Minha cabeça está estranha, esqueço muito as coisas; sinto medo, mas deve ser idade!
O que mais tem sido difícil é o convívio aqui em casa. Sempre me dizem: “Já falou isso… Já falei mil vezes!”
Fico chateada porque tenho certeza que não falei nenhuma vez.
Tenho sentido um medo que eu não sei explicar.
Aliás, eu não sei explicar quase nada!
Eu fazia tantas coisas, era tão esperta e hoje é estranho porque não me lembro mais como fazer as coisas que antes eu fazia com tanta facilidade. Acho isso tão estranho!
Algo que me deixa bem irritada é que você quer me dar banho e eu sinto vergonha de ficar sem roupa na sua frente, mas também isso que sinto eu não consigo dizer e acabo falando que já tomei banho. Ou as vezes eu tenho certeza que já tomei banho e você insiste em dizer que não, como isso me deixa bem chateada. Vira uma briga quase todo dia!
Agora você e seus irmãos colocaram na cabeça que eu preciso ter uma pessoa aqui em casa comigo. Imagina! Eu que sempre dei conta de tudo ter alguém que faça as coisas pra mim? De jeito nenhum! Não gosto que mexa nas minhas coisas. E tem mais, se eu deixar alguém me ajudar, como vocês querem, vão achar que eu estou inválida e isso eu não aceito; é por isso que eu quero continuar fazendo minhas coisas. Posso estar esquecida sim, mas eu me acho capaz de fazer tudo e não vai adiantar você ou qualquer pessoa me dizer o contrário porque eu vou ficar muito nervosa e vou mandar qualquer pessoa ir embora da minha casa.
Você não entende que eu quero a minha vida de volta? Estou me perdendo de mim mesma e ter alguém que faça as coisas é como se eu “atestasse” que, de fato, não sou mais capaz. Apenas quero ser capaz de fazer o que ainda consigo!
Depois do almoço, mais ao fim do dia, sinto tanto medo, mas eu não consigo explicar que me sinto assim e dai fico agitada. Nessa hora eu apenas quero a minha casa, mas você fala que eu já estou nela, como assim? Parece que a sua lógica não é a minha e isso me deixa mais insegura. Quando você fica tentando me convencer que esta é a minha casa eu sinto uma angústia porque minha cabeça dá um branco, eu olho ao redor e não reconheço nada. Isso é muito estranho e me apavora.
Eu sinto muita saudade dos meus pais, dos meus avós e te peço para me levar até eles e eu vejo que você se sente confusa quando isso acontece. Outro dia alguém me disse que eles já faleceram, mas como assim? Ninguém me comunicou? Eu não fui ao velório? Quando isso aconteceu que eu não fiquei sabendo? Eu tenho uma lembrança muito real dos meus pais há pouco tempo comigo. Me lembro que estivemos juntos e minha mãe pediu pra eu voltar na casa dela. Será que já se passaram tantos anos assim como você fala e eu me perdi no tempo? É… talvez eu tenha me perdido no tempo porque, para mim, é como se eu morasse com eles e os tivesse comigo. Eu não me lembro de ter saído da casa dos meus pais.
Outro dia minha sobrinha veio aqui e foi tão bom, fazia tempo que eu não a via. Conversamos sobre tantas coisas e eu me senti muito feliz. Depois eu ouvi ela falando pra você que nem parece que estou com a cabeça ruim, afinal, eu consegui manter uma boa conversa com ela, esquecendo poucas coisas durante nosso bate papo. Ah! Mas quando ela foi embora eu me senti exausta, minha cabeça ficou tão cansada, meu corpo pedia só para ficar quieta. Eu não sei porque isso acontece. As vezes eu consigo parecer bem para algumas pessoas, mas aqui em casa eu não consigo. Eu queria que fosse ao contrário para você se cansar menos, mas isso não depende de mim, não é uma escolha consciente que eu faço. Eu sei que você acha que eu faço de propósito para te irritar, mas acredite em mim, não é isso! Realmente eu não escolho ser de um jeito com uma pessoa e de outro jeito com outra; infelizmente isso acontece.
Quanto mais minhas memórias se vão, quanto mais eu tento me expressar verbalmente, quanto mais dizem que estou errada e que não posso ou não consigo fazer tal coisa, mais medo e insegurança eu tenho e parece que pior eu me comporto, mas infelizmente, eu não sei dizer que me sinto assim e nem queria estar assim. As vezes eu percebo que você se irrita comigo e acho que você tem razão, afinal, nem eu mesma me reconheço mais. Talvez esteja sendo tão difícil pra você quanto pra mim.
Quando você se irrita eu não sei qual o motivo, mas sua expressão facial de pessoa nervosa, seu tom de voz mais alto me deixam assustada e com medo e por isso eu mudo meu comportamento. Eu não mudo porque você brigou, mas sim por sentir medo, afinal, eu nem entendo mesmo o que é que eu faço que te deixa tão irritada.
O que me deixa bem feliz é quando você fala comigo com um sorriso nos lábios. Nem sempre eu compreendo ou interpreto bem suas palavras, mas o seu sorriso me deixa segura porque sei que ao seu lado nada vai me acontecer.
Faltam lembranças, palavras, atitudes, mas transbordam sentimentos que não são expressos em linguagem mas em minhas ações. E o que eu mais desejo nessa vida é que esses sentimentos e atitudes “difíceis” fossem compreendidos. Mas eu entendo seu lado, como você vai me entender se eu não sei te falar?!
Espero que com essa carta eu tenha conseguido te dizer um pouco mais de como me sinto e, quem sabe assim, nossa jornada fica um pouco mais leve!?
Deixo aqui minha gratidão e meu reconhecimento por todo esforço, empenho e dedicação a mim ofertados nestes anos!
Texto: Luziane Mendes de Souza Moreira

