuidador lida com as duras consequências comportamentais depois. Pergunte como você pode ajudar o cuidador, talvez ficando com o idoso para que ele possa comer ou descansar um pouco.

5. Respeite o Cuidador Principal
Seja um cuidador profissional ou familiar, está é a pessoa que mais sabe do quadro que a pessoa idosa apresenta e, suas diversas alterações de comportamento, nem sempre fáceis. Cuidadores ficam exaustos, física e mentalmente, e muitas vezes, visitas são estressantes para eles também, que já estão esgotados da pesada carga do cuidado.
• Apoie o Cuidador: O que este(a) cuidador(a) menos precisa é de opiniões. Tenha certeza que esta pessoa está dando tudo de si (e mais um pouco) para oferecer o melhor a este idoso, mas nem sempre vai acertar, e está tudo bem. Não critique ou faça sugestões porque isso pode deixar este cuidador ainda mais fatigado.
• Dica Prática: Pergunte como você pode ajudar. Qualquer coisa que você fizer por este(a) cuidador(a) pode fazer uma grande diferença. Ofereça para ficar com este idoso por algum tempo para que esta pessoa possa sair um pouco, fazer comprar, tomar um café, visitar um amigo ou quem sabem até mesmo dormir um pouco.
Conclusão
Visitar um idoso com demência no Natal e Ano Novo é um ato de amor, mas requer técnica e sensibilidade. O uso de intervenções não farmacológicas, como a adequação ambiental e a comunicação assertiva, são fundamentais para prevenir agitação e garantir a qualidade de vida tanto do paciente quanto da família. Lembre-se: a presença e o afeto valem mais do que qualquer protocolo social.
Referências:
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