Para nós, cuidadores de idosos, sejam profissionais ou familiares, lidar com as diversas faces da demência é um desafio constante. Falamos sobre Alzheimer e demência vascular, mas existe uma terceira demência importante, a Demência Frontotemporal (DFT), que muitas vezes é confundida com problemas psiquiátricos ou simplesmente “mudanças de personalidade da idade”. Entender a DFT é essencial, porque seus primeiros sinais raramente são o esquecimento e afetam o comportamento e a linguagem de forma marcante.
O que é Demência Frontotemporal (DFT)?
A demência Frontotemporal é um grupo de doenças que causam danos progressivos às células nervosas nos lobos frontal e temporal do cérebro. Essas regiões são responsáveis por controlar:
- Comportamento
- Personalidade
- Linguagem
- Raciocínio e julgamento
Ao contrário do Alzheimer, que geralmente afeta a memória no início, a DFT tende a se manifestar primeiro com alterações comportamentais ou de linguagem, e pode inclusive surgir em idades mais jovens (entre 45 e 65 anos), embora também afete idosos.
Para deixar claro: um idoso lúcido pode ter seus hábitos e opiniões, mas sua personalidade e comportamento permanecem consistentes. Em contraste, um idoso com demência frontotemporal exibe mudanças drásticas e inexplicáveis em sua forma de agir e se expressar.

Quais são os sintomas da Demência Frontotemporal?
A DFT tem duas formas principais, e os sintomas de demência frontotemporal variam de acordo com a área do cérebro mais afetada:
1. Variante comportamental da DFT (vcDFT)
Esta é a forma mais comum de DFT e se caracteriza por mudanças profundas na personalidade e no comportamento. É como se a pessoa perdesse seus “freios sociais”.
- Perda de empatia e sensibilidade social: O idoso com DFT pode se tornar insensível aos sentimentos dos outros, fazer comentários inapropriados ou parecer frio e distante.
- Exemplo: Alguém que sempre foi muito educado começa a fazer perguntas indelicadas ou a desrespeitar normas sociais básicas.
- Desinibição: Impulsividade e comportamentos socialmente inadequados.
- Exemplo: Pode tirar a roupa em público, fazer comentários sexuais explícitos, comer em excesso ou roubar objetos.
- Apatia ou falta de iniciativa: Perda de interesse em atividades antes prazerosas, tornando-se passivo e sem motivação.
- Exemplo: Não quer mais sair de casa, não se arruma ou não demonstra emoção por nada.
- Comportamentos repetitivos ou compulsivos: Realizar a mesma ação várias vezes, ou desenvolver rituais.
- Exemplo: Repetir a mesma frase, colecionar objetos sem valor ou andar sempre pelo mesmo caminho.
- Mudanças nos hábitos alimentares: Preferência por alimentos doces ou comer compulsivamente.
- Exemplo: Uma pessoa que não comia doces passa a devorar grandes quantidades de açúcar.
- Evidência científica: Um estudo de revisão de Bang et al. (2015) na Brain ressalta que as alterações de comportamento, como desinibição e apatia, são os marcadores mais precoces e proeminentes na variante comportamental da DFT, muitas vezes precedendo quaisquer queixas de memória em anos.
2. Afasia progressiva primária (APP)
Nesta forma da DFT, o principal sintoma é a dificuldade progressiva com a linguagem. Existem subtipos, mas, de modo geral, a comunicação é o problema central.
- Dificuldade para falar ou nomear objetos (Afasia): O idoso com DFT pode ter problemas para encontrar as palavras certas, o que torna a fala lenta, hesitante ou com pausas.
- Exemplo: Aponta para uma caneta, mas não consegue dizer o nome “caneta”.
- Problemas para entender a fala ou ler: Dificuldade em compreender frases complexas ou seguir instruções.
- Exemplo: Não consegue entender uma piada ou se confunde com direções simples.
- Produção de discurso vazio ou sem sentido: A fala pode ser fluente, mas com pouca informação ou cheia de repetições.
- Exemplo: Fala muito, mas o que diz não faz sentido completo.
- Evidência científica: Pesquisas como a de Gorno-Tempini et al. (2020) no Brain enfatizam que a afasia progressiva primária representa um espectro de síndromes linguísticas associadas à DFT, onde a dificuldade de produção ou compreensão da linguagem é a característica inicial e mais evidente, com a memória podendo ser preservada nos estágios iniciais.

O diagnóstico e o cuidado com a demência Frontotemporal
Diagnosticar a DFT pode ser um desafio, principalmente porque os sintomas comportamentais são muitas vezes confundidos com outras condições, como depressão, transtorno bipolar ou esquizofrenia. É fundamental buscar a avaliação de um neurologista, geriatra ou psiquiatra especializado em demências. Eles podem usar exames de imagem (como ressonância magnética) e testes neuropsicológicos para ajudar a confirmar o diagnóstico.
Para cuidadores de idosos com DFT:
- Seja compreensivo, não julgador: Lembre-se que as mudanças são resultado da doença, e não uma escolha do idoso. É a doença que altera a personalidade, não a pessoa em si.
- Crie rotinas e ambientes estruturados: Isso ajuda a minimizar a confusão e a ansiedade.
- Busque apoio multidisciplinar: Fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos são essenciais para ajudar no manejo dos sintomas, na reabilitação (principalmente na APP) e no suporte emocional para a família.
- Gerencie os comportamentos desafiadores: Aprenda estratégias para lidar com a desinibição, a apatia ou a irritabilidade. Isso pode envolver distrações, simplificação das tarefas ou até medicação prescrita pelo médico.
- Cuide de você: A DFT pode ser exaustiva para o cuidador. Procure grupos de apoio, terapia ou momentos de respiro.
Entender a Demência Frontotemporal nos permite agir com mais assertividade e empatia, oferecendo um cuidado mais humano e eficaz para o idoso e sua família.
Referências:
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