As festas de fim de ano trazem luzes, reencontros e celebrações, mas para quem atua como cuidador(a) de pessoas idosas — seja familiar ou profissional — esse período pode vir carregado de uma sobrecarga física e emocional intensa. A quebra da rotina, o excesso de estímulos e a gestão familiar tornam o trabalho de cuidar muito mais desafiador nessa época.
Para ajudar você a navegar por este período com mais leveza e técnica, preparamos este guia focado não apenas no idoso, mas principalmente em você, que cuida.
1. O Impacto da Quebra de Rotina no Cuidador
A rotina é o pilar da segurança para o idoso e do descanso para o cuidador. Quando as festas chegam, a casa enche, os horários mudam e a alimentação sai do padrão. O resultado? Idosos mais agitados e cuidadores mais estressados.
Para quem cuida de pessoas idosas com Alzheimer ou outras Demência a rotina é inegociável para evitar alterações comportamentais graves. Manter os horários de sono e alimentação é uma estratégia de proteção para o cuidador, pois previne a “Síndrome do Pôr do Sol” (agitação que a pessoa idosa pode apresentar no final da tarde) e reduz o desgaste físico de ter que manejar crises de agressividade ou confusão durante a ceia.

2. Gerenciando Expectativas e Comportamentos
Tentar argumentar logicamente com quem perdeu essa capacidade é uma das maiores fontes de estresse e gera muita frustração no cuidador.
Perguntas repetitivas (“Que horas vamos comer?”, “Cadê minha mãe?”), agitação devido ao barulho, excesso de luminosidade, não reconhecimento de familiares e/ou do ambiente, são alguns dos fatores que podem deixar o idoso mais confuso e agitado.
Se a pessoa idosa já apresenta este tipo de comportamento no dia a dia, participar com ela de uma festa de fim de ano pode ser muito estressante para ela e para você. Comunique com as demais pessoas que estarão na ceia sobre a probabilidade deste comportamento acontecer e oriente-as como devem agir (aqui no blog eu ensino tudo sobre estes comportamentos). Assim você terá suporte de mais pessoas para driblar a agitação.
3. O Cuidador Não é um Super-Herói: Delegue e Peça Ajuda
Estudos apontam que a sobrecarga do cuidador está diretamente ligada à tentativa de centralizar todas as tarefas. A ideia de que “ninguém faz tão bem quanto eu” é uma armadilha que leva à exaustão.
• Divida Responsabilidades: A festa é de todos, o cuidado também deve ser. Se você é o cuidador principal, peça para outros familiares ficarem com o idoso enquanto você toma um banho relaxante, come, conversa com outras pessoas.
• Eduque a Família: Parentes e amigos que não convivem com o idoso podem não entender a doença. Explique antes da festa que o idoso não deve ser testado (“Lembra quem eu sou?”). Isso evita constrangimentos que sobrariam para você administrar depois.
4. Técnicas de Autocontrole para Momentos de Estresse
Quando a paciência estiver por um fio devido à agitação do idoso ou palpites de familiares, utilize recursos técnicos para se regular emocionalmente.
• Respiração Consciente: A paciência é treinável. Quando sentir a raiva ou a exaustão subindo, pratique a respiração diafragmática (inspire em 4 segundos, segure 4, solte em 4). Isso envia um sinal físico de calma para o seu cérebro, evitando reações impulsivas.
• Racionalize a Situação: Lembre-se que a agressividade ou a repetição do idoso com demência são sintomas da doença, não provocações pessoais. Separar o “doente” do “comportamento” ajuda a diminuir a mágoa e o estresse.

5. Intervenções Não Farmacológicas como Aliadas
Utilize o ambiente a seu favor. Estudos recentes reforçam que intervenções não farmacológicas são eficazes para reduzir o estresse de quem cuida.
• O Ambiente: Deixe a pessoa idosa em um cômodo da casa que tenha menos barulho e oriente as pessoas para que, no máximo 02 de cada vez, venha interagir com ela para evitar muita conversa ao mesmo tempo.
• Música e Reminiscência: Use músicas antigas que o idoso gosta para acalmá-lo e distraí-lo. Isso melhora o humor do ambiente e reduz a tensão.
6. Avalie Riscos e Benefícios
Ninguém melhor que você, que convive diariamente com esta pessoa, pode identificar se é conveniente ou não que este idoso participe das festas de fim de ano. Mas é fato que a sua vontade de participar deve ser respeitada e valorizada.
Se você sabe que pode não fazer bem ao idoso a agitação da festa, não se force a ter que levá-lo só para agradar as pessoas, deixe-o em casa, mantendo sua rotina, e peça ajuda de outras pessoas para que você participe em algum momento da Ceia. Faça um rodízio entre os familiares e amigos, de modo que a cada tempo tenha uma pessoa na companhia deste idoso e assim todos participam das festas.

Conclusão
Cuidar de si mesmo é a primeira regra para cuidar bem do outro. Nestas festas, permita-se dividir o fardo, utilizar técnicas que simplifiquem a convivência e, acima de tudo, respeite seus limites. O bem-estar do cuidador é essencial para a qualidade de vida do idoso.
Para construir as referências bibliográficas do texto fornecido seguindo as normas da ABNT (NBR 6023), utilize as fontes listadas abaixo, que foram extraídas dos documentos fornecidos e complementadas com as entidades solicitadas:
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