Esqueceu de novo? Calma! Nem todo esquecimento é Alzheimer

Como cuidadores, você já devem ter se pegado pensando: “Será que esse esquecimento é normal ou tem algo mais sério?”

É natural se preocupar com a memória do idoso e com a sua também, mas é importante saber que nem todo lapso de memória significa Alzheimer. Muitos outros fatores podem causar esquecimento e, o melhor de tudo, alguns deles são reversíveis!

Entender as diferentes causas de esquecimento em idosos é crucial para oferecer o suporte certo e buscar a ajuda médica adequada. Vamos desmistificar o assunto e te dar um guia claro para identificar o que pode estar acontecendo.

Esquecer é parte do envelhecimento?

Um certo grau de esquecimento é, sim, parte do envelhecimento natural. É comum demorar mais para lembrar de um nome, perder objetos ocasionalmente ou esquecer um compromisso. Isso é diferente do Comprometimento Cognitivo Leve (CCL), onde as falhas de memória são mais frequentes e notáveis, mas não impedem a pessoa de realizar suas atividades diárias. O CCL pode, em alguns casos, evoluir para demência, mas nem sempre acontece.

No entanto, o esquecimento patológico é aquele que afeta significativamente a vida diária, a capacidade de se cuidar ou de interagir socialmente. Nesses casos, a investigação médica é indispensável. Uma revisão da literatura científica publicada por Petersen (2011) destaca que a diferenciação entre o declínio cognitivo normal e o patológico é essencial para um diagnóstico e intervenção precoces.

Causas comuns de esquecimento que não são Alzheimer

Vamos explorar outras razões por trás dos lapsos de memória. Muitas vezes o esquecimento tem causas que podem ser tratadas ou minimizadas:

  • Estresse, ansiedade e depressão: o estresse crônico e a ansiedade podem sobrecarregar o cérebro, dificultando a concentração e a formação de novas memórias. A depressão em idosos é uma causa comum de esquecimento, e os sintomas podem se confundir com a demência. Nesses casos, tratar a depressão melhora significativamente a memória.
  • Privação de sono: Noites mal dormidas afetam diretamente a memória e a capacidade de atenção. A má qualidade do sono impede que o cérebro consolide as informações do dia. Falamos sobre isso em outro post aqui no blog.
  • Deficiências nutricionais: A falta de vitaminas importantes, como a B12, pode levar a problemas de memória e confusão. Uma alimentação equilibrada é vital, porém, a suplementação só pode ser feita sob orientação de médico ou nutricionista.
  • Efeitos colaterais de medicamentos: Muitos remédios comuns, como os para ansiedade, insônia, alergias, pressão arterial ou até mesmo alguns analgésicos, podem causar confusão mental e problemas de memória. Sempre revise a lista de medicamentos com o médico e nunca interrompa o tratamento sem orientação médica.
  • Problemas de tireoide: Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem causar confusão mental, lentidão de raciocínio e problemas de memória. Um simples exame de sangue pode diagnosticar e o tratamento clínico adequado reverter a situação.
  • Infecções: Infecções, especialmente as do trato urinário, podem causar delírio e confusão mental aguda em idosos, manifestando-se com esquecimento. Esses quadros são reversíveis com o tratamento da infecção.
  • Desidratação: A falta de ingestão de líquidos é mais comum do que se pensa em idosos e pode levar à confusão e problemas cognitivos. A hidratação do idoso é fundamental.
  • Uso de álcool ou drogas: O consumo excessivo de álcool ou o uso indevido de medicamentos podem ter um impacto negativo e direto na memória.
  • Hidrocefalia de pressão normal (HPN): Uma condição muitas vezes reversível em que há acúmulo de líquido no cérebro, causando problemas de memória, dificuldade para andar e incontinência urinária.

Para idosos com demência: entendendo as flutuações e outras causas

Em idosos com demência, principalmente o Alzheimer, o esquecimento é um sintoma central. Contudo, é importante saber que outros fatores podem agravar esse esquecimento ou causar novas confusões.

  • Agravamento por fatores secundários: Mesmo em um quadro de demência, condições como infecções, desidratação, efeitos de medicamentos, depressão ou privação de sono podem piorar o esquecimento e a confusão já existentes. Tratar esses fatores pode não reverter a demência, mas pode melhorar significativamente a qualidade de vida e reduzir a intensidade dos sintomas.
  • Síndrome confusional aguda (Delirium): Essa é uma condição grave e aguda de confusão mental, que pode acontecer em qualquer idoso, inclusive nos com demência, desencadeada por infecções, medicamentos, desidratação, cirurgias, etc. O delirium é um indicativo de que algo está errado no corpo do idoso e exige atenção médica imediata. Diferente da demência, o delirium tem início súbito e flutuações de consciência.
  • Fadiga e sobrecarga sensorial: Ambientes com muito barulho, pouca luz ou excesso de estímulos podem exaurir o idoso com demência, resultando em mais confusão e esquecimento.
  • Progressão da doença: As doenças neurodegenerativas progridem, e com elas, os sintomas cognitivos se tornam mais evidentes. É essencial acompanhar a evolução e buscar suporte contínuo da equipe de saúde.

O que fazer diante do esquecimento?

Se você percebeu que o idoso está esquecendo mais do que o habitual, aqui estão os passos importantes:

  • Não ignore: Não atribua tudo à “idade avançada”. Um aumento repentino ou significativo no esquecimento sempre merece investigação.
  • Registre e observe: Anote o tipo de esquecimento, a frequência, quando começou e se há outros sintomas associados (mudanças de humor, sono, apetite). Isso ajudará o médico a ter um panorama mais claro.
  • Procure ajuda médica: Leve o idoso para uma avaliação com um geriatra, neurologista ou psicogeriatra. Eles podem solicitar exames de sangue, avaliações neuropsicológicas e revisar a medicação. O diagnóstico precoce é crucial, pois, se for uma causa reversível, o tratamento pode restaurar a memória. Se for demência, um diagnóstico precoce permite planejar o futuro e iniciar intervenções que podem retardar a progressão.

Lembre-se, o esquecimento é um sintoma, não um diagnóstico. Sua atenção e proatividade são fundamentais para garantir a saúde e dignidade do idoso.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance on person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240010222.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Resumo. Washington, DC: OPAS, 2022.

Ministério da Saúde

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento de Instituição de Longa Permanência para Idosos, de caráter residencial. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 101, p. 110, 31 maio 2021.

Alzheimer’s Disease International

  • PRINCE, M. et al. World Alzheimer Report 2015: The Global Impact of Dementia: An analysis of prevalence, incidence, cost and trends. London: Alzheimer’s Disease International, 2015.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

  • FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003 (atualizado até 2022). Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

Artigos Científicos Recentes e Relevantes

  • PETERSEN, R. C. Mild Cognitive Impairment. Continuum (Minneap Minn), v. 22, n. 2, p. 404-418, 2016. (Referência atualizada baseada na revisão do autor Petersen citada no texto).
  • MONTERO-ODASSO, M. et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, p. 1-36, 2022.
  • DENT, E. et al. International Conference of Frailty and Sarcopenia Research (ICFSR) International Clinical Practice Guidelines for Identification and Management of Frailty. The Journal of Nutrition, Health & Aging, v. 23, n. 9, p. 771-787, 2019.
  • CRUZ-JENTOFT, A. J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16-31, 2019.

Notas Adicionais para o Texto:

  1. Para a menção a Petersen (2011) no texto, a referência completa é: PETERSEN, R. C. Mild Cognitive Impairment. The New England Journal of Medicine, v. 364, n. 23, p. 2227-2234, 2011.
  2. Os temas de causas reversíveis (tireoide, infecções, deficiência de B12) e delirium são amplamente discutidos em: MACHADO, J. C. B. et al. Outras causas de demência e demências potencialmente reversíveis. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. cap. 20.

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