A “regra do não” do Alzheimer: isso vai deixar o cuidado mais leve

Cuidar de um idoso com doença de Alzheimer, ou outras demências, é um ato de amor e paciência, mas também exige estratégias. Você já deve ter percebido que o que funciona com uma pessoa sem demência, muitas vezes, não funciona com quem tem Alzheimer. Por isso, existe a “Regra do Não” que serve como um guia para evitar situações de estresse, conflito e frustração, tanto para o idoso quanto para o cuidador.

Entender a “Regra do Não” não significa ser rígido, mas sim adaptar a sua abordagem para a realidade do idoso com demência.

O que NÃO fazer (e por que evitar)

Essa regra se baseia no entendimento de que a pessoa com Alzheimer vive em uma realidade diferente, e tentar puxá-la à nossa realidade só gera angústia. Um estudo de Clare et al. (2010) no International Journal of Geriatric Psychiatry reforça a importância de abordagens centradas na pessoa e adaptadas às suas capacidades residuais, em vez de focar nas perdas.

1. Não discuta

Discutir com um idoso que tem Alzheimer é improdutivo. Ele não consegue processar a lógica, argumentar ou lembrar os fatos. Tentar corrigi-lo ou provar que ele está errado só aumenta a agitação em idosos com demência e a sua frustração.

  • Evite: “Você está enganado, isso não aconteceu!” ou “Eu já te disse isso cinco vezes!”
  • Faça: Valide o sentimento dele. “Entendo que você esteja chateado.” Mude o assunto. “Que tal falarmos sobre outra coisa?” Ofereça uma distração. “Vamos tomar um chá?”

2. Não traga à realidade

A capacidade de raciocínio lógico e abstrato é uma das primeiras a ser afetada no Alzheimer. Pedir que o idoso compreenda explicações complexas ou consequências de suas ações é ineficaz.

  • Evite: “Seu pai não veio aqui, ele já morreu.” Ou “Aqui já é sua casa.”
  • Faça: Entre você na realidade que ele apresenta, sem discutir e valide aquilo que ele fala: “Seu pai vai voltar amanhã.” Ou “Quando amanhecer o dia vamos pra casa.”

3. Não pergunte se ele lembra

Apontar as falhas de memória do idoso só o envergonha e o constrange. Ele já vive com dificuldade de lembrar. Forçar a lembrança é cruel.

  • Evite: “Não se lembra do que fez ontem?” ou “Como você pôde esquecer o nome dela?”
  • Faça: Aceite o esquecimento. Se for algo importante, você pode fornecer a informação de forma suave. “Essa é a Ana, sua neta.” Ou mude o assunto. “O dia está bonito hoje, não acha?” Promova a dignidade do idoso.

4. Não faça perguntas abertas

Fazer perguntas abertas pode gerar ansiedade e confusão, pois o idoso pode não ter a resposta ou a capacidade de formulá-la.

  • Evite: “O que você quer comer?” ou “Onde você guardou isso?”
  • Faça: Ofereça escolhas limitadas e concretas. “Você quer frango ou peixe?” ou “A sua blusa está aqui ou na gaveta?” Use perguntas de sim ou não quando possível. “Você quer vestir a blusa azul?”

5. Não dê ordem

Tentar forçar o idoso a fazer algo que ele não quer ou resiste pode gerar confronto, agitação e até agressividade. Ele pode não entender o motivo ou estar se sentindo desconfortável.

  • Evite: “Você TEM que tomar banho agora!” ou “Vista essa roupa, não tem discussão!”
  • Faça: Tente distrair e redirecionar a atividade para um momento posterior. “Vamos ver um programa de TV e depois pensamos no banho, que tal?” Use uma abordagem gentil e gradual. Ofereça alternativas. “Você quer tomar banho agora ou depois do café?” (mesmo que a intenção seja tomar banho de qualquer jeito, a falsa escolha dá a ele a sensação de controle). O manejo de comportamentos desafiadores na demência envolve flexibilidade.

6. Não repita a mesma pergunta ou instrução exaustivamente

Repetir demais pode ser cansativo para ambos. Se uma instrução não funcionou, reformule-a ou espere um pouco e tente novamente de outra forma.

  • Evite: Repetir a mesma frase várias vezes com o mesmo tom.
  • Faça: Reformule a frase de maneira diferente. “Vamos almoçar agora” pode virar “A comida está na mesa, que delícia!” Use gestos, toque e um tom de voz suave. A paciência e a criatividade são fundamentais na abordagem ao idoso com Alzheimer.

A paciência é o seu superpoder

Aplicar a “Regra do Não” exige prática e muita paciência. Mas ao adotá-la, você reduzirá o estresse para você e para o idoso, criando um ambiente mais tranquilo e respeitoso. Lembre-se que o idoso não faz isso “de propósito”, é a doença agindo. Seu papel como cuidador é adaptar-se à realidade dele para garantir a sua segurança, dignidade e qualidade de vida.

Referências:

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2019. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2019.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

CLARE, L. et al. Person-centred care for people with dementia: a review of the evidence. International Journal of Geriatric Psychiatry, v. 25, n. 10, p. 1024-1033, 2010. (Conforme citado no texto base).

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

MACHADO, João Carlos Barbosa. Doença de Alzheimer. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. cap. 17.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance on person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2024.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Washington, D.C.: Organização Pan-Americana da Saúde, 2021.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA (SBGG). Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003 (atualizada até 2022). Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

TOLEDO, Maria Alice de Vilhena; BORGES, Saulo Queiroz; TAVARES JUNIOR, Almir Ribeiro. Sintomas Psicológicos e Comportamentais nas Demências. In: FREITAS, Elizabete Viana de; Ligia Py (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. cap. 26.

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