Planejar uma viagem é, na maioria das vezes, motivo de alegria. Mas, quando o assunto envolve levar uma pessoa idosa junto, surgem mil dúvidas, principalmente se esse idoso tiver Alzheimer ou outra demência? Será que é seguro? Será que vai ser relaxante ou um transtorno?
Para você, profissional ou familiar que cuida, preparamos este guia direto ao ponto.

A Regra de Ouro: Diferenciando a Capacidade de Adaptação
Antes de fazer as malas, precisamos entender quem é o nosso passageiro. A capacidade de adaptação a novos ambientes é o divisor de águas aqui.
Quando falamos de pessoas idosas em fase inicial de Alzheimer ou outras demências, sua capacidade de decisão está preservada, portanto, esta pessoa deve ser consultada e, se possível, sua vontade respeitada.
Claro que a decisão desta pessoa pode impactar nos planos de viagem da família, caso ela não queira acompanhá-los. Apresente a ela as vantagens da viagem e transmita-lhe segurança. Não querer viajar pode ser por medo e insegurança, uma vez que ela mesma percebe suas falhas de memória e de comportamento e ela acaba preferindo ficar em casa, por se sentir mais segura (mas talvez ela não vai te dizer isso, aliás, ela pode nem saber expressar o motivo de não querer ir e você não deve ficar insistindo). Se for possível, tente buscar uma rede de apoio, que possa dar o suporte que esta pessoa idosa precisará durante os dias da viagem da família
O Idoso com Demência: Foco na Rotina e na Segurança
Idosos com Alzheimer ou outras demências, em fase intermediária, perdem a capacidade de compreender novos ambientes.
• Ameaça: Para quem tem demência, o ambiente desconhecido gera medo e insegurança. Eles podem não reconhecer onde estão, o que aumenta o risco de agitação e a vontade de “ir para casa”,.
• Segurança: A rotina é o porto seguro. Quebrar a rotina bruscamente pode desencadear comportamentos difíceis.

Planejamento: O Segredo do Sucesso
Para que a viagem não vire um pesadelo, o planejamento precisa ser cirúrgico:
Em fases não tão iniciais, o diálogo lógico não funciona. Você não deve perguntar “você quer viajar?”, pois a capacidade de julgamento está comprometida. Se for mesmo necessário que esta pessoa idosa faça a viagem, o segredo é você se preparar para possíveis alterações de comportamento que podem acontecer.
Não fique fazendo planos e dizendo da viagem com tanta antecedência porque isso gera gatilho de agitação e ansiedade. Deixe para comunicar o mais próximo possível e lembre-se, tem possibilidade deste idoso dizer que não estava sabendo de nada porque você não comunicou. Calma! Ele só não lembra, e está tudo bem! Diga que você decidiu recentemente e está avisando agora.
• Avaliação Médica: Consultas recentes são essenciais para descartar infecções ou desequilíbrios que possam piorar o comportamento fora de casa. Converse com o médico que acompanha e certifique-se que está tudo certo com a saúde e esta pessoa pode viajar.
• Manutenção da Rotina: Mesmo viajando, tente manter os horários de sono, alimentação e banho idênticos aos de casa. A rotina traz segurança e acalma o cérebro que não processa bem novidades. Estudos destacam que intervenções não farmacológicas, como a manutenção da rotina e do ambiente calmo, são fundamentais para o gerenciamento de sintomas comportamentais e redução do estresse do cuidador (Ferretti, 2022),.

Durante a Viagem: Gerenciando Comportamentos
Você saiu de casa, e agora? O ambiente mudou, e as reações podem surgir.
Lidando com a Confusão e Agitação
É comum que, ao chegar em um hotel ou casa de praia, e até em casa de familiares que sejam bem conhecidos desta pessoa idosa, ela não reconheça o lugar, as pessoas e peça para ir embora.
• Não confronte: Jamais diga “mas nós acabamos de chegar” ou “olha como aqui é bonito”. Isso gera mais estresse.
• Valide e Distraia: Concorde com a emoção (“eu sei que você quer ir para casa”) e mude o foco imediatamente. Use a técnica da distração: ofereça um alimento, coloque uma música que ele gostava no passado ou chame para uma caminhada.
• Síndrome do Pôr do Sol: No final da tarde, a agitação pode piorar. Evite planejar atividades intensas para esse horário. Reduza o barulho e a iluminação excessiva,.
Necessidades Básicas são Gatilhos
Muitas vezes, a irritação no carro ou no avião não é “teimosia”. A pessoa com demência pode não conseguir verbalizar que está com dor, fome, sede ou vontade de ir ao banheiro e até mesmo com medo e insegura.
• Investigação: Antes de se estressar, cheque: Fome? Sede? Fralda suja? Dor?
• Prevenção: Ofereça água regularmente e faça paradas programadas para o banheiro, pois a incontinência ou a constipação podem causar alterações bruscas de comportamento,.

Checklist de Segurança e Bem-Estar
Para garantir que tudo corra bem, utilize este checklist rápido:
1. Identificação: O idoso deve portar identificação o tempo todo, especialmente em locais movimentados.
2. Prevenção de Quedas: Leve sapatos adequados (antiderrapantes) e verifique a segurança do local de hospedagem (tapetes, iluminação),.
3. Música e Memória: Prepare uma playlist com músicas antigas que o idoso gostava. A música é uma ferramenta poderosa para acalmar e conectar, acessando memórias preservadas.
4. Objeto de Apego: Se o idoso faz uso da terapia da boneca ou tem algum objeto de apego, leve-o! Isso transmite segurança e utilidade.

Conclusão: Viajar ou Não Viajar?
Depende do estágio.
• Fase Inicial: Geralmente é possível, com supervisão.
• Fase Intermediária: Avalie com cuidado. Se a quebra da rotina e o ambiente novo causarem mais terror e agitação do que prazer, talvez o melhor cuidado seja mantê-lo em seu ambiente seguro. Lembre-se: o bem-estar do idoso (e o seu) vem em primeiro lugar.
• Fase Avançada: Nesta fase a viagem não é recomendada. Quanto mais sereno for o ambiente e mais dentro do seu habitual melhor é a condição de saúde clínica e comportamental desta pessoa idosa.
Para construir as referências bibliográficas do guia de viagem para pessoas idosas com demência, seguindo as normas da ABNT (NBR 6023), foram selecionadas obras fundamentais que embasam cientificamente as recomendações de manejo comportamental, segurança e manutenção de rotina citadas no texto.
Aqui estão as referências bibliográficas estruturadas:
Referências:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: attitudes to dementia. London: ADI, 2019. Disponível em: https://www.alzint.org/resource/world-alzheimer-report-2019/. Acesso em: 16 jan. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
FERRETTI, C. Intervenções não farmacológicas em idosos com demência. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 2480-2495.
FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório Mundial sobre o Idadismo: resumo executivo. Genebra: OMS, 2021.
PERRACINI, M. R.; FLÓ, C. M. Funcionalidade e Envelhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Step safely: strategies for preventing and managing falls across the life-course. Geneva: WHO, 2021.