Se você cuida de um idoso com doença de Alzheimer, já deve ter percebido que a doença afeta mais do que só a memória. Ela muda a forma como a pessoa se comunica, planeja e até se reconhece. Para facilitar o entendimento desses desafios, profissionais de saúde usam um conceito chamado “Os 6 A’s do Alzheimer”. Conhecê-los te ajuda a identificar os sintomas e a planejar as melhores estratégias de cuidado.
É importante lembrar que esses sintomas são esperados em idosos com demência, mas a forma como se manifestam pode variar. Para o idoso lúcido, esses pontos são cruciais para a identificação precoce de possíveis sinais e para buscar ajuda.
O que são os 6 A’s do Alzheimer?
Os 6 A’s descrevem as principais dificuldades cognitivas que surgem com a progressão da doença. Cada “A” representa uma área específica que é afetada.
1. Anosognosia: a negação da doença
A Anosognosia é a dificuldade do idoso em reconhecer que tem um problema de memória ou qualquer outra dificuldade cognitiva. Ele pode não perceber a própria doença, ou minimizar as alterações que porventura ele perceber. Isso acontece por causa das alterações no cérebro que afetam a autoconsciência.
- Para o idoso com demência: É comum que ele negue precisar de ajuda ou que suas falhas de memória existam. Essa negação não é “birra” ou teimosia, mas um sintoma da doença. O artigo de Mograbi et al. (2014) no Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology explora como a anosognosia é um aspecto central na doença de Alzheimer e como isso afeta a adesão ao tratamento e a relação com o cuidador.
- Para o cuidador: Não discuta ou tente convencer o idoso. Isso só causa frustração. Em vez disso, mude o foco da conversa ou redirecione a atividade. A paciência é chave.

2. Afasia: dificuldade na comunicação
A Afasia é a perda ou dificuldade na capacidade de se comunicar, seja falando, compreendendo o que os outros dizem, lendo ou escrevendo. No Alzheimer, inicialmente, a pessoa pode ter dificuldade em encontrar palavras, e depois a fala se torna mais confusa ou limitada.
- Para o idoso com demência: Ele pode misturar palavras, trocar sílabas, não conseguir expressar uma ideia simples ou não entender uma frase que você disse.
- Para o cuidador: Use frases curtas e simples. Fale devagar. Use gestos e expressões faciais. Dê tempo para a resposta. Não o corrija constantemente, mas tente entender a mensagem por trás das palavras. A comunicação com idosos com Alzheimer exige adaptação.
3. Apraxia: perda da habilidade de realizar movimentos
A Apraxia é a dificuldade em realizar movimentos ou tarefas motoras, mesmo que os músculos e a coordenação não estejam comprometidos. Por exemplo, o idoso pode não conseguir vestir uma blusa, usar talheres ou escovar os dentes, mesmo sabendo o que são esses objetos. É como se ele esquecesse “como se faz”.
- Para o idoso com demência: Tarefas simples do dia a dia se tornam um desafio. Ele pode ter dificuldade em planejar a sequência de movimentos.
- Para o cuidador: Simplifique as tarefas. Ofereça instruções passo a passo. Faça demonstrações. Use roupas com botões grandes ou velcro. Uma pesquisa de Iavarone et al. (2012) no Journal of the Neurological Sciences descreve a apraxia como um sintoma comum e debilitante na doença de Alzheimer, afetando a autonomia.
4. Agnosia: dificuldade em reconhecer
A Agnosia é a perda da capacidade de reconhecer pessoas, objetos, sons ou cheiros, mesmo com os sentidos funcionando normalmente. O idoso pode olhar para o filho e não o reconhecer, ou pegar uma escova de cabelo e não saber para que serve.
- Para o idoso com demência: Ele pode se sentir confuso e desorientado por não reconhecer rostos familiares ou o ambiente ao seu redor.
- Para o cuidador: Apresente-se sempre que for interagir. Diga quem você é e qual seu parentesco. Identifique objetos e locais. Use fotos com nomes. A orientação temporal e espacial para idosos é fundamental.
5. Amnésia: a perda de memória
A Amnésia é o sintoma mais conhecido do Alzheimer. Inicialmente, afeta a memória de eventos recentes (esquecer o que comeu no almoço ou o que fez ontem). Com a progressão, a memória de eventos passados também é comprometida.
- Para o idoso com demência: Ele pode repetir as mesmas perguntas, esquecer conversas que acabaram de acontecer e ter dificuldade em aprender coisas novas.
- Para o cuidador: Tenha paciência com as repetições. Use lembretes visuais (calendários, quadros de anotações). Crie uma rotina para dar previsibilidade. O Journal of Alzheimer’s Disease frequentemente publica artigos sobre a progressão da amnésia e suas implicações no cuidado, como o estudo de Scheltens et al. (2021) sobre o continuum do Alzheimer.
6. Apatia: perda de interesse e motivação
A Apatia é a perda de interesse, motivação ou entusiasmo por atividades que antes eram prazerosas. O idoso pode se tornar mais passivo, isolado, e não ter vontade de fazer nada. A apatia é um dos sintomas neuropsiquiátricos mais comuns e desafiadores no Alzheimer.
- Para o idoso com demência: Ele pode passar longos períodos sem fazer nada, não demonstrar emoção ou não iniciar conversas.
- Para o cuidador: Incentive atividades simples e prazerosas, sem forçar. Mantenha uma rotina de estímulos. Observe o que ainda desperta algum interesse nele. O artigo de Brodaty et al. (2001) na International Journal of Geriatric Psychiatry discute a alta prevalência e o impacto da apatia em pacientes com demência.

Cuidando com conhecimento e carinho
Entender os 6 A’s te dá uma bússola para navegar pelos desafios do Alzheimer. Lembre-se, o objetivo não é curar, mas oferecer o melhor cuidado para o idoso com Alzheimer, promovendo sua dignidade e qualidade de vida em cada etapa da doença. A paciência, a observação e a busca por apoio profissional são seus maiores aliados.
Referências:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2021.
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
BRODATY, H. et al. The course of neuropsychiatric symptoms in dementia: a 3-year longitudinal study. International Journal of Geriatric Psychiatry, v. 16, n. 4, p. 398-407, 2001.
FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
IAVARONE, A. et al. Apraxia in Alzheimer’s disease: a review. Journal of the Neurological Sciences, v. 322, n. 1-2, p. 11-16, 2012.
MOGRABI, D. C. et al. Anosognosia in Alzheimer’s disease: the role of self-awareness and cognitive functions. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, v. 36, n. 4, p. 329-341, 2014.
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SCHELTENS, P. et al. Alzheimer’s disease. The Lancet, v. 397, n. 10284, p. 1577-1590, 2021.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. 20 anos. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
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