Alucinações em idosos: não é normal e precisa de atenção.

Olá, cuidadores e familiares! É um prazer estar aqui novamente para mais uma conversa que busca iluminar o caminho de quem se dedica ao cuidado de idosos. Hoje, vamos falar sobre um tema que pode ser bastante assustador e confuso: as alucinações em pessoas idosas.

Ver ou ouvir coisas que não estão lá pode ser um sinal de alerta importante. É fundamental entender que as alucinações não são “coisa da idade” e sempre merecem atenção. Vamos descobrir as causas, como diferenciar as reversíveis das irreversíveis e as melhores estratégias para lidar com essas situações.

Quando um idoso começa a ter alucinações – que podem ser visuais (ver pessoas ou objetos que não existem), auditivas (ouvir vozes ou sons), ou até táteis, olfativas ou gustativas – é natural que a família e o cuidador fiquem assustados. O primeiro e mais importante passo é: não ignore e não pense que é “loucura” ou “coisa da idade”. As alucinações sempre indicam que algo não vai bem e requerem uma avaliação médica.

Estudos em neuropsiquiatria geriátrica e geriatria clínica ressaltam que as alucinações em idosos são sintomas de base orgânica ou psiquiátrica e nunca devem ser consideradas parte do envelhecimento normal. Elas são um sinal de que algo precisa ser investigado (Burns et al., 2004).

Causas reversíveis de alucinações (boas notícias: podem ser tratadas!)

Essa é a parte que traz esperança! Muitas causas de alucinações em idosos são reversíveis, ou seja, podem ser tratadas e os sintomas podem desaparecer ou diminuir drasticamente.

  1. Infecções (principalmente urinárias):
    • O que acontece: Infecções do trato urinário (ITU), pneumonia ou outras infecções podem causar um estado de confusão mental agudo, conhecido como delirium, que inclui alucinações. O idoso pode estar desorientado, agitado e ver/ouvir coisas.
    • Como identificar: Mudanças súbitas no comportamento, febre (nem sempre presente em idosos), tremores, fraqueza, aumento da sonolência ou agitação excessiva.
    • Cuidado: Busque atendimento médico URGENTE. O tratamento da infecção geralmente reverte o quadro.
    • A literatura médica é vasta ao apontar que infecções são uma das causas mais comuns de delirium em idosos, com alucinações como um sintoma frequente. O diagnóstico e tratamento rápidos são cruciais para a reversão do quadro (Inouye, 2006).
  1. Medicamentos (efeitos colaterais ou interações):
    • O que acontece: Muitos medicamentos, especialmente sedativos, antialérgicos, analgésicos fortes, e até alguns para pressão ou coração, podem causar alucinações como efeito colateral, ou quando há interação entre vários remédios.
    • Como identificar: O início das alucinações coincide com a introdução de um novo medicamento ou mudança de dose.
    • Cuidado: NUNCA suspenda o medicamento por conta própria. Consulte o médico que prescreveu para revisar a medicação.
    • A polifarmácia (uso de múltiplos medicamentos) e a sensibilidade aumentada do idoso a certos fármacos são causas reconhecidas de alucinações e delirium induzido por drogas (Marcantonio, 2017).
  1. Desidratação e desequilíbrios eletrolíticos:
    • O que acontece: A falta de água no corpo ou o desequilíbrio de sais minerais (eletrólitos) pode afetar o funcionamento cerebral e causar confusão e alucinações.
    • Como identificar: Boca seca, pouca urina, pele seca, confusão, tontura.
    • Cuidado: Incentive a ingestão de líquidos e procure avaliação médica para correção do desequilíbrio.
  1. Problemas metabólicos (diabetes descompensada, insuficiência renal/hepática):
    • O que acontece: Condições crônicas descompensadas podem levar a alterações na função cerebral.
    • Cuidado: Controle rigoroso da doença de base e avaliação médica.
  1. Privação de sono:
    • O que acontece: Noites de sono muito ruins ou ausentes podem desorganizar o cérebro, levando a visões ou ouvir coisas.
    • Cuidado: Melhorar a higiene do sono com medidas simples e que já estão disponíveis aqui no blog, confere lá. (sem uso de sedativos fortes, se possível).

Causas irreversíveis de alucinações (requerem manejo e suporte)

Essas causas estão relacionadas a doenças neurodegenerativas progressivas, como as demências. Embora as alucinações não possam ser “curadas” nesses casos, elas podem ser gerenciadas para minimizar o sofrimento do idoso e melhorar a qualidade de vida.

  1. Demência com Corpos de Lewy (DCL):
    • O que acontece: Esta é uma das principais causas de alucinações visuais bem formadas e vívidas (ver pessoas, animais, crianças) em idosos, muitas vezes acompanhadas de flutuações cognitivas (dias que o idoso está muito bem e outros muito confuso) e parkinsonismo (tremores, rigidez).
    • Como identificar: As alucinações tendem a ser recorrentes e detalhadas, e o idoso pode até interagir com elas.
    • A Demência com Corpos de Lewy (DCL) é particularmente notória pela alta prevalência de alucinações visuais recorrentes e bem elaboradas, sendo um critério diagnóstico chave para a condição (McKeith et al., 2017).
  1. Doença de Parkinson (em estágios avançados ou devido à medicação):
    • O que acontece: Pessoas com Parkinson podem desenvolver alucinações (geralmente visuais) à medida que a doença progride ou como efeito colateral dos medicamentos para o Parkinson.
    • A presença de alucinações em pacientes com Doença de Parkinson é um fator de preocupação, associado à progressão da doença e à medicação, e pode ser um indicador de maior risco de desenvolver Demência associada à Doença de Parkinson (Aarsland et al., 2017).
  1. Doença de Alzheimer (em estágios mais avançados):
    • O que acontece: Embora menos comum que na DCL, idosos com Alzheimer em estágios mais avançados também podem ter alucinações ou delírios (crenças falsas, como “estão me roubando”). As alucinações visuais tendem a ser mais simples e menos elaboradas.
    • Enquanto as alucinações não são um sintoma central do início do Alzheimer, elas podem ocorrer em estágios moderados a avançados, impactando significativamente o manejo do paciente (Ismail et al., 2016).
  1. Transtornos psiquiátricos (Esquizofrenia de início tardio, Transtorno Bipolar):
    • O que acontece: Embora menos comuns, alguns transtornos psiquiátricos podem se manifestar ou persistir na velhice, causando alucinações.
    • Cuidado: Exigem acompanhamento psiquiátrico especializado.

Como cuidar de situações de alucinação (seja qual for a causa)

Independentemente da causa, a forma como você lida com a situação faz toda a diferença para o bem-estar do idoso e para a sua segurança.

  1. Mantenha a calma e a segurança:
    • Prioridade: Sua calma é contagiante. Se você se assustar ou ficar agitado, o idoso pode ficar ainda mais confuso e assustado. Garanta a segurança do ambiente, removendo objetos perigosos.
  1. Não discuta com a alucinação:
    • Regra de ouro: Não tente convencer o idoso de que o que ele está vendo ou ouvindo não é real. Ele acredita no que está percebendo. Dizer “Isso não existe!” só vai gerar frustração e raiva.
    • A estratégia de validação e não confrontação é amplamente recomendada no manejo de alucinações em demências. Confrontar a realidade do paciente pode aumentar a angústia e a agitação (Clarity, 2019, Alzheimer’s Association).
  1. Valide o sentimento, não o conteúdo da alucinação:
    • Como fazer: Reconheça a emoção do idoso. Se ele está assustado, diga: “Eu vejo que você está com medo.” Se ele está bravo, “Percebo que você está bravo com isso.”
    • Exemplo: Se ele diz “Tem um homem me olhando pela janela!”, você pode responder: “Entendo que você se sinta assim. Mas olha, aqui dentro estamos seguros. Que tal a gente ir para a cozinha tomar um café?”
  1. Desvie o foco e redirecione:
    • Tática: Depois de validar o sentimento, suavemente, mude o assunto ou convide o idoso para outra atividade.
    • Exemplo: “Que tal ouvirmos aquela sua música favorita?”, “Vamos dar uma volta rápida lá fora?” ou “Preciso da sua ajuda para dobrar estas toalhas.”
    • A distração e o redirecionamento são ferramentas eficazes para desviar a atenção do conteúdo perturbador das alucinações, ajudando a acalmar o paciente (Alzheimer’s Association).
  1. Cheque o ambiente e reduza estímulos:
    • Verifique: Luzes, sombras, ruídos estranhos, ou objetos mal posicionados podem ser interpretados de forma distorcida.
    • Ajuste: Feche cortinas, acenda mais luzes (para eliminar sombras), desligue fontes de ruído.
  1. Busque ajuda profissional (sempre!):
    • Primeiro passo: Ao notar alucinações, agende uma consulta com um médico geriatra ou neurologista. Ele investigará as causas (pedirá exames de sangue, urina, avaliação de medicamentos) e, se for o caso de demência, indicará o melhor manejo ou medicação.
    • Psicólogo: Pode auxiliar o cuidador a lidar com o estresse e a entender melhor as estratégias de comunicação.

A diferença na reação: idoso lúcido vs. idoso com demência

  • Para um idoso lúcido que de repente apresenta alucinações, o susto e a angústia são enormes. Ele tem plena consciência de que “está vendo coisas” e pode ficar aterrorizado, com medo de “estar ficando louco”. Nesse caso, o apoio emocional, a validação do medo e a busca URGENTE por um diagnóstico de uma causa reversível são as prioridades. A pessoa irá relatar as alucinações, e a compreensão é que elas são um sintoma de algo que não é normal para ela.
  • Para um idoso com Alzheimer ou outras demências, especialmente na Demência com Corpos de Lewy, as alucinações podem ser mais frequentes e, por vezes, a pessoa não tem plena consciência de que são irreais. Ela pode interagir com as “visões” como se fossem parte da realidade. O objetivo é manejar o comportamento, garantir a segurança e reduzir o sofrimento, pois a reversão da causa base não é possível. A comunicação e o desvio de foco são as ferramentas principais para evitar que a alucinação se torne um momento de agitação.

Cuidadores, lidar com alucinações é um dos desafios mais complexos no cuidado de idosos. Mas com informação, calma e o apoio de profissionais de saúde, é possível manejar essas situações de forma mais segura e tranquila, garantindo a dignidade e o bem-estar de quem você tanto ama.

Referências:

AARSLAND, D. et al. Parkinson disease dementia. Nature Reviews Disease Primers, v. 3, n. 1, p. 1-21, 2017.

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2021.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

BURNS, A. et al. Sensory impairment and dementia. British Journal of Psychiatry, v. 185, n. 4, p. 275-276, 2004.

FABBRI, R. M. A. Delirium. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 210-212.

INOUYE, S. K. Delirium in older persons. The New England Journal of Medicine, v. 354, n. 11, p. 1157-1165, 2006.

ISMAIL, Z. et al. The mild behavioral impairment checklist: a rating scale for neuropsychiatric symptoms in individuals with mild cognitive impairment. Journal of Alzheimer’s Disease, v. 51, n. 4, p. 1097-1107, 2016.

MARCANTONIO, E. R. Delirium in Hospitalized Older Adults. The New England Journal of Medicine, v. 377, n. 15, p. 1456-1466, 2017.

MCKEITH, I. G. et al. Diagnosis and management of dementia with Lewy bodies: Fourth consensus report of the DLB Consortium. Neurology, v. 89, n. 1, p. 88-100, 2017.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030: Relatório de Linha de Base. Genebra: OMS, 2020.

PINHEIRO, J. E. S.; BARBOSA, M. T. Doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento em idosos. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 211.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA (SBGG). Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

TOLEDO, M. A. V.; BORGES, S. Q.; TAVARES JUNIOR, A. R. Sintomas psicológicos e comportamentais nas demências. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 211-212.

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