Conheça a chave para evitar discussões com idosos que tem Alzheimer ou outras demências

Olá, cuidadores e familiares! É um prazer estar aqui novamente para mais uma conversa que busca tornar o dia a dia mais leve e harmonioso. Hoje, vamos falar de um tema fundamental para o cuidado com pessoas idosas: como evitar que a discussão comece!

Prevenir é sempre melhor que remediar, certo? Especialmente quando se trata da convivência com alguém que tem demência. Entender os gatilhos e usar estratégias proativas pode poupar muita energia e estresse para você e para o idoso.

Se você cuida de um idoso com Alzheimer ou outras demências, já percebeu que o raciocínio lógico e a memória não funcionam como antes. Tentar argumentar é como falar com uma parede, e muitas vezes, só aumenta a frustração de ambos. Por isso, o segredo é antecipar e minimizar as situações que podem gerar atrito.

Ao contrário de uma conversa com um idoso lúcido, onde podemos usar a lógica e o diálogo para resolver desentendimentos, com a demência, a prevenção se baseia na criação de um ambiente seguro e numa comunicação adaptada às limitações cognitivas.

Trabalhos científicos, como os da American Psychological Association (APA), destacam que ambientes estruturados e a redução de estressores ambientais são cruciais para diminuir a agitação e o comportamento desafiador em pessoas com demência.

Estratégias proativas: evitando o início de um conflito

Evitar uma discussão com alguém que tem demência significa ajustar sua abordagem e o ambiente ao redor. Aqui estão as melhores estratégias:

1. Mantenha uma Rotina Consistente (Previsibilidade é Ouro):

  • Por que ajuda: A rotina oferece segurança e diminui a confusão, que é um grande gatilho para a irritabilidade. Quando o idoso sabe o que esperar, há menos surpresas e menos chances de frustração.
  • Como aplicar: Crie horários fixos para refeições, higiene, medicação e atividades. Tente segui-los todos os dias. Se houver alguma mudança, prepare o idoso com antecedência e com comunicação simples, se possível.
  • Conforme discutimos em posts anteriores, a rotina para idosos com Alzheimer é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir a ansiedade e a agitação, conforme evidenciado por estudos em gerontologia.

2. Simplifique as Escolhas (menos é mais):

  • Por que ajuda: Muitas opções podem sobrecarregar o cérebro de uma pessoa com demência e gerar ansiedade.
  • Como aplicar: Em vez de perguntar “O que você quer vestir hoje?”, ofereça duas opções: “Você prefere esta blusa azul ou a camisa branca?”. Ao invés de “O que você quer comer?”, diga “Você quer frango ou macarrão?”.
  • A redução da sobrecarga cognitiva através da simplificação de tarefas e escolhas é uma prática recomendada por profissionais de Terapia Ocupacional, baseada em princípios da neuropsicologia aplicada ao cuidado de demências.

3. Comunique-se de forma clara e direta (evite abstrações):

  • Por que ajuda: A capacidade de compreensão é reduzida. Frases complexas ou abstratas geram confusão e frustração.
  • Como aplicar: Use frases curtas, objetivas e um tom de voz calmo. Evite sarcasmo, ironia ou perguntas que exijam raciocínio complexo. Fale uma coisa por vez. Use gestos simples para reforçar a mensagem.
  • A comunicação adaptada é um pilar no cuidado a pacientes com demência. A validação, já mencionada, e a simplicidade na linguagem são estratégias que previnem mal-entendidos e, consequentemente, conflitos, como demonstram pesquisas na área da Psicologia Clínica.

4. Crie um ambiente tranquilo e seguro (reduza estímulos nocivos):

  • Por que ajuda: Ambientes barulhentos, bagunçados ou com muitos estímulos podem ser opressores e desencadear agitação.
  • Como aplicar: Mantenha a casa organizada e bem iluminada. Reduza o volume da TV/rádio. Evite muitos visitantes ao mesmo tempo. Observe se há luzes piscando ou sons altos que podem incomodar.
  • A Gerontologia ambiental enfatiza a importância de um ambiente adaptado para reduzir comportamentos desafiadores em pessoas com demência, promovendo segurança e bem-estar.

5. Observe os gatilhos (seja um detetive):

  • Por que ajuda: Cada pessoa tem seus próprios gatilhos de irritação. Observá-los te permite agir antes que a situação escale.
  • Como aplicar: Anote os momentos em que o idoso fica mais agitado ou propenso a discutir. É em determinado horário? É quando está com fome ou dor? É quando há muitos visitantes? Ao identificar os gatilhos, você pode tentar evitá-los ou gerenciá-los melhor.
  • A observação cuidadosa e o registro de padrões comportamentais são práticas recomendadas em planos de cuidados individualizados, permitindo a identificação de gatilhos específicos e a implementação de intervenções preventivas, conforme guias de prática clínica em Geriatria.

6. Distração e redirecionamento proativos (a arte de desviar):

  • Por que ajuda: Antes mesmo que a discussão comece, se você percebe o início da irritação, desvie a atenção para algo positivo.
  • Como aplicar: Se ele começa a expressar uma ideia que você sabe que vai gerar conflito, imediatamente, ofereça uma atividade que ele goste: “Que tal a gente ouvir aquela música?”, “Vamos comer uma fruta?”, “Olha que linda a foto que achei!”.
  • Similar às estratégias para interromper discussões, a distração preventiva é uma ferramenta poderosa para evitar a progressão da irritabilidade em estágios iniciais, uma técnica amplamente utilizada em Terapia Ocupacional para o manejo de comportamento em demências.

A essencial diferenciação: idoso lúcido vs. idoso com demência

É crucial entender que essas abordagens são desenhadas para idosos com Alzheimer ou outras demências, pois suas capacidades cognitivas estão alteradas.

  • Para um idoso lúcido, evitar uma discussão pode envolver comunicação aberta, negociação, expressar seus próprios sentimentos e ouvir ativamente os dele. O respeito à autonomia e a capacidade de diálogo são centrais. Tentar “distrair” ou “redirecionar” um idoso lúcido sem uma razão clara pode ser desrespeitoso e gerar mais atrito.
  • Para um idoso com demência, onde a lógica e a memória são comprometidas, o foco é em criar um ambiente previsível, simplificar interações e usar técnicas de distração/redirecionamento. Não se trata de desrespeito, mas de uma adaptação às limitações da doença para garantir o bem-estar e evitar sofrimento desnecessário para ambos. A prioridade é a calma e a segurança, pois a capacidade de processar a realidade de forma racional está prejudicada.

Cuidadores, lembrem-se: prevenir discussões é uma demonstração de amor e inteligência no cuidado. Ao adotar essas estratégias, você não apenas evita momentos de estresse, mas também constrói um ambiente de mais paz e compreensão para todos.

Referências

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4. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (ed.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

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