Você já passou por aquela situação em que o idoso, estando na própria sala de casa, olha para você e diz: “Eu quero ir para minha casa”? Se sim, você sabe que o coração aperta. Essa é uma das frases mais comuns e desafiadoras para cuidadores familiares e profissionais.
Neste post, vamos entender por que isso acontece e como você pode reagir com calma e carinho, transformando um momento de angústia em uma conexão segura.
Por que ele pede para “ir para casa” se já está nela?
Primeiramente, precisamos entender que, para quem vive com a Doença de Alzheimer, a “casa” nem sempre é um endereço físico. Muitas vezes, o idoso está expressando um sentimento de insegurança ou desorientação.
- Perda de Memória Recente: Ele pode não reconhecer os móveis atuais ou a decoração, mesmo que ele já resida nesta casa há anos.
- Busca por Segurança: A “casa” na mente dele pode ser a casa da infância, onde ele se sentia jovem, forte e seguro.
- Desconforto Físico: Às vezes, o pedido é uma forma de dizer “estou com dor”, “estou com fome” ou “estou cansado”, “estou com medo”.
Diferença importante: Enquanto um idoso lúcido pode pedir para ir para casa por estar apenas entediado ou querendo sua privacidade, no idoso com demência, esse pedido reflete uma desorientação espacial e temporal profunda (FREITAS et al., 2022).

Dicas práticas para o cuidador
Quando o idoso insistir em sair, evite bater de frente. Dizer “mas você já está em casa!” geralmente causa mais irritação e ansiedade. Tente estas estratégias:
1. Valide o sentimento, não o fato
Em vez de corrigir, acolha. Diga: “Eu entendo que você queira ir para casa. É um lugar muito bom, não é?”. Isso mostra que você está do lado dele.
2. Use a técnica da distração (Redirecionamento)
Tente desviar o foco suavemente. “Vamos tomar um café primeiro antes de sair?” ou “Me ajuda a dobrar essas toalhas e depois a gente vê isso?”. Muitas vezes, a necessidade de sair passa assim que ele se foca em outra atividade.
3. Crie um ambiente familiar
Estudos mostram que o uso de objetos pessoais, fotos antigas e uma iluminação adequada ajuda a reduzir a agitação e a sensação de “estar perdido” (ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL, 2021).
4. Evite confrontos e discussões
A lógica não funciona bem no Alzheimer. Se você tentar provar que ele está errado, o nível de estresse dele vai subir, piorando o comportamento.
5. Repita a estratégia
Quando você valida os sentimentos, este idoso se sente acolhido e isso facilita a mudança de foco. Mas é preciso lembrar que este idoso está com a memória recente comprometida, logo, ele esquece que já disse sobre ir para casa, bem como esquece sua resposta e seu acolhimento. Assim ele repetirá novamente o pedido, por isso é importante que você repita a estratégia quantas vezes for necessário.
Tabela: O que fazer vs. O que evitar
| O que fazer ✅ | O que evitar ❌ |
| Escutar com paciência e calma. | Discutir ou tentar convencer pela lógica. |
| Concordar e mudar de assunto aos poucos. | Dizer “Você está ficando esquecido, aqui é sua casa”. |
| Verificar se há dor, fome ou sono. | Ignorar o pedido ou demonstrar irritação. |
| Oferecer um abraço ou um toque afetivo. | Trancar as portas de forma ostensiva na frente dele. |
Quando o pedido esconde algo mais
A ciência explica que episódios de agitação, como querer ir embora, podem ser intensificados no final da tarde — o famoso Fenômeno do Pôr do Sol (Sundowning). Manter uma rotina estruturada é fundamental para minimizar esses momentos de crise.
O manejo não farmacológico (atividades, música, carinho) deve ser sempre a primeira escolha antes de qualquer medicação para agitação.

Conclusão
Lidar com o desejo de “ir para casa” exige mais do que paciência; exige empatia. Lembre-se que você é o porto seguro desse idoso. Quando ele pede pela casa dele, ele está pedindo por acolhimento.
Você tem passado por isso com frequência? Comente aqui embaixo como você costuma acalmar o seu familiar ou paciente!
Referências:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: ADI, 2021.
FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Diretrizes sobre cuidados de saúde para idosos: abordagem ICOPE. Genebra: OMS, 2017 (atualizado em bases BVS em 2020).
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA (SBGG). Prevenção e manejo da agitação em idosos com demência. Guia Prático, 2023.