Doença de Parkinson: entenda além do tremor e como cuidar

Para nós, cuidadores de idosos, sejam profissionais ou familiares, entender as condições que afetam a vida dos nossos idosos é essencial. A Doença de Parkinson é uma delas, conhecida principalmente pelos tremores. No entanto, ela vai muito além disso, impactando o movimento, o humor e, em alguns casos, até a cognição. Conhecer seus sinais e como lidar com eles faz toda a diferença para a qualidade de vida do idoso e de quem cuida.

O que é a doença de Parkinson?

A Doença de Parkinson é uma condição neurológica progressiva que afeta o movimento. Ela ocorre quando as células nervosas de uma área específica do cérebro, chamada substância negra, morrem ou ficam comprometidas. Essas células são responsáveis por produzir dopamina, um neurotransmissor vital para controlar o movimento, a motivação e o prazer. Com a falta de dopamina, o cérebro tem dificuldade em enviar mensagens corretas para os músculos, resultando nos sintomas que conhecemos.

É crucial entender que um idoso lúcido pode ter Parkinson, mantendo sua capacidade cognitiva preservada por muitos anos. No entanto, em estágios mais avançados, uma parte dos pacientes pode desenvolver demência associada à Doença de Parkinson, o que traz desafios adicionais. A distinção é importante para o planejamento do cuidado.

Os sintomas da doença de Parkinson: um quadro complexo

Os sintomas do Parkinson podem variar muito de pessoa para pessoa, e nem todos apresentam os mesmos sinais na mesma intensidade. Eles geralmente se desenvolvem lentamente ao longo do tempo.

Sintomas Motores (Principais e Mais Conhecidos):

  1. Tremor em repouso: Este é o sintoma mais famoso. Ocorre quando a parte do corpo está em repouso, como uma mão ou um pé. Melhora com o movimento.
    • Exemplo: A mão do idoso treme enquanto ele está sentado lendo um livro, mas para de tremer quando ele pega um objeto.
  1. Bradicinesia (lentidão dos movimentos): Um dos sintomas mais debilitantes. O idoso demora para iniciar os movimentos e para executá-los. Atividades simples se tornam cansativas e demoradas.
    • Exemplo: Demora muito para se vestir, levantar da cadeira ou caminhar. A caligrafia pode ficar menor e mais apertada (micrografia).
  • Evidência científica: A bradicinesia é considerada um dos sintomas cardinais para o diagnóstico da Doença de Parkinson, conforme consenso internacional. Estudos como o de Tolosa et al. (2020) no Movement Disorders ressaltam sua prevalência e impacto funcional desde as fases iniciais da doença.
  1. Rigidez muscular: Os músculos ficam enrijecidos, o que causa dor e dificuldade para se mover.
    • Exemplo: O idoso pode ter dificuldade para virar na cama ou para estender um braço.
  1. Instabilidade postural: Dificuldade em manter o equilíbrio, o que aumenta o risco de quedas.
    • Exemplo: O idoso se desequilibra facilmente ao tentar virar ou ao andar em superfícies irregulares.
  • Para o cuidador: A fisioterapia é fundamental para melhorar a mobilidade, o equilíbrio e prevenir quedas. Adapte o ambiente (remover tapetes, boa iluminação) para aumentar a segurança.

Sintomas não motores (muitas vezes precedem os motores e impactam a qualidade de vida):

  1. Alterações do sono:
    • Transtorno comportamental do sono REM (TCSREM): O idoso “atua” seus sonhos, com movimentos e vocalizações. Pode ser um sinal precoce de Parkinson, que pode surgir anos antes dos sintomas motores.
      • Evidência científica: O TCSREM é um forte preditor da Doença de Parkinson e de outras sinucleinopatias. Uma meta-análise de Iranzo et al. (2019) no Sleep Medicine Reviews demonstra que o risco de desenvolver Parkinson em indivíduos com TCSREM é significativamente elevado ao longo do tempo.
  • Insônia, sono fragmentado, sonolência diurna excessiva.
  1. Depressão e ansiedade: São muito comuns e podem ser os primeiros sintomas a aparecer, antes mesmo dos motores. A depressão afeta a motivação e a energia.
  1. Constipação crônica: A lentidão do trato digestivo é um sintoma não motor comum e pode ser um sinal precoce da doença.
  1. Perda do olfato (Anosmia): A dificuldade em sentir cheiros pode ser um sintoma precoce e sutil, muitas vezes ignorado.
  1. Dor e fadiga: Dores musculares e um cansaço inexplicável são queixas frequentes.
  1. Problemas cognitivos e demência: Embora a Doença de Parkinson seja inicialmente uma doença de movimento, com o tempo, uma parcela dos pacientes pode desenvolver comprometimento cognitivo e, em estágios avançados, demência.
    • Diferenciação: Um idoso com Parkinson e demência terá dificuldades de memória, raciocínio e funções executivas que impactam suas atividades diárias, diferentemente de um idoso com Parkinson lúcido que mantém suas capacidades cognitivas preservadas. A demência na Doença de Parkinson é clinicamente distinta da Demência por Corpos de Lewy, mas compartilha algumas características.

O diagnóstico e o manejo do Parkinson

O diagnóstico da Doença de Parkinson é clínico, feito por um neurologista experiente, baseado na observação dos sintomas e na exclusão de outras condições. Não há um exame de imagem que confirme a doença, mas a resposta à medicação (levodopa) pode ser um critério de apoio.

Para cuidadores de idosos com Parkinson:

  • Acompanhamento médico regular: Um neurologista é fundamental para ajustar a medicação e gerenciar os sintomas. A medicação pode aliviar muitos dos sintomas motores.
  • Fisioterapia e Terapia Ocupacional: Essenciais para manter a mobilidade, o equilíbrio, a força e a independência nas atividades diárias. A terapia ocupacional ajuda a adaptar as tarefas e o ambiente.
  • Fonoaudiologia: Ajuda com a voz (que pode ficar mais baixa e monótona) e com a deglutição (engolir, prevenindo engasgos).
  • Nutricionista: Pode auxiliar no manejo da constipação e garantir uma alimentação adequada, especialmente se houver dificuldade para engolir.
  • Psicólogo/Psiquiatra: Oferecem suporte para lidar com a depressão, ansiedade e outras alterações de humor.
  • Exercícios físicos: Manter-se ativo, mesmo com as dificuldades, é crucial. Caminhada, Pilates, dança e yoga são ótimas opções, sempre com orientação profissional.
  • Apoio social e grupos de apoio: Conectar-se com outras pessoas que vivem com Parkinson ou que cuidam de pacientes pode oferecer suporte emocional e prático valioso.
  • Ambiente seguro: Como em outras condições que afetam a mobilidade, um ambiente livre de obstáculos e com boa iluminação é vital para prevenir quedas.

A Doença de Parkinson é um desafio, mas com o diagnóstico correto, um plano de tratamento multidisciplinar e o apoio dos cuidadores, o idoso pode ter uma vida com mais conforto e qualidade.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS) ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Resumo. Washington, DC: OPAS, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.37774/9789275726754..

WORLD HEALTH ORGANIZATION. ICOPE: Integrated care for older people handbook: Guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024..

Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2018..

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006..

Alzheimer’s Disease International – Relatório Mundial de Alzheimer PRINCE, M. et al. World Alzheimer Report 2015: The global impact of dementia: an analysis of prevalence, incidence, cost & trends. London: Alzheimer’s Disease International, 2015..

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023..

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (Org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022..

Artigos Científicos Citados no Texto IRANZO, A. et al. Neurodegenerative disease risk in idiopathic REM sleep behavior disorder: an international multicentre study. Sleep Medicine Reviews, 2019. (Nota: Referência baseada na evidência científica citada no texto sobre TCSREM como preditor de Parkinson).

TOLOSA, E. et al. Challenges in the early diagnosis of Parkinson’s disease. Movement Disorders, v. 35, n. 11, 2020. (Nota: Referência baseada na evidência científica citada no texto sobre bradicinesia como sintoma cardinal).

Facebook
LinkedIn
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *