Decoração de Natal na Casa de Pessoas Idosas: Há Muita Coisa Por Trás do Encantamento Natalino

O Natal está chegando e, para quem atua no cuidado com idosos, essa época traz uma mistura de alegria e desafios. Enfeitar a casa pode ser uma excelente ferramenta de estimulação cognitiva e interação social, mas exige estratégias diferentes dependendo da condição de saúde do idoso.

Para garantir que o ambiente seja seguro e acolhedor, preparamos este guia focado na diferenciação entre o cuidado com idosos lúcidos e aqueles que convivem com a demência.

1. A Importância da Diferenciação: Lúcidos vs. Demência

Antes de abrir as caixas de enfeites, você precisa ajustar sua expectativa e abordagem. O comportamento e a compreensão da realidade variam drasticamente entre esses dois grupos.

Pessoa Idosa Lúcida: O foco aqui é a autonomia. Esta pessoa mantém sua capacidade de decisão e deve ser consultado sobre como deseja a decoração. Ela deve participar ativamente, decidir onde colocar a árvore e quais cores usar. Quando a pessoa idosa insiste em fazer do “jeito dela” é um traço de personalidade que deve ser respeitado, pois a casa e a história são dela.

Pessoa Idosa com Demência: O foco aqui é a segurança e o conforto. Devido ao comprometimento cognitivo, esta pessoa pode não reconhecer objetos (agnosia) ou o ambiente, interpretando estímulos de forma errada. A prioridade não é a estética, mas evitar gatilhos de agitação e garantir que ele se sinta seguro.

2. Menos é Mais: Cuidado com o Excesso de Estímulos

Para idosos com demência, especificamente Alzheimer, o excesso de estímulos visuais e sonoros pode ser angustiante.

Luzes Pisca-Pisca: Evite luzes que piscam freneticamente ou têm cores muito intensas. O excesso de luminosidade pode alterar o comportamento, gerando agitação ou confusão mental, pois o cérebro tem dificuldade em processar essa informação visual rápida.

Ruídos: Mantenha o ambiente sereno. Enquanto enfeita a casa, evite ligar a TV alto ou ter muitas pessoas falando ao mesmo tempo. O excesso de ruído é interpretado pelo cérebro com demência como uma ameaça, podendo desencadear agressividade.

Segurança Física: Idosos com demência podem perder a capacidade de julgamento e colocar objetos na boca (hiperoralidade) ou guardá-los em lugares impróprios. Evite enfeites pequenos que pareçam comida (como frutas artificiais) ou que sejam cortantes/quebráveis. Até mesmo as bolas da árvore podem ser interpretadas como “frutos” e esta pessoa pode querer tirá-los e levar à boca.

Segurança do Ambiente: Evite colocar árvore de natal, presépio ou qualquer tipo de decoração em um local que possa impactar a circulação dessa pessoa pela casa. O cérebro dela tem registros deste ambiente e isso favorece sua circulação com segurança, portanto, se alguma coisa atrapalha seu caminho, ela pode se sentir irritada, confusa e evitar sua locomoção, o que prejudica muito sua liberdade e mobilidade.

3. Use a Decoração como Terapia de Reminiscência

A Terapia de Reminiscência consiste em utilizar objetos, fotos ou músicas para estimular a memória de longo prazo, que geralmente está mais preservada nas fases iniciais e moderadas da demência.

Como fazer: Utilize enfeites antigos que pertençam à família. Mostre o objeto e conte a história dele (“Olha, mãe, essa bola o pai comprou naquele Natal de 1980”).

A Regra de Ouro da Comunicação: Jamais teste a memória do idoso. Não pergunte “Você lembra quem te deu isso?” ou “Lembra que ano compramos esta árvore?”. Se ele não lembrar, se sentirá humilhado e frustrado. Apenas conte a história e envolva-o na narrativa.

4. Transforme a Atividade em Estímulo e Utilidade

Fazer o idoso se sentir útil é uma das melhores formas de reduzir a agitação e melhorar a autoestima.

Para a Pessoa Idosa Lúcida: Peça opiniões reais e deixe-o comandar partes do processo. Isso reforça sua identidade e papel na família.

Para a Pessoa Idosa com Demência: Dê tarefas simples e repetitivas, que ele consiga executar com sucesso (ex: “Segure esta fita para mim”, “Coloque as bolas nesta caixa”). Use a Técnica da Distração se ele ficar agitado, mudando o foco para uma música antiga que ele gostava enquanto manuseia os enfeites.

Adaptação: Se o idoso tiver mobilidade reduzida, leve os enfeites até ele. Coloque uma mesa à frente da cadeira de rodas ou poltrona para que ele possa manusear os objetos com segurança.

5. O Horário Certo: Respeite a Síndrome do Pôr do Sol

Evite montar a decoração no final da tarde. Muitos idosos sofrem da Síndrome do Pôr do Sol, apresentando maior agitação, confusão e sombras visuais ao anoitecer.

Dica: Realize essas atividades pela manhã, quando a iluminação natural é melhor e o idoso tende a estar mais descansado e colaborativo. Mantenha a rotina de horários de sono e alimentação inalterada, pois a rotina gera segurança.

6. Lidando com Memórias de Entes Falecidos

O Natal frequentemente traz à tona a falta de pessoas queridas. Se o idoso com demência perguntar por alguém que já faleceu (marido, mãe, irmão), não confronte com a realidade da morte.

Se você percebe que esta pessoa idosa se lembra que seu ente querido já faleceu, acolha a dor e a saudade que ela pode manifestar neste momento e valide seus sentimentos: “Eu entendo que a senhora sinta saudades do pai, ainda mais no Natal, eu também sinto.”

Se ela não lembra e sempre pergunta por pessoas falecidas, dizer que este seu ente querido faleceu pode ser uma gatilho para agitação. Neste caso aplique a “Mentira Terapêutica,” validando o sentimento de saudade e criando uma história para mudar o foco da conversa.: “Eu sei que a senhora está com saudade da sua mãe, mas nós vamos dar um jeito de nos encontrar com ela.”

Conclusão para Profissionais e Famílias

O objetivo de enfeitar a casa não é o resultado estético, mas o processo de inclusão e afeto. Para o idoso lúcido, é validação. Para o idoso com demência, é acolhimento sensorial e emocional; porém, se você percebe que a decoração do ambiente trouxe mudanças e isso deixou essa pessoa com demência mais agitada e confusa, talvez seja melhor retirar os enfeites para trazer mais tranquilidade a esta pessoa idosa e a você também. Utilize essas estratégias baseadas em evidências sobre intervenções não farmacológicas para garantir um final de ano mais tranquilo e feliz para todos.

Referências:

  • ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2021.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://saude.gov.br.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Orientações técnicas para a implementação de linha de cuidado para atenção integral à saúde da pessoa idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  • FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  • LIVINGSTON, Gill et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Genebra: OMS, 2020.
  • PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Cláudia. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. In: Diversos [Apresentação Acadêmica]. 2019.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024.
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