Vamos falar daquelas feridas que surgem quando a pessoa permanece muito tempo na mesma posição. Elas acontecem porque há uma interrupção da circulação do sangue em locais onde os ossos são mais salientes. Você já notou uma mancha vermelha na pele do idoso que não desaparece após o toque? Isso pode ser o início de uma lesão por pressão, popularmente conhecida como escara.
Como a pele do idoso é naturalmente mais fina e seca devido à perda de colágeno e elasticidade, qualquer pressão prolongada torna-se perigosa. Além disso, estudos apontam que idosos em situações de restrição física têm um risco 13 vezes maior de desenvolver essas lesões, especialmente na região sacral (final da coluna, próximo às nádegas), calcanhares e quadris.
Para que você possa oferecer um cuidado de qualidade e evitar internações desnecessárias, organizamos estratégias sistemáticas de prevenção.
Estratégias Práticas de Prevenção
Prevenir é certamente mais simples do que tratar uma ferida que pode levar meses para cicatrizar. Siga estes passos fundamentais:
• Mudança de Decúbito (Troca de Posição): Mude a posição do idoso a cada 2 horas, seja na cama, na poltrona ou na cadeira de rodas.
• Hidratação da Pele: Após o banho, use cremes hidratantes e óleo de girassol (misture os dois e passe em todo o corpo, exceto rosto) para manter a integridade da pele.
• Alívio de Pressão: Utilize almofadas, travesseiros ou rolos de toalha para proteger os calcanhares e joelhos, impedindo que os ossos encostem um no outro ou no colchão.
• Cuidado com o Enxoval: Mantenha os lençóis sempre bem esticados. Dobras e rugas na roupa de cama podem ferir a pele sensível.
• Banho de Sol: A exposição ao sol (15 a 30 minutos, nos horários adequados) fortalece a pele e auxilia na cicatrização.
• Colchão: O ideal é o colchão pneumático. Modelos caixa de ovo, colchão de ar ou de água não são tão eficazes na prevenção como o colchão pneumático.

Diferenciando o Cuidado: Idosos Lúcidos vs. Demência
A abordagem do cuidador deve ser adaptada conforme a capacidade de compreensão do idoso, pois a comunicação é a base do sucesso terapêutico.
Idosos Lúcidos (Autonomia Preservada)
Neste caso, o foco é a educação e a negociação.
• Explique os riscos: Converse sobre como a imobilidade gera feridas dolorosas que limitam a independência.
• Estimule o autocuidado: Se o idoso tem força nos braços, incentive-o a aliviar o peso do corpo sobre as nádegas mudando levemente de posição sozinho.
• Decisão Compartilhada: Respeite a autonomia dele, mas mostre que a colaboração nas trocas de posição é essencial para sua saúde geral.
Idosos com Demência (Alzheimer e outras)
Aqui, o idoso pode não conseguir verbalizar o desconforto ou a dor (afasia), expressando-os por meio de agitação ou agressividade.
• Observe Sinais Não Verbais: Se o idoso se irritar ou chorar sem motivo aparente, investigue a pele em busca de pontos de pressão ou dor.
• Use a Distração: Se houver resistência para mudar de posição, não discuta. Utilize músicas antigas ou conte histórias do passado para mudar o foco de atenção e realizar a manobra com calma.
• Rotina é Segurança: Estabeleça horários fixos para as mudanças de posição. A previsibilidade ajuda a reduzir a ansiedade e torna o idoso mais cooperativo.

Quando Chamar a Equipe de Saúde?
Fique alerta se observar inchaço, manchas, calor local ou feridas abertas, especialmente em áreas expostas a urina e fezes. O tratamento deve ser definido por um profissional especializado para evitar infecções graves como a septicemia.
Referências:
ABREU, D. Avaliação e intervenção fisioterapêutica na dor em pessoas idosas. São Paulo: Instituto e Rede de Apoio LUZ, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia prático do cuidador. Brasília: Ministério da Saúde, 2008. (Série A. Normas e Manuais Técnicos).
FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
SOUZA, L. M. S. et al. Lesão por pressão associada à contenção mecânica: estudo transversal. ESTIMA, Braz. J. Enterostomal Ther., v. 17, e0919, 2019.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO, 2019.