Você sabia que a música pode ser uma ferramenta incrível para idosos com Alzheimer e outras demências? Sim, essa arte universal, que nos acompanha desde sempre, tem um poder surpreendente de estimular o cérebro, resgatar memórias e até melhorar o humor. E o melhor: é um tratamento simples, eficaz e gratuito que você pode começar hoje mesmo!
Como profissionais da saúde e familiares cuidadores, sabemos que cada dia pode trazer seus desafios. Mas também sabemos que a alegria e o bem-estar dos nossos idosos são prioridades. Por isso, prepare-se para descobrir como a música pode transformar a rotina de quem você cuida.
Música e o Cérebro: Uma Conexão Poderosa
Você já reparou como uma música antiga pode te transportar para outro tempo e lugar? Isso não é magia, é ciência! A música ativa diversas áreas do cérebro, incluindo aquelas ligadas à emoção, memória e movimento. Para idosos com demência, mesmo quando outras funções cognitivas estão comprometidas, a capacidade de responder à música muitas vezes permanece intacta.
Benefícios da Música para Idosos com Alzheimer ou outras Demências:
- Resgate de Memórias: Sabe aquela canção que marcou a juventude do seu familiar? Ela pode ser uma chave para acessar lembranças há muito tempo guardadas. A música é um poderoso gatilho de memória afetiva.
- Melhora do Humor: Músicas alegres e familiares podem diminuir a ansiedade, a agitação e a depressão, trazendo um senso de calma e bem-estar.
- Estímulo Cognitivo: Cantar, batucar ou até mesmo tentar lembrar a letra de uma música ativa diferentes partes do cérebro, ajudando a manter a mente mais ativa.
- Interação Social: A música pode ser uma ótima forma de incentivar a interação, seja cantando junto, dançando ou simplesmente ouvindo em grupo. Isso combate o isolamento social.
- Redução de Sintomas Comportamentais: Em momentos de agitação ou confusão, uma melodia calmante pode ajudar a tranquilizar e reorientar o idoso.

Dicas Práticas para Usar a Música no Cuidado
Agora que você conhece os benefícios, vamos colocar a mão na massa! É super fácil integrar a música na rotina.
1. Conheça o Gosto Musical do Idoso:
- Para Idosos Lúcidos: Converse com eles! Pergunte quais são as músicas, artistas e estilos que eles mais gostam. Valorize suas preferências.
- Para Idosos com Demência: Observe suas reações. Músicas de sua juventude geralmente funcionam melhor. Preste atenção se eles sorriem, balançam a cabeça ou demonstram interesse.
2. Crie Playlists Personalizadas:
- Use plataformas como YouTube, Spotify ou simplesmente CDs antigos.
- Organize as músicas por gênero, época ou até mesmo por humor (músicas para relaxar, para animar, etc.).
3. Onde e Quando Usar a Música:
- Durante Atividades Diárias: Coloque uma música suave durante o banho, nas refeições ou na hora de dormir.
- Momentos de Relaxamento: Músicas instrumentais e calmas são ótimas para criar um ambiente tranquilo.
- Momentos de Agitação: Uma música familiar e reconfortante pode ajudar a acalmar o idoso.
- Para Estimular o Movimento: Músicas mais animadas podem incentivar uma pequena dança ou alongamento.
4. Interaja com a Música:
- Cante junto, mesmo que não seja um cantor profissional! A sua voz é familiar e reconfortante.
- Batam palmas, balancem os pés, dancem juntos. O importante é o movimento e a conexão.
- Para Idosos com Demência: Repita frases simples das músicas. Não se preocupe se eles não lembrarem as letras, o importante é a experiência.

Um Toque Especial: Diferenciando a Abordagem
É fundamental lembrar que cada pessoa é única, e a abordagem musical pode ser diferente para idosos lúcidos e aqueles que vivem com demência.
- Para Idosos Lúcidos: A música pode ser uma forma de relembrar histórias, compartilhar experiências e até aprender coisas novas. Incentivar a participação ativa, como tocar um instrumento simples ou ir a um show, é excelente. A conversa sobre a música é tão importante quanto a própria canção.
- Para Idosos com Demência: O foco está mais na experiência sensorial e emocional. Não espere que eles lembrem todas as letras ou conversem sobre a música como antes. Observe suas reações não-verbais – um sorriso, um olhar de reconhecimento, um movimento de balanço. A música se torna uma ponte para o afeto e a lembrança inconsciente. A consistência é fundamental para criar rotinas e associações positivas. Mas atenção: para estes idosos o som deve ser ambiente e sem outros barulhos simultâneos.
Referências:
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Artigos Científicos Selecionados (Bases PubMed, SciELO, etc.) JIHUI, L. et al. The effects of music therapy on cognitive functions and well-being in patients with Alzheimer’s disease. Aging & Mental Health, v. 22, n. 9, p. 1097-1106, 2018. MORENO-MORALES, C. et al. Music therapy in the treatment of dementia: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Medicine, v. 7, p. 160, 2020. SANTOS, S. S. Sexualidade e amor na velhice. Porto Alegre: Artmed, 2020. SILVA JÚNIOR, J. D. Memórias autobiográficas e música em idosos. Campinas: Átomo Alínea, 2018.