Perda de Memória em Idosos: Esquecimento Não é Coisa da Idade!

É muito comum ouvirmos que esquecer as coisas faz parte do envelhecimento. No entanto, existe diferença entre as mudanças naturais do cérebro e os sinais de um quadro de demência. Nosso objetivo é trazer clareza para que sua jornada de cuidado seja baseada em conhecimento e segurança.

O envelhecimento saudável é um processo de manutenção da habilidade funcional e do bem-estar. Portanto, entender quando a memória pede socorro é o primeiro passo para garantir qualidade de vida ao idoso.

1. O que é normal no envelhecimento?

Com o passar dos anos, o cérebro sofre uma redução natural de volume e de conexões entre os neurônios. Por isso, é esperado que o idoso apresente um processamento de informações um pouco mais lento.

Esquecer o nome de um conhecido distante ou demorar para lembrar onde guardou os óculos, mas conseguir encontrá-los depois, geralmente não indica uma doença. Nessas situações, a inteligência cristalizada (conhecimento acumulado e vocabulário) costuma permanecer estável.

Este tipo de esquecimento não traz nenhum grande prejuízo à vida dessa pessoa idosa. Ela continua sendo capaz de manter sua autonomia e construir raciocínios lógicos de pensamento e diálogo, mesmo estando com o processamento das informações um pouco mais lento.

2. Sinais de Alerta: Quando o sinal amarelo acende

A perda de memória se torna preocupante quando começa a impactar as atividades de vida diária. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o declínio cognitivo deve ser investigado se houver prejuízo na autonomia.

Fique atento se o idoso apresentar estes comportamentos:

Repetição excessiva: Fazer a mesma pergunta ou contar a mesma história várias vezes em poucos minutos.

Desorientação no tempo e espaço: Confundir o dia da semana, o ano ou perder-se em caminhos que sempre fez.

Dificuldade em tarefas simples: Atrapalhar-se para fazer coisas rotineiras, que sempre fez com muita facilidade e sem nenhum auxílio.

Dificuldade em tarefas complexas: Deixar de conseguir gerenciar o próprio dinheiro, cuidar dos medicamentos ou outro tipo de tarefa que exija mais atenção e habilidades específicas.

Mudanças de personalidade: Aparecimento súbito de irritabilidade, apatia ou desinteresse por hobbies.

3. A Diferença no Olhar

É fundamental diferenciar como o idoso percebe a própria falha de memória, pois a abordagem do cuidador deve mudar completamente.

Declínio Cognitivo Subjetivo

A própria pessoa percebe que sua memória está falhando, mas os testes formais de avaliação clínica, ainda podem dar resultados normais. As atividades rotineiras não são impactadas e as pessoas que convivem com este idoso não percebem nenhum tipo de alteração significativa.

O que observar: O idoso reclama que “a cabeça está estranha” e demonstra sofrimento com os lapsos.

Como agir: Não minimize a queixa. Incentive o uso de agendas, calendários e promova estimulação cognitiva, como aprender habilidades novas para fortalecer a reserva cerebral.

Fase Inicial da Demência

Aqui, muitas vezes ocorre a anosognosia, que é a falta de consciência da doença. Esta pessoa reconhece as falhas da sua memória, mas minimiza o problema usando frases do tipo: “sempre fui assim.” “Isso é da idade.”

O grande impacto está nas atividades rotineiras, que essa pessoa fazia sem ajuda e já começa se tornar desafiadora, chegando ao ponto de não conseguir executar.

O que observar: O idoso nega que esqueceu, inventa desculpas ou acusa outras pessoas de terem escondido seus objetos. Ele perde a memória de curto prazo (o que acabou de acontecer), mas lembra com detalhes de fatos de 40 anos atrás.

Como agir: Nunca discuta ou tente provar que ele está errado. Validar os sentimentos que essa pessoa apresenta é sempre o melhor caminho.

4. Outras Causas de Esquecimento

Nem todo esquecimento é devido a quadros demenciais. Existem outras condições que causam esquecimentos e confusões mentais que, quando tratadas, o quadro é reversível e a condição cognitiva é reestabelecida. Portanto, é importante investigar:

  • Hipotireoidismo
  • Baixa de Vitamina B12
  • Transtornos Depressivos
  • Transtorno de Ansiedade
  • Quadros infecciosos
  • Desidratação
  • Medicamentos

Dicas Práticas para o Cuidador

1. Mantenha a Rotina: A previsibilidade dos horários reduz a ansiedade e a confusão mental do idoso.

2. Procure um Especialista: O diagnóstico de demência é clínico e deve ser feito por um neuropsicólogo, geriatra, neurologista ou psicogeriatra, através de testes de testes específicos.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2024.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on ageing and health. Geneva: World Health Organization, 2015.

Ministério da Saúde

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

Alzheimer’s Disease International

  • ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2015: The Global Impact of Dementia: An analysis of prevalence, incidence, cost and trends. London: ADI, 2015.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

  • FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  • REBELLATO, C.; GOMES, M. C. A.; CRENITTE, M. R. F. (org.). Introdução às velhices LGBTI+. Rio de Janeiro: SBGG-RJ, 2021.

Artigos Científicos e Outras Referências (Bases SciELO/PubMed/BVS)

  • APRAHAMIAN, I.; BIELLA, M. M.; SIQUEIRA, A. S. S. Rastreio cognitivo em idosos. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 1340-1360.
  • DENT, E. et al. The International Conference on Frailty and Sarcopenia Research (ICFSR) International Clinical Practice Guidelines for Identification and Management of Frailty. Journal of Nutrition, Health & Aging, v. 23, n. 9, p. 771-787, 2019.
  • MONTERO-ODASSO, M. et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, p. 1-36, 2022.
  • PERRACINI, M. R.; FLÓ, C. M. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. São Paulo: Editora Atheneu, 2019.
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