Cuidados Básicos de Idosos com Alzheimer e outras demências: Um Guia Prático Para o Dia a Dia

Cuidar de um idoso é uma missão de amor e dedicação, mas sabemos que pode ser desgastante, frustrante e, muitas vezes, nos deixar sem saber o que fazer.   Isso se intensifica quando falamos de idosos com Alzheimer ou outras demências. A boa notícia é que, com informação e estratégias adequadas, sua rotina pode se tornar mais leve e o cuidado, mais eficaz.

Este post foi feito pensando em você, seja cuidador profissional ou familiar. Meu objetivo é trazer dicas práticas e simples para os cuidados básicos. 

Vamos descomplicar juntos?

Entendendo a Demência: Não é “Coisa da Idade”!

Primeiro, é crucial entender que demência não é sinônimo de Alzheimer, embora o Alzheimer seja o tipo mais comum de demência. Demência é um sintoma que pode ser causada por diversas doenças, como o Alzheimer, Demência Vascular (causada por sequela de AVC), Demência Frontotemporal, Demência por Corpos de Lewy, Demência por Doença de Parkinson e até Demência Mista, quando a pessoa tem dois tipos de demência concomitantemente.

Importante: Demência senil não existe! 

Esquecimentos e mudanças de comportamento não são uma parte normal do envelhecimento. Se um idoso apresenta dificuldades de memória, confusão ou alterações de comportamento, é fundamental buscar um diagnóstico correto com um geriatra, neurologista ou psicogeriatra.

O diagnóstico é clínico, complementado por exames de imagem e laboratório.

Com a demência, há perda da capacidade e habilidades para fazer coisas simples, perda de memória, confusão, comportamentos estranhos e mudanças na personalidade. Lidamos com desorientação, agressividade, dificuldade de comunicação, entre outros desafios.

Agora, vamos às dicas práticas para o dia a dia:

1. Comunicação: A Ponte Essencial 

A forma como nos comunicamos pode abrir ou fechar portas no cuidado. É um dos desafios mais frequentes.

◦A comunicação deve ser calma, clara e simples. Use tom de voz suave, fale devagar, com frases curtas e objetivas;

◦Olhe nos olhos e use comunicação não verbal (sorriso, toque gentil)

O contato visual aumenta a segurança do idoso e acalma seu comportamento.

◦Chame pelo nome ou apelido que ele sempre usou. Se ele não reconhece você como filho/neto, chame pelo nome para evitar agressividade.

◦Lembre-se: a memória imediata está comprometida. Eles realmente não lembram o que acabaram de perguntar ou o que você já respondeu. Não diga “Eu já te falei!” ou “Está perguntando de novo!”. Repita a resposta quantas vezes for necessário. Isso não é teimosia, é falta de consciência da repetição. Quanto mais você ficar tentando convencer este idoso que isso ou aquilo já foi dito, mais irritado ele fica e mais repetitivo também.

◦Dê comandos verbais simples, espere ele executar, e só depois dê o próximo. Não dê muitas instruções de uma vez.

◦Permita que ele faça escolhas e para isso ofereça opções simples e limitadas (“Quer a camisa azul ou branca?”). Isso dá ao idoso a sensação de controle. Em situações sem opção, apenas comunique o que vai acontecer (“Estamos indo ao supermercado”).

◦Valide os sentimentos, focando na emoção, mesmo que a razão não faça sentido. Não discuta ou tente usar a lógica. “Percebo que você está assustado(a). Estou aqui com você, vai ficar tudo bem”. Não tente trazer o idoso para a realidade, mas entre você na realidade dele, mesmo que seja totalmente irreal; concorde e mude o foco de atenção dele.

◦Não teste a memória (“Lembra de mim?”). Isso causa constrangimento e não estimula o cérebro, ao contrário, inibe e irrita. Conte quem são as pessoas quando se aproximarem. Relembre fatos com ele, sem perguntar se ele lembra.

◦A perda auditiva é comum no envelhecimento (presbiacusia) e pode dificultar a compreensão. Falar estando de frente para a pessoa ajuda na leitura labial. A perda auditiva não tratada aumenta as chances de desenvolver demência; o tratamento é importante.

2. A Força da Rotina Diária

Estabelecer uma rotina diária traz segurança e tranquilidade, principalmente para idosos com demência. A imprevisibilidade gera medo e insegurança e isso deixa o comportamento do idoso bem mais difícil.

◦Mantenha horários consistentes para acordar, dormir, refeições, banho e atividades.

◦Tente seguir a rotina que ele tinha antes da demência; isso ativa memórias preservadas e traz segurança.

◦Inclua atividades que o façam se sentir útil (ajudar em tarefas simples como cuidar de plantas, pets, tarefas da casa e outros). Isso ajuda a sair do ciclo de repetição e agitação.

3. A Chave que Muda Tudo no Cuidado

Não discuta com este idoso e nunca tente trazê-lo para a realidade. Infelizmente, a doença lhe roubou a capacidade de raciocínio lógico, por isso, quanto mais você ficar tentando convencer este idoso de alguma coisa, mais irritado e confuso ele ficará, consequentemente, mais difícil o cuidado se torna.

Entrar na realidade que ele apresenta e mudar o seu foco de atenção é sempre a melhor opção.

Claro que isso não é fácil! É um exercício diário que você treina e melhora a cada dia. Mas tenha paciência consigo mesma(a), as mudanças devem ser simples e constantes e isso fará toda diferença.

Esperamos que estas dicas sejam um ponto de partida para facilitar sua jornada!

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance on person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2024.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on the public health response to dementia. Geneva: World Health Organization, 2021.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Tradução de Suzana Gontijo. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2002.

Ministério da Saúde

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Orientações técnicas para a implementação de Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).

Alzheimer’s Disease International (ADI)

  • ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2019.
  • ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2021.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: 20 anos – Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Editores: Elizabete Viana de Freitas, Ligia Py. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

Artigos Científicos e Literatura de Apoio (Últimos anos)

  • CRUZ-JENTOFT, Alfonso J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16-31, 2018.
  • KIM, J. S.; ROCKWOOD, K. Tratamento: manejo clínico da fragilidade. In: Journal of Frailty & Aging, 2024.
  • MACHADO, João Carlos Barbosa. Doença de Alzheimer. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  • MONTERO-ODASSO, Manuel et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, 2022.
  • PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Cláudia Moore. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.

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