Como cuidadores, vocês sabem que a segurança do idoso é prioridade. Um dos aspectos mais negligenciados, mas que faz uma diferença enorme, é o calçado ideal. Parece um detalhe, mas o sapato certo pode prevenir quedas, aliviar dores e promover mais independência. Vamos entender por que a escolha do calçado é tão importante e como acertar nessa decisão, pensando nas diferentes realidades dos nossos idosos.
Por que o calçado é tão importante para o idoso?
Com o envelhecimento, nossos pés mudam. Eles podem ficar mais largos, com menos acolchoamento natural, e a sensibilidade diminui. A visão e o equilíbrio também podem ser afetados, sem contar a força muscular que diminui e altera a largura dos passos, levando a passadas mais curtas e, muitas vezes, até mesmo arrastada. Tudo isso aumenta o risco de quedas em idosos, e um sapato inadequado pode ser o gatilho.
Um estudo publicado no Journal of Gerontology: Medical Sciences por Menant et al. (2008) destacou que o tipo de calçado impacta diretamente a estabilidade e o risco de quedas. Sapatos com solados inadequados ou que não oferecem suporte suficiente aumentam a chance de acidentes. Escolher o melhor calçado para idoso é investir em prevenção de quedas e mobilidade para idosos.

Características do calçado ideal
Vamos aos detalhes que você deve procurar na hora de escolher um sapato para o idoso:
- Solado antiderrapante: Essencial para evitar escorregões, especialmente em pisos molhados ou lisos. Observe o desenho do solado: ele deve ter boa aderência.
- Largura e comprimento adequados: O pé do idoso pode inchar durante o dia. O calçado não deve apertar nem os dedos nem o peito do pé. Deve haver um espaço de cerca de 1 cm entre o dedo mais longo e a ponta do sapato.
- Estabilidade: O sapato precisa oferecer bom suporte ao pé e ao tornozelo. Evite modelos muito flexíveis ou que “dançam” no pé.
- Altura do salto: O ideal é um salto baixo e largo (até 2-3 cm). Saltos muito altos ou finos desequilibram, e sapatos totalmente planos também podem ser desconfortáveis ou desestabilizadores.
- Material leve e respirável: Couro macio, tecidos arejados ou materiais sintéticos de qualidade são boas opções. Evite materiais que não permitem a ventilação.
- Fechamento seguro: Cadarços, velcros ou fivelas que ajustem bem o calçado ao pé, sem apertar. Evite calçados que saem facilmente, como chinelos ou sandálias sem tira no calcanhar, que aumentam o risco de tropeços. O peito de pé e o calcanhar devem estar bem fixos no calçado.
- Palmilha confortável: Se possível, com bom amortecimento e suporte de arco. Palmilhas ortopédicas personalizadas podem ser indicadas para alguns casos.
Dicas para escolher o calçado ideal
Agora, como aplicar esses critérios na prática, considerando as particularidades de cada idoso?
O idoso pode e deve participar da escolha do próprio calçado. Isso promove autonomia e aumenta a chance de ele usar o sapato com satisfação.
- Teste o calçado no final do dia: Os pés tendem a inchar ao longo do dia, então provar o sapato à tarde garante um ajuste mais realista.
- Use as meias habituais: Peça para ele provar o calçado com o tipo de meia que costuma usar.
- Caminhe na loja: Incentive-o a caminhar um pouco com o sapato na loja para sentir o conforto e a estabilidade.
- Comunique-se: Pergunte ao idoso se o sapato está confortável, se aperta em algum lugar, se ele se sente seguro.
- Considerar condições específicas: Se o idoso tem joanetes, dedos em garra, diabetes ou outras condições nos pés, procure calçados com características específicas para essas necessidades. Um podólogo, fisioterapeuta ou ortopedista podem dar orientações valiosas. A saúde dos pés do idoso é fundamental.

Para idosos com demência: priorize a segurança e a praticidade
Para idosos com demência, a escolha do calçado se foca ainda mais na segurança, na facilidade de colocar e tirar, e na prevenção de acidentes, já que a capacidade de expressar desconforto pode estar comprometida.
- Fechamento de velcro ou elástico: São muito mais práticos do que cadarços, que podem desamarrar e causar quedas, além de serem difíceis para o idoso manipular.
- Simplicidade: Modelos sem muitos detalhes, fáceis de identificar e colocar. A confusão pode aumentar com opções complexas.
- Observação constante: Como o idoso pode não conseguir verbalizar o desconforto, observe sinais como mancar, tentar tirar o sapato constantemente, ou irritabilidade, que podem indicar que o calçado está machucando.
- Verifique os pés regularmente: Inspecione os pés diariamente para verificar vermelhidão, calos, bolhas ou unhas encravadas, especialmente se ele tem neuropatia ou diabetes.
- Calçados de uso interno e externo: Para ambientes internos, chinelos, rasterinhas e outros modelos sem fixação do calcanhar e peito do pé podem ser perigosos. Modelos de calçado com a frente mais alta também podem ser perigosos, mesmo que sejam anatômicos, a frente alta dificulta a passada e aumenta o risco de queda. Opte por sapatilhas fechadas com solado antiderrapante ou tênis leves, mesmo dentro de casa.
- Adaptação para inchaços: Se o idoso tem inchaço nos pés (edema), calçados ajustáveis ou um número maior podem ser necessários.
Não subestime a importância do calçado!
Um bom par de sapatos é mais do que moda; é uma ferramenta essencial para a mobilidade, segurança e autonomia do idoso. Investir tempo para escolher o calçado certo pode evitar quedas graves e melhorar a qualidade de vida na velhice. Lembre-se, cada passo conta!
Referências:
1. Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório Mundial sobre o Idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021. 22 p.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Genebra: OMS, 2023.
2. Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Orientações técnicas para a implementação de Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
3. Alzheimer’s Disease International ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. Londres: ADI, 2019.
4. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
5. Artigos Científicos e Diretrizes Específicas ALEXANDRE, Tiago da Silva et al. Prevalence and associated factors of frailty in community-dwelling older adults: The FIBRA-RJ Study. Geriatrics & Gerontology International, v. 18, n. 8, p. 1280-1285, 2018.
MENANT, J. C. et al. Optimizing footwear for older people at risk of falls. Journal of Rehabilitation Research and Development, v. 45, n. 8, p. 1167-1181, 2008. (Refere-se ao estudo citado no texto original sobre o impacto do tipo de calçado na estabilidade).
MONTERO-ODASSO, Manuel et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, p. 1-36, set. 2022.
PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Christiane Machado. Funcionalidade e Envelhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.