Ondas de Calor e a Pessoa Idosa: Como Proteger quem Você Cuida

O verão e as mudanças climáticas trazem um desafio extra para quem cuida: as ondas de calor. Você sabia que o corpo do idoso sente o aumento da temperatura de forma muito mais intensa? Isso acontece porque, com o envelhecimento, há uma redução da quantidade de glândulas sudoríparas (que produzem o suor) e diminui a espessura dos vasos sanguíneos da pele. Portanto, o idoso tem muito mais dificuldade para “suar” e resfriar o corpo, tornando-se extremamente vulnerável ao estresse térmico em ambientes quentes. A percepção de sede diminui e o sistema de regulação térmica do organismo fica menos eficiente.

Há 02 grandes riscos: Desidratação e hipertermia, que é o aumento da temperatura corporal.

Para garantir segurança ao idoso, é fundamental que cuidadores familiares e profissionais estejam muito atentos e sejam ágeis. Abaixo, organizamos um guia prático para manter a segurança e o bem-estar nos dias de sol forte.

1. Hidratação: Mais do que apenas beber água

A regra de ouro é: não espere o idoso pedir. O reflexo da sede é reduzido na velhice, então a oferta deve ser proativa.

Meta Diária: Ofereça cerca de 06 a 08 copos de água por dia. Em dias de calor extremo, essa quantidade deve aumentar significativamente, passando para 08 a 10 copos.

Variação é a Chave: Se houver resistência à água pura, utilize águas aromatizadas (com hortelã ou frutas), sucos naturais, chás gelados ou água de coco.

Atenção aos Alimentos: Ofereça frutas ricas em água, como melancia e melão, e evite refeições muito pesadas ou gordurosas que dificultam a digestão.

2. Ambiente e Vestuário

O local onde o idoso vive precisa ser um refúgio contra o mormaço.

Roupas Leves: Prefira tecidos naturais como o algodão, que permitem a pele respirar. Evite botões e zíperes complexos que possam causar irritação se o idoso suar.

Controle Térmico: Mantenha as cortinas fechadas nos horários de pico do sol para evitar o aquecimento excessivo dos cômodos. Use ventiladores ou ar-condicionado, mas sempre observando se o fluxo de ar não está causando desconforto direto.

3. Diferenciando o Cuidado: Lúcidos vs. Quadros de Demência

A abordagem precisa mudar conforme a capacidade cognitiva do idoso, pois a forma de expressar o desconforto é diferente.

Idosos Lúcidos

Precisam ser respeitados em sua autonomia. Com quem está lúcido, o foco é o diálogo e a educação sobre os riscos.

Explique as Consequências: Converse sobre como o calor pode causar tonturas e levar a quedas, que são as maiores causas de internação nessa idade.

Respeite a Escolha, mas Negocie: Se o idoso se recusa a beber água, apresente opções: “O senhor prefere água gelada ou um suco de laranja natural?” Dar poder de escolha aumenta a adesão.

Idosos com Demência (Alzheimer e outras)

O Desafio da Comunicação. Nesses casos, a pessoa pode apresentar afasia (dificuldade de falar) e não conseguir dizer que está com calor ou sede e nem mesmo expressar os desconfortos oriundos da alta temperatura.

Agitação como Sinal: Se o idoso começar a perambular, agitar ou demonstrar irritabilidade repentina, investigue se ele está com sede ou calor. A mudança brusca de comportamento já pode indicar um quadro de desidratação. O comportamento é uma forma de comunicação. A mudança de comportamento pode acontecer também para um padrão mais apático, sonolento e com redução da capacidade de interação. Esteja atento à qualquer padrão de mudança comportamental.

Técnicas de Distração: Se ele resiste a trocar de roupa ou beber líquidos, não discuta. Use a mentira terapêutica ou mude o foco: “Olha que suco geladinho a vizinha mandou para a senhora provar!”.

Banho de Alívio: Use o chuveirinho com água morna ou ambiente. Comece pelos pés para evitar sustos e pânico.

4. Sinais de Alerta: Quando se preocupar?

A desidratação e a hipertermia em pessoas idosas podem evoluir para um quadro de Delirium (mudança repentina de comportamento) muito rapidamente. Fique atento a:

1. Boca, lábios e língua secos.

2. Urina muito escura ou em pequena quantidade.

3. Sonolência excessiva ou apatia profunda.

4. Quedas frequentes ou fraqueza muscular repentina.

5. Agitação, confusão mental e perambulação.

6. A pele pode ficar seca e os olhos fundos (sinais de desidratação grave associada ao calor).

7. Perda de Equilíbrio que pode aumentar drasticamente o risco de quedas.

Dicas extras para o Cuidador

Não use medicamentos para “sossegar”: Agitação por calor não se trata com sedativos, que aumentam o risco de quedas e pioram a confusão.

Cuide de você: O calor também desgasta o cuidador. Se você estiver exausto e estressado, o idoso sentirá sua tensão e ficará mais agitado. Pedir ajuda é essencial!

Referências:

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2019.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Orientações técnicas para a implementação de Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Resumo. Washington, DC: OPAS, 2022.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Washington, DC: OPAS, 2021.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2024.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines. Geneva: World Health Organization, 2019.

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