Fevereiro chegou e, com ele, a campanha Fevereiro Roxo.
O diagnóstico de uma doença incurável assusta, mas hoje quero desmistificar esse medo. Afinal, se não dá para curar, dá para tratar! Vamos entender como transformar o dia a dia de quem convive com Alzheimer, Lúpus e Fibromialgia.
O que é o Fevereiro Roxo?
Esta campanha conscientiza a população sobre três doenças distintas, mas que possuem algo em comum: são crônicas e ainda não têm cura. O objetivo é mostrar que o tratamento precoce garante dignidade e bem-estar. Não ter cura não é sinônimo de “fim de linha”, mas sim de um novo começo focado no cuidado integral.
De acordo com o Tratado de Geriatria e Gerontologia (2022), o cuidado em condições crônicas deve focar na preservação da funcionalidade, garantindo que o idoso mantenha sua autonomia pelo máximo de tempo possível.
1. Doença de Alzheimer
O Alzheimer é a forma mais comum de demência em idosos. Ele afeta a memória, o raciocínio e o comportamento de forma progressiva.

- Sintomas iniciais: Perda de memória recente e preservação da memória remota, desorientação no tempo/espaço e dificuldade para encontrar palavras simples e para fazer coisas que fazia com facilidade
- Diagnóstico: O médico avalia o histórico, principalmente considerando a observação e a fala das pessoas que convivem diariamente com o idoso e observam as alterações. Também são aplicados testes de rastreio cognitivo que ajudam a identificar quais as habilidades estão mais comprometidas (como o Mini-Mental, MoCa, Teste do Relógio, Teste de Palavras e outros) e solicita exames de imagem para excluir outras causas (ALZHEIMER’S ASSOCIATION, 2024).
- Cuidados necessários: No Alzheimer, o remédio ajuda a manter a química cerebral e auxilia no controle do comportamento, mas o ambiente e o afeto sustentam o cuidado. Criar uma rotina previsível é fundamental, é uma das medidas mais importantes no tratamento. Além disso, a estimulação cognitiva (jogos, conversas, música e tantos outros tipos de atividaes) ajuda a manter as conexões cerebrais ativas. Veja alguns exemplos de cuidados simples que podem ser feitos:
- Terapia de Reminiscência: Crie uma “Caixa de Memórias” com objetos significativos na história deste idoso. Busque por peças que tenham texturas e cheiros familiares (um pano de prato, um perfume antigo, uma ferramenta). Use álbuns de fotos e músicas da juventude. Isso estimula áreas do cérebro que a doença demora mais a atingir.
- Higiene do Sono: Idosos com Alzheimer costumam trocar o dia pela noite. É importante que este idoso tenha bastante contato com a claridade natural durante o dia, se possível fazendo atividades ao ar livre. Evite telas e luzes fortes após as 18h, bem como café, doces, bebidas alcoólicas e cigarro. Amenize ruídos no ambiente após as 20h e tente levar este idoso para a cama após as 21h.
- Adaptação Ambiental: Simplifique o espaço. Menos estímulos visual e sonoro reduzem a confusão mental e a agressividade. Identifique portas (ex: colocar uma placa escrito “Banheiro”).
2. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
O Lúpus é uma doença autoimune onde o sistema de defesa ataca o próprio corpo, causando inflamações nos órgãos, articulações e pele.

- Sintomas iniciais: Manchas avermelhadas no rosto (em formato de “borboleta”), cansaço extremo, febre baixa sem causa aparente e dores nas articulações.
- Diagnóstico: O médico analisa os sintomas físicos e solicita exames de sangue específicos, como o FAN (Fator Antinuclear), para confirmar a atividade autoimune (FAN et al., 2023).
- Cuidados necessários: A medicação controla a imunidade, por isso é muito importante, mas medidas não farmacológicas visam impedir que o sistema imunológico “desperte” e ataque o corpo. Veja o que você deve fazer:
- Fotoproteção Rigorosa: A fotoproteção é inegociável. Não é só passar protetor solar uma vez, é usar roupas com proteção UV, chapéus e evitar o sol mesmo dentro de casa se houver janelas grandes, pois a luz visível e o UV são gatilhos para inflamação (FAN et al., 2023).
- Gestão do Estresse: O estresse emocional é um dos maiores causadores de crises (“flares”). Psicoterapia é parte fundamental no cuidado, pois a gestão emocional ajuda a manter o sistema imune em calma.
- Dieta Anti-inflamatória: Priorize alimentos reais (frutas, vegetais, peixes ricos em Ômega-3) e evite ultraprocessados que inflamam as articulações.
- Dica Prática: Use aplicativos de meditação de 5 minutos diários. O equilíbrio mental é seu melhor aliado.
3. Fibromialgia
A fibromialgia causa dores generalizadas em todo o corpo, além de afetar o sono e o humor. É muito comum em mulheres idosas.

- Sintomas iniciais: Dor constante por mais de três meses em vários pontos do corpo, sensação de “sono que não descansa” e lapsos de memória (conhecidos como fibrofog).
- Diagnóstico: Como não aparece em exames de sangue ou imagem, o diagnóstico é feito pela análise dos sintomas e pontos de dor identificados pelo reumatologista.
- Cuidados necessários: O tratamento não farmacológico é considerado o “pilar de ouro”. O remédio ajuda na dor, mas o movimento educa o cérebro a não interpretar tudo como sofrimento. Aqui estão listadas medidas necessárias a serem adotadas:
- Exercício Aeróbico de Baixo Impacto: Caminhadas leves, natação ou hidroginástica são excelentes remédios. O segredo é a regularidade, não a intensidade. O movimento libera endorfina, o analgésico natural do corpo. Terapias de relaxamento também são grandes aliadas (BHASKAR et al., 2021).
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Esta linha de abordagem psicoterápica ajuda o paciente a mudar a forma como percebe a dor, quebrando o ciclo de “dor-medo-inatividade”.
- Higiene da Postura: Pequenos ajustes na forma de sentar e dormir reduzem a sobrecarga nos pontos de dor (tender points).
- Dica Prática: A técnica de “Pacing” (ritmo). Não tente fazer tudo num dia em que está sem dor. Distribua as tarefas para não exaurir o corpo e causar uma crise no dia seguinte.
Por que o tratamento é tão importante?
Quando seguimos o tratamento, evitamos complicações graves. O foco não é eliminar a doença, mas sim adicionar qualidade de vida aos anos. Com o suporte da equipe multiprofissional (médico, enfermeiro, nutricionista, educador físico, fisioterapeuta e psicólogo), conseguimos controlar a dor, a depressão e o isolamento social.
A Importância da Equipe Multiprofissional
O tratamento clínico é o capitão do navio, mas a equipe multiprofissional são os marinheiros que fazem a viagem ser suave. Estudos recentes na BVS (2024) destacam que pacientes que realizam terapias combinadas (remédio + estilo de vida) relatam uma melhora de até 60% na percepção de bem-estar em comparação aos que usam apenas fármacos. É por isso que você não pode esquecer nunca: “Se não dá pra curar, dá pra tratar!”
Referências:
ALZHEIMER’S ASSOCIATION. 2024 Alzheimer’s disease facts and figures. Alzheimer’s & Dementia, v. 20, n. 5, p. 3308-3391, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/. Acesso em: 01 fev. 2026.
BHASKAR, A. et al. Role of physical activity in management of fibromyalgia: a systematic review. Journal of Rehabilitation Medicine, v. 53, n. 4, 2021. Disponível em: https://bvsalud.org/. Acesso em: 01 fev. 2026.
FAN, G. et al. Updates in the diagnosis and management of systemic lupus erythematosus. Journal of Clinical Medicine, v. 12, n. 15, 2023. Disponível em: https://lilacs.bvsalud.org/. Acesso em: 01 fev. 2026.
FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.
SANTOS, M. R. et al. Intervenções não farmacológicas na dor crônica: revisão sistemática. Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), 2024. Disponível em: https://bvsalud.org/. Acesso em: 01 fev. 2026.