Olá, cuidadores e familiares! É um prazer estar aqui para mais uma conversa essencial. Hoje, vamos desmistificar uma frase que, apesar de parecer carinhosa, pode trazer impactos muito negativos para o cuidado com o idoso: “Ele(a) voltou a ser criança!“
Essa ideia de que o idoso, especialmente aquele com Alzheimer ou outra demência, regride à infância é um mito que, infelizmente, prejudica a forma como cuidamos e nos relacionamos com eles. Vamos entender por que essa crença é um problema e como podemos mudar nossa perspectiva para um cuidado mais digno e eficaz.
A frase “voltou a ser criança” geralmente surge quando observamos a dependência crescente ou comportamentos que nos remetem à infância, como teimosia, repetição de frases, ou a necessidade de supervisão para tarefas básicas. No entanto, acreditar nisso é um erro grave por várias razões:
- Desrespeito à individualidade e história de vida: Um idoso, mesmo com demência, carrega uma vida inteira de experiências, aprendizados, sucessos e desafios. Ele não perde sua identidade ou sua história de vida só porque a memória ou o raciocínio estão comprometidos. Reduzi-lo a uma “criança” é ignorar toda essa bagagem.
- A Gerontologia enfatiza a importância de reconhecer a individualidade e a história de vida de cada idoso. Reduzir a pessoa à sua condição de dependência ou à doença é desconsiderar seu arcabouço biográfico e psicológico, algo que impacta negativamente o cuidado (Kitwood, 1997).
- Infantilização e perda de dignidade: Chamar um idoso de “meu bebê” ou “minha criança”, ou tratá-lo como tal (falando com voz infantilizada, não explicando as coisas, tomando todas as decisões sem envolvê-lo) o infantiliza. Isso rouba sua dignidade e autonomia, mesmo que limitada pela doença. A infantilização pode gerar frustração, raiva e agitação no idoso, mesmo que ele não consiga expressar isso claramente.
- Pesquisas em Geriatria e Psicologia do Envelhecimento demonstram que a infantilização no cuidado de idosos pode levar à depressão, perda da autoestima e comportamentos de resistência, pois mina a sensação de valor próprio (Baltes & Carstensen, 1996).
- Expectativas erradas e frustração do cuidador: Crianças têm potencial ilimitado de aprendizado e desenvolvimento. Idosos com demência têm uma doença progressiva. Esperar que eles “aprendam de novo” ou “voltem ao normal” como uma criança em desenvolvimento leva o cuidador a uma frustração constante e a métodos de ensino ineficazes.
- Compreender a natureza progressiva da demência é fundamental. A expectativa de reversão ou aprendizado contínuo, como se dá na infância, é irrealista e contribui para o estresse e o burnout do cuidador, como apontam estudos sobre a carga de cuidado em demências (Pinquart & Sörensen, 2011).
- Comunicação ineficaz: Você não se comunica com um adulto da mesma forma que com uma criança. Falar de forma simplificada é importante para a demência, mas não com voz ou tom de criança. Isso pode soar desrespeitoso e irritar o idoso, que ainda pode sentir a infantilização, mesmo sem entender a lógica por trás dela.

Idoso lúcido vs. idoso com demência: a diferença crucial
A diferenciação aqui é vital:
- Com um idoso lúcido: Chamar de “criança” ou infantilizar é um ato de desrespeito direto. Ele tem plena capacidade de entender o que está acontecendo e de sentir-se diminuído, ofendido e frustrado. Isso pode levar a brigas, isolamento ou depressão. Sua autonomia deve ser sempre valorizada e respeitada.
- Com um idoso com Alzheimer ou outras demências: Embora a capacidade de raciocínio lógico esteja comprometida, a sensação de ser tratado de forma indigna pode persistir. A infantilização pode aumentar a agitação, a resistência e o sofrimento. A pessoa com demência não “volta a ser criança”; ela está vivenciando uma condição neurológica complexa que afeta suas capacidades, mas não apaga sua história ou sua necessidade de ser tratado com respeito e dignidade, como um adulto. Seus comportamentos podem lembrar os de uma criança (dependência, impulsividade), mas as razões e o contexto são completamente diferentes.
Como mudar a perspectiva para um cuidado mais digno
1. Reconheça a pessoa, não apenas a doença:
- Lembre-se sempre de quem o idoso foi e ainda é, apesar das limitações. Chame-o pelo nome, converse sobre suas paixões antigas, mostre fotos de sua vida adulta.
2. Use a comunicação adequada para adultos:
- Mesmo que precise simplificar frases, mantenha um tom de voz calmo e adulto. Evite diminutivos ou expressões que infantilizam. Se houver humor, que seja adequado a um adulto.
3. Ofereça escolhas e incentive a autonomia (mesmo limitada):
- Sempre que possível, dê opções e peça a opinião do idoso. “Você prefere suco ou água?”, “Qual camisa você quer vestir?”. Isso reforça a individualidade e a capacidade de decisão, mesmo que simples.
- Envolva-o em tarefas simples que ele consiga fazer, como dobrar toalhas, regar plantas (com supervisão), ou descascar vegetais.
4. Mantenha a dignidade na higiene e cuidados pessoais:
- Ao ajudar com o banho ou vestir-se, respeite a privacidade. Explique o que você está fazendo. Peça licença, mesmo que ele não compreenda totalmente. Trate o corpo dele com o respeito que um corpo adulto merece.
5. Entenda a razão por trás do comportamento:
- Em vez de atribuir um comportamento à “birra de criança”, tente entender o que pode estar causando. É dor? Fome? Confusão? Tédio? Um ambiente barulhento? Um medo?
6. Eduque a si mesmo e outros familiares:
- Compartilhe essa informação. Explique aos outros por que não devemos tratar o idoso como criança e o impacto negativo que isso tem. O conhecimento é a melhor ferramenta para um cuidado de qualidade.

Cuidadores, a diferença entre a maturidade e a infância não se apaga com a idade ou com a doença. Tratar um idoso com respeito, dignidade e reconhecimento de sua vida adulta, mesmo em face da demência, é a atitude mais amorosa e eficaz. Eles não são crianças; são adultos com necessidades especiais que merecem nosso carinho e a manutenção de sua identidade.
Referências:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. Relatório Mundial de Alzheimer 2021: jornada do diagnóstico de demência. Londres: ADI, 2021. Disponível em: https://www.alzint.org/. Acesso em: 16 jan. 2026.
BALTES, Margaret M. The Many Faces of Dependency in Old Age. Nova York: Cambridge University Press, 1996.
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
KITWOOD, Tom. Dementia Reconsidered: the person comes first. Buckingham: Open University Press, 1997.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030: relatório de linha de base. Genebra: OMS, 2020.
PINQUART, Martin; SÖRENSEN, Silvia. Spouses, children, and other relatives as caregivers. In: SCHAIE, K. W.; WILLIS, S. L. (ed.). Handbook of the Psychology of Aging. 7. ed. San Diego: Academic Press, 2011. p. 439-454.
REBELLATO, Carolina; GOMES, Margareth Cristina de Almeida; CRENITTE, Milton Roberto Furst (org.). Introdução às velhices LGBTI+. Rio de Janeiro: SBGG-RJ, 2021.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Etarismo, o preconceito contra idosos. Rio de Janeiro: SBGG, 2021. Disponível em: https://sbgg.org.br/. Acesso em: 16 jan. 2026.