Cuidar de alguém que amamos é um ato de carinho e dedicação. E quando esse alguém é um idoso com Alzheimer ou outras demências, a jornada, embora recompensadora, traz consigo desafios únicos. Um dos mais comuns e, por vezes, exaustivos, é lidar com a repetição de falas. Aquela pergunta que se repete a cada cinco minutos, a mesma história contada incessantemente. Se você já se pegou pensando “Minha mãe pergunta a mesma coisa sem parar”, saiba que você não está sozinho.
Falas repetidas: quando é normal e quando é demência?
Antes de tudo, vamos deixar algo bem claro: idosos lúcidos também podem repetir falas. Às vezes, por esquecimento pontual, por estarem muito ansiosos ou preocupados com algo, ou simplesmente por gostarem de compartilhar uma história. Nesses casos, uma lembrança gentil ou a repetição da resposta costuma ser suficiente.
No entanto, quando falamos de idosos com demência, o cenário muda. A repetição de falas (ou “looping de repetição”) é um sintoma comum da doença, resultado das alterações cerebrais que afetam a memória, a capacidade de reter informações e a compreensão. Para eles, a pergunta ou a história é genuinamente “nova” a cada vez que é dita, ou está ligada a uma necessidade ou emoção que não conseguem expressar de outra forma.
Por que o idoso com demência repete tanto?
- Dificuldade de memória: Eles esquecem que já fizeram a pergunta ou que já ouviram a resposta.
- Ansiedade e insegurança: A repetição pode ser uma forma de buscar segurança, atenção ou confirmação.
- Tédio ou falta de estímulo: A mente busca algo para se ocupar.
- Necessidade não expressa: A pergunta repetida pode esconder uma necessidade não expressa como: ir ao banheiro, sentir fome, dor ou estar desconfortável.
- Dificuldade de processamento: Pode ser difícil para eles entenderem e fixarem a informação.

Como tirar o idoso com demência do Looping de repetição?
Lidar com a repetição de falas em idosos com demência exige paciência, criatividade e, acima de tudo, muita empatia. A chave é validar o sentimento, não necessariamente o fato, e desviar a atenção. Aqui estão algumas estratégias que podem ajudar a aliviar o looping de falas repetidas.
Dicas práticas para cuidadores:
- Responda com calma e paciência: A pior coisa é mostrar irritação. Mantenha a voz suave e a expressão facial tranquila. Responda à pergunta como se fosse a primeira vez.
- Valide o sentimento: Se a pergunta é “Quando o fulano vai chegar?”, você pode responder: “Entendo que você esteja ansioso para vê-lo.” Isso reconhece a emoção por trás da pergunta.
- Desvie a atenção: Esta é uma das ferramentas mais poderosas. Se a pergunta se repete, tente mudar o foco.
- “Acabei de fazer um café para nós”
- “Pai, outro dia encontrei a fulana…” (comece a contar uma história diferente)
- “Me ajude a…” (peça algo que a pessoa goste da fazer e se sinta útil)
- “Mãe, escuta essa música!” (coloque músicas antigas que ela gostava)
- Crie um ambiente acolhedor e estimulante: Um ambiente monótono ou estressante pode aumentar a repetição. Ofereça atividades que o idoso goste e que possam preencher o tempo de forma significativa, como:
- Folhear álbuns de fotos.
- Ouvir músicas tranquilas.
- Caminhadas curtas (se possível).
- Tarefas simples que ele ainda consegue realizar, como dobrar toalhas, secar louça, alimentar o Pet, etc.
- Use lembretes visuais ou táteis: Se a pergunta é sobre um evento, você pode criar um calendário grande e marcar o dia.
- Investigue a necessidade oculta: A repetição pode ser um sinal de que algo está errado. O idoso pode estar com dor, com fome, com sede, precisando ir ao banheiro ou se sentindo sozinho. Verifique essas possibilidades.
- Evite confrontos: Dizer “Você já perguntou isso!” ou “Eu já te respondi!” só vai gerar frustração e agitação. Sempre que você distrair a atenção do idoso, ele ficará um tempo sem repetir a fala, porém, logo ele volta e você deve aplicar a mesma estratégia novamente. Não é que o que você está fazendo não esteja funcionando, é que ele esquece que já falou e fala novamente, por isso você deve acolher mais uma vez o que ele fala e distraí-lo de novo.
- Mantenha uma rotina: A previsibilidade ajuda a diminuir a ansiedade e a confusão, o que pode reduzir a necessidade de repetições.
- Peça ajuda profissional: Se a repetição é muito intensa e está causando grande sofrimento ao idoso ou exaustão ao cuidador, converse com os profissionais de saúde que acompanham o idoso (médico, psicólogo, terapeuta ocupacional). Eles podem oferecer novas estratégias ou ajustar o plano de cuidados.

A importância do amor e da paciência
Lidar com o looping de falas repetidas é um dos maiores desafios do cuidado com idosos com demência. Mas lembre-se: a repetição não é um “proposital” ou “birra”. É um sintoma de uma doença que afeta a capacidade do idoso de se comunicar e processar informações.
Sua paciência, seu amor e sua capacidade de se adaptar são as ferramentas mais importantes que você possui. Ao invés de focar na “mentira”, foque na verdade compassiva e no bem-estar da pessoa que você cuida. Você está fazendo um trabalho incrível!
Referências:
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Ministério da Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 15 jan. 2026.
Alzheimer’s Disease International (ADI) PRINCE, M. et al. World Alzheimer Report 2015: the global impact of dementia: an analysis of prevalence, incidence, cost & trends. London: Alzheimer’s Disease International, 2015.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
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Artigos Científicos e Capítulos Específicos (Últimos 2-3 anos) MACHADO, João Carlos Barbosa. Doença de Alzheimer. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 219-223.
TOLEDO, Maria Alice de Vilhena; BORGES, Saulo Queiroz; TAVARES JUNIOR, Almir Ribeiro. Sintomas psicológicos e comportamentais nas demências. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 223-227.
DUARTE, Yeda Aparecida de Oliveira; D’ELBOUX, Maria José. Cuidadores de idosos. In: FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 256-261.
Relatórios de Organizações Internacionais (Recentes) ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo: resumo executivo. Washington, D.C.: OPAS, 2021.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Década do envelhecimento saudável: relatório de linha de base. Washington, D.C.: OPAS, 2022.
Respostas de 2
Quando a cuidadora é a filha e envolve o emocional, não reconhecendo mais a mãe na pessoa com demência, e isso adoece também a filha, o que fazer? Por maior que seja o amor envolvido, normalmente nesses casos os filhos podem também serem idosos…
E essencial buscar ajuda, se necessário, até mesmo de profissionais, médico ou psicólogo, que possa orientar melhor sobre como lidar com a fadiga e o cansaço físico, mental e emocional.