Olá, cuidadores e familiares! É muito bom estar de volta para mais um papo descomplicado sobre um tema que gera muitas dúvidas. Ouvimos muito a frase: “Isso é normal da idade!” É um clichê, mas nem sempre reflete a realidade.
Hoje, vamos desvendar o que realmente faz parte do envelhecimento natural e quando é hora de ligar o sinal de alerta e procurar ajuda profissional. Saber essa diferença é crucial para garantir a saúde e a qualidade de vida do idoso, seja ele lúcido ou com alguma demência.
O envelhecimento é um processo natural e complexo. Nosso corpo e mente passam por adaptações, e algumas mudanças são esperadas. O desafio é saber distinguir o que é comum do que indica um problema de saúde que precisa de atenção.
Vamos direto ao ponto:
1. Mudanças na memória: os lapsos normais x sinais de alerta
- O que é normal da idade?
- Esquecer nomes ou palavras de vez em quando: Sabe aquela hora que a palavra “foge” da cabeça, mas depois você lembra? Ou quando esquece onde colocou as chaves, mas as encontra logo? Isso é comum. O cérebro, com a idade, pode levar um pouco mais de tempo para recuperar informações, mas a informação está lá.
- Demorar mais para aprender algo novo: É normal que idosos precisem de mais repetições e mais tempo para absorver novas informações ou habilidades complexas.
- Pesquisas, como as citadas pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, indicam que pequenas falhas de memória episódica (eventos recentes) e uma ligeira diminuição na velocidade de processamento são parte do envelhecimento cognitivo normal.
- Quando ligar o alerta e dar uma atenção especial?
- Esquecimentos que afetam a vida diária: Não lembrar como usar objetos conhecidos (como o controle da TV), esquecer o caminho para casa, repetir a mesma pergunta várias vezes em pouco tempo, ou ter dificuldade para realizar tarefas rotineiras que antes eram simples (como pagar contas).
- Perder-se em lugares familiares: Não conseguir reconhecer o próprio bairro ou a própria casa.
- Dificuldade para seguir uma conversa: Não conseguir acompanhar o raciocínio ou se perder no meio de uma frase.
- Mudanças no humor ou personalidade: Irritabilidade excessiva, apatia ou comportamentos incomuns que não faziam parte da pessoa.
- Esses são sinais que podem indicar condições de déficit cognitivo mais sérios. Estudos como os da Alzheimer’s Association enfatizam que a persistência e a progressão desses sintomas são cruciais para o diagnóstico diferencial.
2. Mudanças físicas: declínio natural x necessidade de intervenção
- O que é normal da idade?
- Diminuição da força muscular e flexibilidade: É comum sentir uma perda de força e um pouco mais de rigidez nas articulações. Isso faz parte do processo natural de sarcopenia (perda de massa muscular) e alterações articulares.
- Redução da velocidade e agilidade: A pessoa pode andar um pouco mais devagar e ter reflexos mais lentos.
- Pequenas dificuldades visuais ou auditivas: Uma leve perda de visão ou audição é frequente, mas geralmente pode ser corrigida com óculos ou aparelhos auditivos.
- Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento saudável envolve uma série de adaptações fisiológicas. A manutenção de uma vida ativa, no entanto, pode atenuar muitos desses efeitos.
- Quando ligar o alerta e dar uma atenção especial?
- Quedas frequentes: Mais de uma queda em um curto período ou quedas sem causa aparente são um sinal vermelho. Podem indicar problemas de equilíbrio, fraqueza severa, ou até mesmo condições cardíacas, quadros infecciosos ou até desidratação
- Dificuldade extrema para realizar tarefas básicas: Não conseguir se vestir, tomar banho ou ir ao banheiro sozinho devido à fraqueza ou dor intensa.
- Perda de peso inexplicável: Uma perda significativa de peso sem dieta ou doença aparente.
- Incontinência urinária ou fecal que não existia: Um problema persistente que afeta a qualidade de vida.
- Essas alterações podem ser indicativos de doenças crônicas não diagnosticadas, problemas neurológicos, nutricionais ou necessidade de intervenção fisioterapêutica, como aponta a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

3. Mudanças emocionais e comportamentais: tristeza comum x depressão/demência
- O que é normal da idade?
- Sentir tristeza ou melancolia ocasional: É normal sentir-se um pouco triste em momentos de perdas ou desafios, mas essa tristeza é passageira e a pessoa consegue reagir e se alegrar.
- Maior seletividade social: A pessoa pode preferir ficar mais em casa ou interagir com um círculo menor de pessoas, mas ainda mantém contato social.
- O processo de envelhecimento pode trazer reflexões sobre a vida e perdas (de amigos, autonomia), gerando emoções diversas. Entretanto, a capacidade de resiliência é geralmente mantida em idosos lúcidos.
- Quando ligar o alerta e dar uma atenção especial?
- Tristeza profunda e persistente: Apatia, perda de interesse em atividades que antes gostava, choro frequente, isolamento extremo. Estes são sinais claros de depressão no idoso, uma condição clínica que precisa de tratamento.
- Agitação, agressividade, delírios ou alucinações: Comportamentos que surgem de repente e não eram característicos da pessoa, seja em idosos com demência ou não. Podem indicar progressão da doença que este idoso já tem ou outras causas médicas.
- Perda de higiene pessoal ou autocuidado: Deixar de se alimentar, de tomar banho ou de cuidar da aparência sem motivo aparente.
- A presença de sintomas psiquiátricos em idosos, especialmente aqueles de início súbito ou progressivo, deve ser investigada. A literatura científica, incluindo estudos em Gerontopsiquiatria, mostra que a depressão é comum e tratável, enquanto alterações comportamentais podem ser manifestações de quadros demenciais.
A diferença crucial: idoso lúcido vs. idoso com demência
É fundamental reforçar que a interpretação desses sinais muda drasticamente dependendo se o idoso é lúcido ou apresenta algum quadro de demência:
- Para o Idoso Lúcido: As mudanças sutis que fogem do “normal da idade” são preocupantes porque podem indicar o início de uma doença tratável, uma condição que pode ser revertida ou controlada, mas pode indicar início de algum comprometimento cognitivo progressivo. A detecção precoce é chave para manter a autonomia e a qualidade de vida. O maior problema é acharmos que, porque essa pessoa é lúcida, julgamos aquele comportamento como “birra” ou “para chamar atenção”, isso quando não dizemos que ela está fazendo “de propósito” e acabamos negligenciando um cuidado muito importante na fase inicial da doença que porventura essa pessoa esteja desenvolvendo.
- Para o Idoso com Alzheimer ou Outras Demências: Muitas das alterações que citamos como “sinais de alerta” (como os esquecimentos que afetam a vida diária, as alterações de comportamento e a perda de habilidades) já são parte da progressão da doença. Nesses casos, o “alerta” se volta para a necessidade de ajustes no plano de cuidados, intervenções para manejar os sintomas e garantir o conforto e a segurança do idoso. A identificação de um novo sintoma, mesmo na demência, pode indicar uma complicação ou outra condição médica associada.
Dica de Ouro para Cuidadores:

Confie no seu instinto! Você, que convive diariamente com o idoso, é a pessoa que melhor conhece os padrões de comportamento dele. Se algo te parece estranho, diferente do habitual, ou se você sente que “tem algo errado”, não hesite. Procure um médico geriatra, neurologista ou outro profissional de saúde. Uma avaliação completa pode trazer tranquilidade e, se for o caso, um diagnóstico precoce que faz toda a diferença.
Mediante qualquer alteração de comportamento se pergunte: “Isso acontece com todo mundo?” Se a resposta for sim significa que é da idade; mas, se acontece com alguns (ou com muitos), mas não acontece com todos, então não é normal da idade e precisa ser investigado.
Não se deixe levar pelo “é normal da idade”. Sua observação é um superpoder!
Referências:
Organização Mundial da Saúde (OMS)
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Década do envelhecimento saudável: relatório de linha de base: resumo. Genebra: OMS, 2020. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/332071. Acesso em: 16 jan. 2026.
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