Como cuidadores de idosos, sejam vocês profissionais ou familiares, presenciamos diariamente a capacidade e a resiliência das pessoas mais velhas. Contudo, também nos deparamos com uma realidade dolorosa: o idadismo, ou ageísmo. Esse preconceito baseado na idade afeta a qualidade de vida dos idosos de maneiras sutis e nem tão sutis, limitando oportunidades e reforçando estereótipos. É fundamental reconhecê-lo e, mais importante, combatê-lo.
O que é Idadismo (Ageísmo)?
O idadismo é o preconceito, a discriminação ou o estereótipo contra indivíduos ou grupos com base em sua idade. Assim como racismo ou machismo, o ageísmo é uma forma de discriminação. Ele não afeta apenas os idosos; pode atingir qualquer faixa etária, mas é predominantemente direcionado às pessoas mais velhas, perpetuando a ideia de que “velho” é sinônimo de incapacidade, fragilidade ou obsolescência.
Essa visão distorcida ignora a vasta experiência, sabedoria e potencial de contribuição que os idosos possuem.
Como o Idadismo se manifesta no dia a dia?
O ageísmo pode aparecer de várias formas, muitas vezes disfarçado de “preocupação” ou “cuidado excessivo”. Para nós, cuidadores, é vital identificar esses sinais e não reforçá-los:

- Estereótipos e suposições:
- Como se manifesta: Achar que todo idoso é doente, lento, esquecido ou incapaz de aprender coisas novas, independentemente de sua real condição.
- Exemplo: Presumir que um idoso lúcido não consegue usar um smartphone ou que um idoso não tem mais interesse em atividades sociais ou sexuais.
- Impacto: Essas suposições levam à subestimação das capacidades do idoso, limitando sua participação ativa na sociedade. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2021) sobre o ageísmo global aponta que estereótipos negativos sobre a idade contribuem para a exclusão social e a diminuição da participação econômica e social dos idosos, afetando sua saúde física e mental.
- Linguagem pejorativa ou infantilizadora:
- Como se manifesta: Usar diminutivos (vovozinho, velhinho), falar em tom de voz muito alto ou lento sem necessidade, ou tratar o idoso como criança.
- Exemplo: Chamar um idoso de “fofo” ou “querido” em um contexto inadequado, ou usar termos como “tá gagá” ao se referir a lapsos de memória, desconsiderando a dignidade da pessoa.
- Impacto: Essa forma de comunicação retira a autonomia e a dignidade do idoso, reforçando sua dependência.
- Para o cuidador: Para um idoso lúcido, isso é degradante. Para um idoso com demência, que pode ter a comunicação comprometida, uma linguagem respeitosa e clara ainda é fundamental para manter sua dignidade.
- Discriminação no mercado de trabalho e saúde:
- Como se manifesta: Dificuldade para idosos encontrarem emprego, ou serem preteridos em tratamentos de saúde sob o argumento de que “já viveram o suficiente” ou que “é normal da idade”.
- Exemplo: Um médico não investigar a fundo um sintoma em um idoso, atribuindo-o à velhice, ou empresas que evitam contratar pessoas mais velhas por acharem que são menos produtivas.
- Impacto: O ageísmo na saúde pode levar a diagnósticos tardios e tratamentos inadequados, enquanto no trabalho, limita a independência financeira e a contribuição social. Pesquisas como a de Chang et al. (2020) no The Gerontologist mostram que o ageísmo em ambientes de saúde pode resultar em piores resultados de saúde para idosos, devido à subvalorização de suas queixas e à relutância em oferecer tratamentos agressivos, mesmo quando apropriados.
- Exclusão social e digital:
- Como se manifesta: Não incluir idosos em atividades sociais ou treinamentos, ou não considerar suas necessidades no desenvolvimento de tecnologias.
- Exemplo: Eventos sociais que não consideram a mobilidade ou interesses dos idosos, ou serviços bancários que se tornam exclusivamente digitais, dificultando o acesso de quem não tem familiaridade com a tecnologia.
- Impacto: Leva ao isolamento, solidão e perda de oportunidades de aprendizado e interação.

Como combatemos o Idadismo no nosso dia a dia?
Combater o ageísmo começa com a mudança de mentalidade e a valorização do envelhecimento. Nós, cuidadores, temos um papel central nessa mudança:
- Promova a valorização do idoso:
- Foque nas habilidades e experiências do idoso, não apenas nas limitações. Incentive-o a compartilhar histórias e conhecimentos.
- Para idosos lúcidos: Incentive a participação em atividades comunitárias, voluntariado e novos aprendizados.
- Para idosos com demência: Mesmo com desafios cognitivos, celebre suas capacidades residuais e continue proporcionando atividades significativas e interações positivas.
- Use uma linguagem respeitosa:
- Evite termos pejorativos ou infantilizadores. Converse com o idoso como você conversaria com qualquer adulto, com respeito e clareza.
- Fale na altura dos olhos, olhando nos olhos (se for confortável para ele), e com um tom de voz normal.
- Incentive a autonomia e a participação:
- Sempre que possível, permita que o idoso tome suas próprias decisões e participe de atividades.
- Para idosos lúcidos: Deixe-os escolher suas roupas, o que comer, o que assistir.
- Para idosos com demência: Ofereça opções limitadas para simplificar a escolha (ex: “Você quer a blusa azul ou a verde?”). Mesmo pequenas escolhas reforçam a autonomia.
- Eduque e conscientize:
- Compartilhe informações sobre o envelhecimento ativo e a diversidade na velhice. Desmistifique os estereótipos. Campanhas de educação pública e programas de intervenção que desafiam estereótipos negativos sobre a velhice demonstram ter um impacto positivo na redução do ageísmo, como apontado pelo relatório da WHO (2021).
- Adapte, não subestime:
- Adapte o ambiente e as atividades para as necessidades do idoso, mas não o subestime por isso. A adaptação visa dar mais liberdade, não impor mais restrições.
- Exemplo: Uma barra de apoio no banheiro não é um sinal de fraqueza, mas sim uma ferramenta para mais segurança e independência.

Combater o idadismo é construir uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as idades. Nosso papel como cuidadores é crucial para mudar essa narrativa e garantir que os idosos sejam vistos e tratados com a dignidade e o respeito que merecem.
REFERÊNCIAS:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: Alzheimer’s Disease International, 2019. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2019. Acesso em: 16 jan. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Orientações técnicas para a implementação de linha de cuidado para atenção integral à saúde da pessoa idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2018.
CHANG, E.-S. et al. Global reach of ageism on older persons’ health: a systematic review. The Gerontologist, [s. l.], v. 60, n. 3, p. 175-202, 2020.
FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021. Licença: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/340208. Acesso em: 16 jan. 2026.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Etarismo, o preconceito contra idosos. [s. l.]: SBGG, 2021. Disponível em: https://sbgg.org.br/etarismo-o-preconceito-contra-os-idosos/. Acesso em: 16 jan. 2026.
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