Você já ouviu alguém dizer que “perder urina faz parte da idade”? Pois saiba que essa é uma das maiores mentiras sobre o envelhecimento. Embora a incontinência urinária (IU) atinja milhões de pessoas idosas, especialmente as mulheres, ela nunca deve ser vista como normal.
A perda involuntária de urina prejudica gravemente a qualidade de vida, gera isolamento social e, o que é mais perigoso, aumenta em mais de uma vez o risco de quedas e fraturas.
Algumas pessoas se sentem muito envergonhadas e preferem não falar do assunto, o que gera ainda mais transtornos, afinal, o tratamento acaba sendo negligenciado.
Se você percebe que a pessoa idosa apresenta algum tipo de incontinência urinária, o seu jeito de abordar o assunto, com delicadeza, discrição e sigilo, farão toda a diferença para que ela se sinta acolhida, compreendida e aceite a possibilidade do tratamento.
Para ajudar você a enfrentar esse desafio com leveza e técnica, preparamos 5 passos essenciais para gerenciar a incontinência no dia a dia.
1. Identifique o Tipo de Incontinência
Nem toda perda de urina é igual. Conhecer o tipo de IU ajuda a definir a melhor estratégia:

• Incontinência de Esforço: A urina escapa ao tossir, rir ou levantar peso.
• Incontinência de Urgência: É aquele desejo súbito e incontrolável de urinar.
• Incontinência por Hiperfluxo: A bexiga não esvazia totalmente e acaba “transbordando” aos poucos.
• Incontinência Funcional: O idoso tem a bexiga saudável, mas não consegue chegar ao banheiro a tempo por problemas de mobilidade ou memória.
2. Jamais Restrinja Líquidos!
Muitas famílias cometem o erro de dar menos água ao idoso para “evitar o escape”. Cuidado: isso é perigoso. Beber pouca água aumenta o risco de desidratação, infecção urinária (ITU), constipação e até confusão mental aguda (delirium).
• Dica: Ofereça entre 1,6 a 2 litros de líquidos por dia.
• Atenção: Reduza o café e chás pretos (cafeína) e o álcool, pois eles irritam a bexiga e aumentam a urgência.
3. Fortaleça e Treine a Bexiga
O tratamento conservador funciona e pode atingir até 60% de cura ou melhora.
• Treinamento Muscular: Exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico (fisioterapia pélvica) são a “estrela” do tratamento para IU de esforço e urgência. Os resultados da Fisioterapia Pélvica são surpreendentes!
• Diário Miccional: Anote por 2 ou 3 dias os horários que o idoso bebe água e quando urina. Isso ajuda o médico a entender o padrão da doença e direciona o idoso e o cuidador quanto ao tempo de ir ao banheiro.

4. Adapte o Ambiente para a Segurança
• Acesso Livre: Retire tapetes e obstáculos no caminho até o banheiro.
• Iluminação: Mantenha o trajeto bem iluminado, especialmente à noite.
• Tecnologia Assistiva: Instale barras de apoio e use elevadores de assento sanitário para facilitar o ato de sentar e levantar.
5. Escolha o Produto de Absorção Correto
Se o tratamento não for possível ou suficiente, o uso de fraldas ou absorventes devolve a liberdade social ao idoso.
• Regra das 3 Horas: Troque o produto a cada 3 horas ou sempre que houver eliminação de urina/fezes para evitar a Dermatite Associada à Incontinência (DAI).
• Higiene Íntima: Limpe sempre de frente para trás para evitar infecções e use barreiras cutâneas (cremes de zinco) se a pele estiver vermelha [1149, 13.5.7].

Diferenciando o Cuidado: Lucidez vs. Demência
A forma como você comunica a necessidade de cuidado faz toda a diferença na aceitação do idoso.
Idosos Lúcidos: Foco na Autonomia
• Diálogo Franco: Explique que a perda de urina não é normal e que existem tratamentos para que ele não precise se isolar.
• Poder de Escolha: Nunca imponha o uso de fraldas. Negocie o uso de absorventes mais discretos (“cuecas” ou “calcinhas” absorventes) para saídas e eventos sociais.
Idosos com Demência (Alzheimer): Foco na Rotina
• Esvaziamento Programado (Prompted Voiding): Não espere ele pedir. Leve o idoso ao banheiro a cada 2 horas, de forma calma e sem pressa; ou conforme você tenha observado a frequência urinária fazendo o diário miccional citado acima.
• Comandos Simples: Use frases curtas como “Vamos ao banheiro agora” em vez de explicações longas.
• A Regra do NÃO: NÃO discuta ou repreenda se houver um “acidente”. Isso gera agitação e agressividade. Valide o sentimento dele e mude o foco de atenção.
Referências:
Organização Mundial da Saúde (OMS)
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024..
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Tradução da Organização Pan-Americana da Saúde. Washington, DC: OPAS, 2021..
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Década do Envelhecimento Saudável: Relatório de Linha de Base. Resumo. Tradução da Organização Pan-Americana da Saúde. Washington, DC: OPAS, 2022..
Ministério da Saúde (Brasil)
- BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018..
- BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento de Instituição de Longa Permanência para Idosos, de caráter residencial. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 31 maio 2021..
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
- FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (Org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022..
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (atualizada até 2022). Rio de Janeiro: SBGG, 2023..
Alzheimer’s Disease International / Relatório Mundial de Alzheimer
- ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2019: Attitudes to dementia. London: ADI, 2019. (Nota: Embora o relatório específico não esteja integralmente nos arquivos, o Tratado de Geriatria 2022 e as diretrizes da OMS/ICOPE citam dados de prevalência e impacto global contidos nestes relatórios ).
Artigos Científicos e Outras Fontes Recentes (Últimos 2-3 anos)
- ALEXANDRE, Tiago da Silva. O papel da atividade física no tratamento da fragilidade. In: FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022..
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- PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Cláudia Maria. Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa. In: PERRACINI, M. R.; FLÓ, C. M. (Org.). Funcionalidade e Envelhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019..
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