Olá, cuidadores e familiares! É um prazer estar aqui para mais uma conversa que pode fazer uma grande diferença no seu dia a dia. Se você cuida de alguém com Alzheimer ou outra demência, provavelmente já se viu numa situação delicada: uma discussão ou um momento de irritabilidade.
Sabemos o quanto é desgastante e desafiador tentar argumentar com alguém que, por causa da doença, não consegue raciocinar da mesma forma. A boa notícia é que existem estratégias assertivas para interromper discussões e trazer a calma de volta. Vamos descobrir como!
Por que as discussões acontecem e como o Alzheimer altera o cérebro
Antes de mergulharmos nas soluções, é crucial entender por que as discussões com idosos com Alzheimer são tão diferentes daquelas com idosos lúcidos.
Para uma pessoa idosa lúcida, uma discussão geralmente envolve troca de ideias, argumentos e a busca por um consenso. Ela consegue processar informações, entender diferentes pontos de vista e, muitas vezes, essa pessoa se mantêm firme no seu posicionamento, outras vezes pode ceder ou negociar.
Já para alguém com Alzheimer ou outras demências, o cenário é completamente outro. A doença afeta áreas do cérebro responsáveis pela memória, raciocínio lógico, julgamento e controle das emoções.
- Dificuldade de compreensão: O idoso pode não entender o que você está dizendo, ou interpretar de forma distorcida.
- Perda de memória: Ele pode não se lembrar de algo que acabou de acontecer, ou de informações essenciais para a conversa.
- Irritabilidade e agitação: Frustração, confusão e a própria doença podem levar a picos de irritabilidade.
- Raciocínio comprometido: Argumentar com lógica é ineficaz, pois a capacidade de processar e entender a lógica está prejudicada.
Estudos, como os publicados pelo National Institute on Aging (NIA), reforçam que a neurodegeneração no Alzheimer afeta diretamente as funções executivas e o controle emocional, tornando as discussões lógicas ineficazes e muitas vezes contraproducentes.
É importante que tenhamos conhecimento dos fatores que desencadeiam as discussões. Normalmente algum assunto específico, alguns tipos de cena que passam na TV, excesso de ruídos, muitas pessoas ao seu redor, pessoas estranhas no ambiente e até mesmo a presença de determinada pessoa podem ser causa de agitação que acaba virando discussão. O olhar atento do cuidador vai percebendo com o tempo estes fatores e torna-se mais fácil prevenir e evitar o estresse que isso pode gerar.

Estratégias assertivas para interromper uma discussão com idoso com Alzheimer
Quando a irritação já tomou conta, e a discussão está em andamento, a meta não é “vencer” o argumento, mas sim desviar o foco, acalmar o ambiente e proteger o bem-estar de todos.
1. Mude o foco:
- O que fazer: Quando a discussão começar, não tente argumentar. Imediatamente, mude o assunto ou direcione a atenção para outra coisa.
- Como aplicar:
- “Vou te preparar aquele lanche que você tanto gosta!”
- “Olha que legal este vídeo sobre …” (mostre um assunto que a pessoa se interessa).
- “Vamos dar uma volta rápida lá fora para ver… “(mostre algo que a pessoa gosta).
- “Me ajuda aqui com esta toalha, por favor.” (peça ajuda para qualquer tarefa que faça essa pessoa se sentir útil).
- Por que funciona: A pessoa com demência tem dificuldade em manter a atenção em múltiplos estímulos. Ao introduzir algo novo e interessante (ou que exija uma ação), você desvia o “loop” da discussão.
- A terapia de validação e o desvio de atenção são abordagens frequentemente citadas em guias de cuidado para demências, como os da Alzheimer’s Association, por sua eficácia em reduzir a agitação.
2. Valide o sentimento, não a “realidade” (abrace a emoção):
- O que fazer: Em vez de corrigir o idoso ou dizer que ele está errado, reconheça o sentimento dele.
- Como aplicar:
- Se ele disser: “Você pegou meu dinheiro!”, responda: “Entendo que você esteja preocupado com seu dinheiro. Vamos procurar juntos?” (e mude o foco para a procura, ou para outra coisa).
- Se ele estiver bravo porque “não jantou”, diga: “Percebo que você está com fome. Que tal a gente comer agora um pedaço daquele bolo gostoso?”

- Por que funciona: Você mostra empatia, o que pode acalmar o idoso. Você não está concordando com a informação falsa, mas sim validando a emoção que ele está sentindo.
- A validação de sentimentos é uma técnica central na terapia de validação, desenvolvida por Naomi Feil, e é amplamente utilizada para melhorar a comunicação e reduzir conflitos em indivíduos com demência, pois reduz a sensação de não ser compreendido.
3. Ofereça algo agradável (O “distrator positivo”):
- O que fazer: Ofereça algo que o idoso goste e que seja fácil de iniciar no momento.
- Como aplicar:
- Coloque a música favorita dele.
- Ofereça um objeto que ele goste de manusear.
- Mostre um álbum de fotos antigas.
- Chame a atenção para um animal de estimação, se houver.
- Por que funciona: Uma atividade prazerosa e familiar pode quebrar o ciclo de irritabilidade e trazer uma sensação de conforto e segurança.
4. Mude de ambiente (O “Respiro Espacial”):
- O que fazer: Se possível, leve o idoso para outro cômodo, para a varanda, ou para um local mais tranquilo.
- Como aplicar:
- “Vamos para a sala ver a novela que você gosta?”
- “Que tal um pouquinho de ar fresco lá fora?”
- “Vem comigo me ajudar na cozinha um pouquinho.”
- Por que funciona: Uma mudança de cenário pode “reiniciar” a mente do idoso, quebrando a associação com o local da discussão e oferecendo novos estímulos menos estressantes.
5. Mantenha a calma e use uma voz suave:
- O que fazer: Sua voz e linguagem corporal são poderosas. Mantenha a voz baixa, calma e use um tom tranquilizador.
- Como aplicar: Evite gritar, gesticular de forma agressiva ou mostrar frustração. Lembre-se que o idoso, mesmo com demência, pode captar as emoções que você transmite.
- Por que funciona: A sua calma transmite segurança e ajuda a desescalar a situação. O espelhamento emocional é real: se você está agitado, ele tende a ficar mais agitado; porém, se você demonstra calma, ele tende a se acalmar também porque se sente seguro ao lado de uma pessoa tranquila.

Diferenciando a abordagem: idoso lúcido vs. idoso com demência
É fundamental sublinhar que essas estratégias são específicas para idosos com Alzheimer ou outras demências, justamente porque a capacidade de raciocínio e memória está comprometida.
- Para um idoso lúcido, interromper uma discussão geralmente envolve ouvir, validar o ponto de vista dele, apresentar argumentos com clareza, negociar e talvez até pedir desculpas se for o caso. O foco é a resolução lógica e a compreensão mútua. Quando se trata de uma pessoa idosa lúcida devemos entender que a idade não é um fator que invalida suas decisões, precisamos respeitá-las, mesmo que sejam contrárias às nossas.
- Para um idoso com demência, o objetivo não é resolver a discussão logicamente, mas sim interromper a agitação e a frustração. A lógica não funciona. A empatia, a distração e a mudança de foco são as ferramentas mais eficazes para proteger o idoso de si mesmo (da própria agitação) e evitar o desgaste do cuidador.
Lembre-se, cuidador: sua paciência e criatividade são seus maiores aliados. Interromper discussões com um idoso com demência não é admitir derrota, é uma vitória de amor e inteligência no cuidado!
Referências:
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- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024..
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Washington, DC: OPAS, 2021..
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável: relatório de linha de base: resumo. Washington, DC: OPAS, 2022..
Ministério da Saúde
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018..
- BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento de Instituição de Longa Permanência para Idosos, de caráter residencial. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 101, p. 110, 31 maio 2021..
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- ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: ADI, 2019..
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
- FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022..
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023..
Artigos Científicos e Outras Fontes Citadas (Normas e Autores)
- FEIL, Naomi; DE KLERK-RUBIN, Vicki. The Validation Breakthrough: simple techniques for communicating with people with Alzheimer’s and other dementias. 3. ed. Baltimore: Health Professions Press, 2012. (Referência à Terapia de Validação citada no Tratado)..
- JACK, Clifford R. et al. NIA-AA Research Framework: toward a biological definition of Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia, v. 14, n. 4, p. 535-562, 2018..
- LIVINGSTON, Gill et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020..
- PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Christiane Machado. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. São Paulo, 2019. (Material didático citado).