O que fazer quando o idoso diz não para tudo?

Seja você cuidador familiar ou profissional, sabemos que a jornada de cuidado com idosos, especialmente aqueles com Alzheimer ou outra demência, pode ser desafiadora. Uma das situações que mais geram desgaste é quando o idoso parece dizer “não” para tudo ou resiste a atividades básicas, como tomar banho.

Pode parecer teimosia, e em alguns casos de idosos lúcidos até pode haver um componente de escolha consciente, mas a realidade costuma ser bem mais complexa. É fundamental entender o que está por trás desse “não” para aplicar a melhor estratégia.

Vamos explorar juntos o que fazer nessas horas, diferenciando a abordagem para idosos lúcidos e aqueles com quadros de demência.

Entendendo o “Não”: Lúcido X Demência

O comportamento de dizer “não” ou resistir pode ter origens muito diferentes dependendo da condição cognitiva do idoso.

  • Idoso Lúcido: Quando o idoso é lúcido, ele tem a capacidade de tomar as próprias decisões e pode ter motivos conscientes para a recusa. A teimosia, nesse caso, é vista como um comportamento de insistência em algo que ele acredita ser certo ou necessário. É a expressão da autonomia.
  • Idoso com Demência: Para o idoso com Alzheimer ou outras demências, a situação muda drasticamente. A capacidade de lucidez e de processar informações está comprometida. O que parece teimosia ou resistência em dizer “não” para tudo geralmente não é uma escolha consciente ou “birra”. Pode ser medo, confusão, insegurança (por não entender o que está acontecendo), dificuldade em expressar uma necessidade (como dor, fome, frio), ou simplesmente a falta de lembrança de que aquilo precisa ser feito ou já foi discutido. 

Com essa diferença em mente, as estratégias de abordagem também mudam.

Quando o Idoso Lúcido Diz “Não”: Diálogo e Respeito

Com um idoso lúcido que recusa algo ou insiste em um ponto, a chave é o diálogo e o respeito à sua autonomia.

  1. Converse Abertamente: Tente entender os motivos da recusa. Pergunte por que ele não quer fazer o que foi proposto. Ouça a perspectiva dele sem julgamentos.
  1. Explique a Importância: De forma clara e respeitosa, explique por que aquela atividade é importante (ex: higiene para a saúde).
  1. Apresente as Consequências: Mostre os riscos ou as consequências da escolha dele.
  1. Negocie e Seja Flexível: Esteja aberto a encontrar um meio-termo. Talvez um horário diferente, uma frequência adaptada ou uma forma alternativa de realizar a tarefa. Por exemplo, para o banho, pode ser banho completo dia sim, dia não, com higiene parcial nos outros dias.
  1. Valide os Sentimentos: Reconheça o desconforto, o medo ou a vergonha que ele possa sentir ao precisar de ajuda.
  1. Respeite a Autonomia (com Limites de Segurança): Se, após o diálogo e a apresentação das consequências, o idoso lúcido ainda recusar algo que não coloque sua vida ou a de outros em risco iminente (como dirigir sem condições), você precisa respeitar a decisão dele. É difícil, mas não podemos inverter papéis e nos tornarmos pais dos nossos pais.

Quando o Idoso com Demência Diz “Não”: Estratégias de Abordagem e Paciência

Lidar com o “não” de um idoso com demência exige uma abordagem diferente, focada em entender a doença, adaptar sua comunicação e usar estratégias de manejo.

  1. Mude a Sua Comunicação: A forma como você fala faz toda a diferença.

Seja Calmo, Claro e Simples: Use um tom de voz suave e tranquilo. Fale devagar com frases curtas e objetivas.

Esteja de Frente: Olhe nos olhos e fale de frente para ele. Isso facilita a leitura labial e transmite segurança.

Divida as Informações: Dê comandos verbais simples, um de cada vez. Espere ele executar um antes de dar o próximo. Dê tempo para ele processar o que você disse.

Use Comunicação Não Verbal: Um sorriso ou um toque gentil pode ajudar a acalmar e transmitir segurança.

  1. Evite Frases e Ações que Agitam: Certas abordagens pioram o comportamento.

Nunca Discuta ou Contrarie: Tentar trazer o idoso para a realidade lógica aumenta a agitação, ansiedade e nervosismo. Sempre concorde e mostre que você está “resolvendo” o problema que ele apresenta. 

  1. Ofereça Escolhas Limitadas: Dar sempre 02 opções simples, por exemplo, não pergunte se ele quer almoçar, mas dê a opção de escolher: “Quer batata ou cenoura?”. Isso pode devolver a sensação de controle sem sobrecarregar. 
  2. Estabeleça uma Rotina: A rotina traz segurança e previsibilidade, diminuindo a agitação causada pela confusão. Tente manter horários consistentes para acordar, comer, banho, atividades e dormir.
  1. Valide Sentimentos: Mesmo que a razão deste idoso seja ilógica, os sentimentos são reais para ele. Valide o que ele sente.
  1. Não dê ordens: Dizer ao idoso o que ele precisa fazer aumenta a chance dele negar o que você está pedindo. Exemplo: Ao invés de dizer pra fazer caminhada, convide-o para passear com o cachorro. 
  2. Seja Paciente: A pressa é inimiga do cuidado com idosos com demência. Tenha paciência com o processo. Se a resistência for extrema, recue e tente novamente mais tarde ou de outra forma. A insistência deixará tudo mais difícil.

Cuidando de Quem Cuida: Você Não Está Sozinho

Lidar com a recusa pode ser exaustivo e frustrante. Lembre-se que seu trabalho é incrivelmente valioso. Cuidar de si mesmo é essencial. Busque informação e conhecimento, converse com outros cuidadores, peça ajuda e reserve tempo para descanso. Você não precisa carregar esse peso sozinho.

Referências:

ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2023: Reduções de riscos e estratégias de cuidado. Londres: ADI, 2023.

BRASIL. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Brasília, DF: Presidência da República, [2022]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.528, de 19 de outubro de 2006. Aprova a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006.

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). ICOPE Integrated care for older people handbook: Guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Genebra: WHO, 2024.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde. Genebra: OMS, 2015. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/186463.

PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Christiane Machado. Funcionalidade e Envelhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA (SBGG). Choosing Wisely Brasil: 10 recomendações sobre o que não fazer na assistência à saúde do idoso. São Paulo: SBGG, 2019.

VIOLA, Luciane de Fátima Ortega. Intervenções psicológicas e manejo comportamental em idosos com demência. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

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