Cuidar de uma pessoa idosa exige atenção constante aos pequenos detalhes do dia a dia. Você já percebeu se o idoso sob seus cuidados passa grande parte do dia cochilando na poltrona, tem dificuldade para se manter acordado durante as conversas ou parece sem energia para as atividades cotidianas?
Se você notou que ele está dormindo muito, saiba que essa sonolência diurna excessiva (SDE) não deve ser tratada simplesmente como algo “normal da idade”. O sono excessivo ao longo do dia é um sinal de alerta que merece investigação, pois afeta diretamente a saúde, a segurança e a qualidade de vida tanto do idoso quanto da família e dos cuidadores.
Nesta matéria, explicamos de forma simples e prática as principais causas biológicas da sonolência, o impacto dos cochilos diurnos no sono da noite, estratégias para idosos acamados e o que fazer para regularizar a rotina.
Por que algumas pessoas idosas dormem tanto? As causas biológicas e orgânicas
O envelhecimento altera a arquitetura natural do sono, tornando-o mais fragmentado e leve durante a noite. No entanto, sentir uma necessidade incontrolável de dormir durante o dia é um indicativo de que algo no organismo precisa de atenção profissional. As causas biológicas e orgânicas mais comuns incluem:

- Deficiências de Vitaminas e Minerais: Carências nutricionais, especialmente de vitamina B12, vitamina D e ferro (anemia), reduzem a disposição, causam fadiga crônica e aumentam a sensação de cansaço extremo.
- Alterações Hormonais: Condições como o hipotireoidismo — quando a glândula tireoide funciona abaixo do ritmo ideal — lentificam o metabolismo, provocando sonolência, apatia e diminuição da força física.
- Depressão e Apatia: A depressão na velhice nem sempre se manifesta apenas com choro ou tristeza expressa. Frequentemente, ela surge como falta de motivação, desinteresse generalizado (apatia) e sonolência excessiva, sendo usada pelo cérebro como um mecanismo de refúgio emocional.
- Aparatos Medicamentosos (Efeito Colateral): A polifarmácia — o uso simultâneo de múltiplos medicamentos — é uma das causas mais frequentes de sonolência. Remédios para pressão alta, antialérgicos, analgésicos fortes, calmantes, ansiolíticos e neurolépticos causam um efeito sedativo prolongado.
- Problemas Cardiovasculares e Respiratórios: Doenças como a insuficiência cardíaca e a apneia obstrutiva do sono reduzem a oxigenação cerebral adequada durante a noite, resultando em um sono noturno de péssima qualidade e na consequente sonolência durante o dia.
O ciclo dos cochilos diurnos e o impacto no sono noturno
Um dos grandes vilões do descanso saudável é o “ciclo vicioso dos cochilos”. Quando o idoso passa a manhã e a tarde fazendo pequenos cochilos picados na cadeira ou no sofá, o cérebro acumula a sensação de descanso fracionado.
O resultado direto dessa rotina é a insônia noturna ou o sono picado e agitado. Ao passar a noite em claro, rolando na cama ou acordando várias vezes, ele desperta exausto no dia seguinte e volta a cochilar durante o dia, perpetuando o problema.

Orientações para idosos lúcidos e com demência
As orientações para organização do sono se aplicam tanto para idosos lúcidos quanto para aqueles que apresentam quadros de demência (como o Alzheimer), pois ambos se beneficiam de uma rotina estruturada.
A única exceção marcante ocorre na fase avançada da Demência de Alzheimer ou de outras demências. Nessa etapa avançada, ocorre uma degradação neurodegenerativa mais severa nas áreas cerebrais responsáveis pelo controle do ritmo circadiano (o nosso relógio biológico), fazendo com que o idoso passe naturalmente a maior parte do tempo dormindo ou rebaixado. Nas demais fases e situações, a busca pela regularização do sono é altamente recomendada.
Exemplos práticos do que fazer para regularizar o sono
Para reverter a sonolência excessiva e promover noites de descanso tranquilo, os cuidadores podem adotar ações simples no cotidiano:
- Estabeleça horários fixos: Mantenha a rotina de acordar, tomar refeições e ir para a cama sempre nos mesmos horários.
- Lide com os cochilos com sabedoria: Se o idoso precisar de um descanso após o almoço, limite o cochilo a no máximo 45 minutos e evite que aconteça no final da tarde.
- Incentive atividades físicas leves: A caminhada no quintal, alongamentos ou banhos de sol matinais ajudam a gastar energia física e regulam o relógio biológico.
- Crie um ritual noturno relaxante: Evite bebidas estimulantes (café, chás pretos/mates, refrigerantes) após as 16h. Ofereça um chá morno de camomila, proporcione um banho aquecido ao final da tarde e evite telas de celular ou televisão perto da hora de dormir.
- Solicite uma revisão medicamentosa: Leve o idoso ao médico geriatra e peça uma avaliação detalhada dos remédios em uso. Ajustes nas doses ou na hora de tomar certos medicamentos podem eliminar a sonolência sem prejuízo ao tratamento.

Idosos acamados: como evitar a sonolência diurna e melhorar a noite?
Cuidar de um idoso acamado ou com mobilidade bastante reduzida exige estratégias ambientais e rotineiras bem definidas para que o organismo continue identificando a diferença entre o dia e a noite:
- Diferencie o dia da noite no ambiente: Pela manhã, abra janelas e cortinas para permitir a entrada de luz natural. A luz do sol inibe a produção de melatonina (o hormônio do sono) e sinaliza ao cérebro que é momento de estar desperto. À noite, escureça o quarto, reduza os ruídos e evite televisores ligados.
- Troque de roupa pela manhã: Evite deixar o idoso de pijama o dia todo. Mudar para uma roupa confortável de uso diurno ajuda na percepção mental de que o dia começou.
- Mobilização e Mudança de Postura: Sempre que indicado e seguro, retire o idoso da cama com o auxílio de poltronas adequadas ou realize mudanças de decúbito e exercícios passivos orientados por fisioterapeutas. Permanecer na posição sentada durante parte do dia ajuda a manter o estado de alerta.
- Estímulo Sensorial e Interação: Converse com o idoso, coloque músicas que ele gostava de ouvir, faça massagens leves nas mãos e pés ou proporcione momentos de leitura. O contato com a família e com o cuidador mantém o cérebro ativado.
Palavras-chave
- idoso dormindo muito
- sonolência excessiva em idosos
- causas da sonolência diurna em idosos
- como regularizar o sono do idoso
- sono do idoso acamado
- cuidador de idosos
- rotina de sono na velhice
- Alzheimer e sonolência
Referências
- ABREU, Daniela. Atuação fisioterapêutica na gerontologia: avaliação e intervenção. São Paulo: Editora Saúde, 2022.
- ALMEIDA, Katiele dos Santos; LEITE, Marinês Tambara; HILDEBRANDT, Leila Mariza. Cuidadores familiares de pessoas portadoras de Doença de Alzheimer: revisão de literatura. Revista Eletrônica de Enfermagem, Goiânia, v. 11, n. 2, p. 403-412, 2009.
- AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). 5th ed. text rev. Washington, DC: American Psychiatric Association, 2022.
- BITENCOURT, Graziele Ribeiro; SANTANA, Rosimere Ferreira. Avaliação e riscos associados ao uso de fraldas geriátricas em idosos. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 71, n. 2, p. 845-852, 2018.
- BORGES, Saulo Queiroz; TOLEDO, Maria Alice de Vilhena; TAVARES JUNIOR, Almir Ribeiro. Sintomas psicológicos e comportamentais nas demências. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 320-335.
- GOMES, Hévila Nascimento; BEZERRA, Maria Iracema Capistrano. A percepção do cuidador sobre a atuação do fisioterapeuta no atendimento domiciliar de pacientes acamados. Revista Fisioterapia & Saúde Funcional, Fortaleza, v. 5, n. 2, p. 23-32, ago./dez. 2016.
- KAWADA, Tomoyuki. Sleep quality, sleep duration and hypertension. Journal of Psychosomatic Research, New York, v. 136, p. 110174, 2020.
- KIVIPELTO, Miia et al. Lifestyle interventions to prevent cognitive impairment and clinical decline. Nature Reviews Neurology, London, v. 14, n. 11, p. 653-666, 2018.
- LIVINGSTON, Gill et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, London, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.
- MATTOS, Emanuela Bezerra Torres; OLIVEIRA, Jéssica Paloma; NOVELLI, Marcia Maria Pires Camargo. As demandas de cuidado e autocuidado na perspectiva do cuidador familiar da pessoa idosa com demência. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, e200189, 2020.
- PAVARINI, Sofia Cristina Iost et al. Cuidando de idosos com Alzheimer: a vivência de cuidadores familiares. Revista Eletrônica de Enfermagem, Goiânia, v. 10, n. 3, p. 580-590, 2008.
- PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Mônica. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. São Paulo: Editora Atheneu, 2019.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2nd ed. Geneva: World Health Organization, 2024.
