Estratégias para o idoso se alimentar melhor

Como cuidadores, vocês sabem que a alimentação do idoso é um pilar fundamental da saúde. Às vezes, porém, conseguir que ele coma bem se torna um desafio. Perda de apetite, dificuldade para mastigar ou engolir, e até mesmo a confusão mental podem atrapalhar. Mas, com as estratégias certas, podemos transformar a hora da refeição em um momento nutritivo e prazeroso.

Uma boa nutrição é crucial para manter a imunidade, a energia, a força muscular e a saúde cognitiva. A desnutrição em idosos pode levar a quedas, hospitalizações e piora de doenças crônicas. Um estudo de Volkert et al. (2019) na Clinical Nutrition destaca a alta prevalência de desnutrição em idosos e a importância de intervenções nutricionais para melhorar os resultados de saúde.

Por que o idoso pode comer mal?

Muitos fatores contribuem para a perda de apetite ou dificuldade de se alimentar em idosos. Compreender essas causas é o primeiro passo para ajudar.

  • Alterações no paladar e olfato: Com a idade, a percepção dos sabores e cheiros diminui, tornando a comida menos atraente.
  • Problemas dentários ou próteses mal ajustadas: Dor ou dificuldade ao mastigar impedem a ingestão adequada de alimentos.
  • Dificuldade para engolir (Disfagia): Alimentos sólidos ou líquidos podem ser difíceis de engolir, causando engasgos e medo de comer.
  • Doenças crônicas e medicamentos: Muitas condições de saúde e seus tratamentos afetam o apetite ou causam náuseas.
  • Isolamento social e depressão: Comer sozinho ou a falta de motivação podem reduzir o interesse pela comida. A saúde mental do idoso impacta a alimentação.
  • Déficits cognitivos: Especialmente em idosos com demência, a confusão pode afetar a capacidade de se alimentar.

Dicas práticas para melhorar a alimentação

Vamos ver como adaptar as estratégias nutricionais:

Incentive a escolha e o prazer à mesa

O foco é na autonomia, no sabor e na rotina.

  • Refeições menores e mais frequentes: Em vez de três grandes refeições, ofereça 5 ou 6 refeições menores ao longo do dia. Isso evita sobrecarregar o estômago e mantém o metabolismo ativo.
  • Alimentos nutritivos e calóricos: Priorize alimentos ricos em nutrientes e calorias em porções menores. Aveia, ovos, abacate, azeite extra virgem, castanhas e laticínios integrais podem ser bons aliados.
  • Variedade e apresentação: Ofereça pratos coloridos e variados. Uma comida bonita é mais convidativa. Experimente temperos naturais para realçar o sabor, pois o paladar pode estar menos apurado.
  • Horários fixos: Estabeleça horários regulares para as refeições. Isso ajuda a criar um hábito e o corpo a reconhecer os momentos de comer.
  • Hidratação constante: Incentive a ingestão de líquidos ao longo do dia, mas evite que ele beba muito líquido antes ou durante as refeições, para não preencher o estômago e diminuir o apetite. Água, sucos naturais (sem açúcar ou com pouco), chás e sopas são ótimas opções. A hidratação do idoso é vital.
  • Ambiente agradável: Faça da hora da refeição um momento tranquilo. Desligue a TV, evite discussões. Uma mesa posta com carinho faz diferença.
  • Envolvimento na preparação: Se possível, envolva o idoso na escolha do cardápio ou em tarefas simples na cozinha. Isso estimula o apetite.

Para idosos com demência: simplifique, adapte e seja paciente

Com idosos com demência, o processo de alimentação pode ser mais complexo. A paciência, a observação e a adaptação são essenciais.

  • Facilite a alimentação:
    • Textura dos alimentos: Alimentos macios, purês, sopas, cremes e vitaminas são mais fáceis de mastigar e engolir. Se houver disfagia, converse com um fonoaudiólogo para orientações sobre a consistência ideal. Um estudo de Logemann (1998) em Dysphagia discute a importância da adaptação da textura para prevenir engasgos em pacientes com distúrbios de deglutição.
    • Utensílios adaptados: Colheres com cabos mais grossos, pratos com bordas elevadas ou antiderrapantes e copos com alças grandes podem facilitar o manuseio e a autonomia do idoso.
    • Simplifique: Evite colocar muitos itens no prato ao mesmo tempo. A sobrecarga visual pode causar confusão. Pratos com divisórias podem ajudar.
  • Ambiente calmo e sem distrações: Um ambiente barulhento ou com muitas pessoas pode desorientar o idoso e fazê-lo perder o foco na comida.
  • Ofereça pequenas porções: Comece com pequenas quantidades de comida no prato e ofereça mais se ele quiser. Porções muito grandes podem assustar.
  • Apresentação clara: Use louças de cor contrastante com a comida para ajudar o idoso a diferenciar o alimento do prato.
  • Paciência e tempo: Não apresse o idoso. A refeição pode levar mais tempo. Incentive cada garfada, mas sem pressão. Permita que ele coma no próprio ritmo.
  • Observe sinais de dificuldade: Fique atento a engasgos, tosse durante a refeição, ou se o idoso está “embolsando” a comida na boca. Isso pode indicar disfagia.
  • Lembretes e estímulos: Se o idoso se esquece de comer, ofereça a comida. Toque a mão dele suavemente, leve a colher à boca. O cheiro da comida pode ser um bom estímulo.

Quando procurar ajuda profissional?

Se, mesmo com essas estratégias, o idoso continua perdendo peso, comendo muito pouco ou apresentando dificuldades persistentes, procure a avaliação de um médico ou nutricionista. Eles podem identificar causas mais sérias e indicar suplementos nutricionais, se necessário, ou encaminhar para outros especialistas como fonoaudiólogos ou dentistas.

A nutrição do idoso é um investimento na sua longevidade com qualidade. Com carinho e as estratégias certas, você pode garantir que o idoso que você cuida receba os nutrientes necessários para uma vida mais saudável e feliz.

Referências:

Organizações e Entidades (OMS, Ministério da Saúde, SBGG, ADI)

  1. ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2021.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Orientações técnicas para a implementação de Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  4. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Decade of healthy ageing: baseline report. Geneva: World Health Organization, 2020.
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: World Health Organization, 2019.
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: 20 anos. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

Artigos Científicos e Livros Acadêmicos

  1. FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  2. LOGEMANN, Jeri A. Evaluation and Treatment of Swallowing Disorders. 2. ed. Austin, Texas: Pro-Ed, 1998. (Referência clássica para o estudo citado de 1998 sobre disfagia).
  3. MONTERO-ODASSO, Manuel et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, p. 1-36, 2022.
  4. PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Cláudia Moore. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 152-165.
  5. VOLKERT, Dorothee et al. ESPEN guideline on clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clinical Nutrition, v. 38, n. 1, p. 10-47, 2019.
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