O Poder do Afeto: Como a Terapia da Boneca Ajuda no Cuidado do Alzheimer e Outras Demências

Cuidar de um familiar ou paciente com a doença de Alzheimer ou outra demência avançada é uma tarefa que exige muito amor, mas que também traz um grande desgaste emocional. Certamente, já se deparou com momentos em que o idoso se sente ansioso, agitado ou completamente desorientado. Nesses momentos, encontrar uma forma de acalmar o coração dele sem recorrer apenas a mais medicamentos é o grande objetivo de qualquer cuidador.

Uma das técnicas não farmacológicas que mais tem ganhado destaque e aprovação da ciência é a Terapia da Boneca (ou Doll Therapy). Embora possa parecer estranho à primeira vista ver um adulto a segurar um brinquedo, esta abordagem traz benefícios terapêuticos profundos.

Neste artigo, vamos explicar como esta terapia funciona, quais são os seus benefícios e, mais importante, como deve introduzir a boneca na rotina do idoso respeitando sempre a sua percepção da realidade.


A ciência por trás do abraço: por que a terapia funciona?

À medida que a demência avança, as capacidades de comunicação lógica diminuem, mas a necessidade de afeto, segurança e vinculação permanece intacta. A Terapia da Boneca baseia-se na necessidade humana intrínseca de cuidar e de se sentir seguro. Ao segurar uma boneca, o idoso ativa memórias emocionais profundas associadas à parentalidade e ao aconchego.

Um estudo de revisão sistemática publicado por Ng e colaboradores (2021) no Journal of Advanced Nursing (disponível na PubMed) comprovou que o uso terapêutico de bonecas em pessoas com demência reduz de forma significativa as alterações de comportamento, diminui o stresse e promove uma sensação geral de bem-estar. A nível cerebral, este contacto físico suave estimula a libertação de hormonas ligadas ao prazer e ao relaxamento, funcionando como um calmante natural.


Os principais benefícios da Terapia da Boneca

Quando aplicada de forma correta, esta estratégia sistemática transforma o ambiente de cuidados. Veja os principais impactos positivos observados:

  • Redução drástica da agitação e da ansiedade: O ato de embalar ou fazer festas na boneca canaliza a energia que antes se transformava em agressividade ou nervosismo.
  • Estímulo do sentimento de propósito: O idoso passa a sentir que tem uma missão importante no dia (mudar a roupa, cobrir o “bebé”, zelar pelo seu bem-estar), o que combate o tédio e a apatia.
  • Melhoria na aceitação dos cuidados diários: Muitas vezes, o idoso recusa-se a comer ou a tomar banho. Se o cuidador interagir através da boneca (ex: “Vamos dar o banho ao bebé e depois cuidamos de si?”), a resistência diminui.
  • Resgate da comunicação verbal: Idosos que comunicam pouco passam a conversar com a boneca, expressando sentimentos que estavam guardados.

O momento certo para introduzir a boneca

Nem todos os idosos com demência vão responder da mesma forma à terapia. O momento ideal para introduzir esta estratégia ocorre geralmente nas fases moderadas a avançadas da doença e pode ser aplicada esta terapia tanto para homens como para mulheres.

Fique atento aos sinais: se o idoso demonstra uma procura constante por objetos para segurar, mexe excessivamente nas roupas, deambula (anda de um lado para o outro sem rumo) ou expressa verbalmente a saudade dos filhos pequenos, este é o momento perfeito para testar a abordagem.

Como fazer a introdução corretamente (Passo a Passo)

A introdução da boneca deve ser feita de forma muito subtil e sem imposições. O cuidador nunca deve colocar a boneca diretamente nos braços do idoso, pois isso pode ser interpretado como uma ordem ou causar rejeição.

  1. Escolha a boneca ideal: Prefira bonecas que tenham um peso realista (semelhante ao de um recém-nascido), olhos que se fecham ao deitar e feições neutras ou felizes. Evite bonecas que chorem ou façam barulhos eletrónicos, pois podem assustar o idoso.
  2. Deixe a boneca no ambiente: Coloque a boneca sentada num sofá, numa cadeira ou numa mesa perto do idoso. Deixe que ele a veja e desperte a curiosidade por iniciativa própria.
  3. Observe a reação: Se o idoso se aproximar, pegar na boneca e começar a cuidar dela, a terapia começou com sucesso. Se ele a ignorar por completo, recolha o objeto com naturalidade e tente novamente passados alguns dias.

A oscilação da consciência: respeite o momento do idoso

Este é o ponto mais crucial de toda a terapia. O idoso com demência apresenta frequentemente flutuações no seu estado de consciência. Isto significa que, num determinado momento do dia, ele pode olhar para o objeto e dizer com total clareza: “Que boneca tão bonita, faz-me lembrar os brinquedos da minha infância”. Contudo, horas mais tarde, o mesmo idoso pode segurar a mesma boneca com força e exclamar preocupado: “O meu bebé está com frio, preciso de uma manta!”.

O que fazer nesses momentos? Absolutamente nada que contrarie o idoso!

O maior erro de um cuidador é tentar impor a realidade factual, dizendo coisas como: “Isto é apenas um brinquedo de plástico, o senhor já não tem filhos bebés”. Esse confronto quebra o vínculo de confiança, gera uma enorme angústia no idoso e pode desencadear crises de choro ou agressividade.

Como bem orienta o Tratado de Geriatria e Gerontologia (FREITAS; PY, 2022), o cuidador deve validar sempre a realidade em que o paciente se encontra. Se o idoso sabe que é uma boneca, elogie a beleza do brinquedo. Se ele acredita firmemente que é um bebé real, trate-o como tal. Pegue numa manta, ajude a agasalhar a boneca e diga: “Pronto, agora o bebé já está quentinho e seguro”. Respeitar esta oscilação de consciência demonstra empatia e poupa tanto o idoso como a família de desgastes desnecessários.


Conclusão

A Terapia da Boneca não se trata de “infantilizar” ou enganar o idoso, mas sim de encontrar uma ponte de comunicação através do afeto onde as palavras já falharam. Ao adotar esta prática de forma sistemática e respeitosa, estará a oferecer uma ferramenta de alívio e dignidade para quem convive com as limitações da demência.

Já conhecia esta técnica de cuidado? Alguma vez experimentou utilizar uma boneca ou um animal de peluche para acalmar o seu familiar ou paciente? Deixe o seu comentário aqui embaixo e partilhe a sua experiência com a nossa comunidade de cuidadores!


Palavras-chave

Terapia da boneca, doll therapy, doença de Alzheimer, idosos com demência, agitação no Alzheimer, terapias não farmacológicas, cuidador de idosos, manejo comportamental, validação emocional, stresse no cuidador.


Referências

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

MITCHELL, Gary et al. Doll therapy for people living with dementia: A clinical overview. Nursing Older People, v. 32, n. 2, p. 24-30, 2020. Disponível em: PubMed. Acesso em: 4 jul. 2026.

NG, Q. X. et al. A systematic review of the effectiveness of doll therapy for people living with dementia. Journal of Advanced Nursing, v. 77, n. 8, p. 3301-3312, 2021. Disponível em: PubMed/BVS. Acesso em: 4 jul. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Diretrizes sobre suporte e cuidados nas demências. Genebra: OMS, 2023. Disponível em: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Acesso em: 4 jul. 2026.

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