Com o passar dos anos, o corpo humano passa por transformações em diversos sistemas, e o padrão de descanso não é exceção. É muito comum ouvir idosos ou seus cuidadores e familiares se queixarem de que o sono “ficou ruim” ou “mais fraco”. No entanto, grande parte dessas alterações faz parte do processo fisiológico e natural do envelhecimento — a chamada senescência — e não significa necessariamente a presença de uma doença ou a necessidade imediata de medicamentos.
Compreender como a estrutura do sono muda ao longo do tempo é o primeiro passo para evitar diagnósticos precipitados e intervenções desnecessárias.
A evolução da arquitetura do sono ao longo da vida
Ao longo de toda a vida, a nossa arquitetura do sono — ou seja, a forma como as fases e ciclos do sono se estruturam durante a noite — passa por modificações contínuas.
Um recém-nascido, por exemplo, pode dormir até 16 horas por dia, com grande parte do tempo em estágios profundos e sono REM (fase em que ocorrem os sonhos mais intensos e o processamento da memória). Conforme avançamos para a infância, adolescência e vida adulta, a quantidade total de horas necessárias diminui gradualmente e a proporção entre os estágios leves e profundos se estabiliza.
O sono na pessoa 60+: o que é considerado normal?

Na população com 60 anos ou mais, o processo de senescência traz alterações bem características na fisiologia do descanso. Conhecer essas mudanças ajuda a alinhar as expectativas sobre o que é esperado para a faixa etária:
- Avanço da fase do sono: O relógio biológico tende a se adiantar. É perfeitamente normal a pessoa idosa sentir sono mais cedo no início da noite (por volta das 20h ou 21h) e, consequentemente, acordar bem cedo (por volta das 4h ou 5h da manhã).
- Redução do sono profundo: Há uma diminuição natural do tempo gasto nos estágios de sono profundo (N3) e no sono REM. O sono passa a ser predominantemente mais leve (estágios N1 e N2).
- Aumento dos despertares noturnos: Por ter um sono mais leve, o idoso desperta com maior facilidade diante de pequenos estímulos externos (ruídos, mudanças de temperatura, vontade de urinar) ou mudanças de posição.
- Ligeira redução na necessidade total de sono: Embora a variação seja individual, a necessidade de sono frequentemente se ajusta para cerca de 6 a 7 horas por noite, sem que isso cause prejuízo funcional durante o dia.
Dificuldade para dormir nem sempre é insônia (e nem tudo precisa de remédio)
Uma das maiores armadilhas no cuidado com a saúde da pessoa idosa é rotular qualquer alteração do padrão de descanso como “insônia”.
Muitas vezes, a queixa de que “a pessoa dorme mal” ocorre porque ela vai para a cama muito cedo sem estar com sono, ou porque espera dormir as mesmas 9 horas que dormia na juventude. Outras vezes, despertares para ir ao banheiro ou dores articulares pontuais fragmentam a noite, mas o problema raiz não é uma incapacidade primária de dormir.
O uso indiscriminado de sedativos e indutores do sono pode trazer riscos significativos na velhice, como:
- Maior risco de quedas e fraturas durante a noite;
- Sonolência e lentidão no dia seguinte;
- Prejuízo na memória e no raciocínio;
- Tolerância e dependência química.
Portanto, antes de recorrer aos medicamentos, é fundamental avaliar a rotina diária e os hábitos que cercam o momento de deitar.
O impacto dos cochilos diurnos fracionados

Um dos fatores que mais prejudicam a qualidade da noite de sono na pessoa idosa é o padrão de microcochilos ao longo do dia.
É comum que o idoso passe longos períodos sentado ou sem atividades estimulantes, acabando por “pescar” ou dar pequenas cochiladas de 10 a 15 minutos várias vezes ao dia (na poltrona, assistindo à televisão ou após as refeições).
O mecanismo do “Drive de Sono”:
Durante o tempo em que permanecemos acordados, o cérebro acumula uma substância chamada adenosina, que gera a chamada pressão de sono (a “fome” de dormir). Quando a pessoa idosa faz vários cochilos durante o dia, essa pressão é constantemente aliviada. Ao chegar à noite, o cérebro não acumulou a quantidade de pressão necessária para induzir e manter um sono contínuo, resultando em demora para pegar no sono ou em despertares prolongados no meio da noite.
Higiene do Sono: A primeira escolha no tratamento
A Higiene do Sono consiste em um conjunto de comportamentos, rotinas e adaptações ambientais projetados para promover o alinhamento com os ritmos biológicos naturais.
As diretrizes científicas e consensos de medicina do sono apontam a Higiene do Sono — frequentemente integrada à Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCCI) — como a primeira linha de escolha e a abordagem mais eficaz para melhorar a qualidade do sono a longo prazo, superando os medicamentos em segurança e sustentabilidade dos resultados.
Passos práticos para aplicar a Higiene do Sono
- Horários regulares: Deitar e, principalmente, levantar no mesmo horário todos os dias, inclusive nos fins de semana. O horário de acordar é o principal ancorador do relógio biológico.
- Exposição à luz natural pela manhã: Tomar sol ou ficar em ambientes bem iluminados logo cedo ajuda a sinalizar ao cérebro que o dia começou e regula a produção de melatonina para a noite seguinte.
- Restrição ou eliminação dos cochilos diurnos: Se o cochilo for indispensável, que seja um único período logo após o almoço, com duração máxima de 30 minutos, e nunca ao final da tarde.
- Manter o corpo ativo: Estimular a participação em atividades físicas leves a moderadas, caminhadas ou tarefas domésticas durante o dia, evitando o sedentarismo prolongado.
- Atenção à alimentação e bebidas: Evitar bebidas com cafeína (café, chás pretos/verdes, refrigerantes) após as 14h. Fazer refeições leves à noite para não sobrecarregar a digestão.
- Ambiente adequado: Manter o quarto escuro, silencioso, bem ventilado e com temperatura agradável.
- Ritual de desaceleração: Reduzir luzes fortes, televisão e telas 1 hora antes de ir para a cama. Criar uma rotina tranquila, como ouvir uma música suave ou tomar um banho morno.
- Ir para a cama apenas com sono: Se deitar e não conseguir dormir em cerca de 20 a 30 minutos, o ideal é levantar, ir para um ambiente calmo com luz fraca e fazer uma atividade tranquila até o sono surgir novamente, evitando associar a cama com frustração.

O valor de compreender o envelhecimento saudável
Ajustar as expectativas e adequar os hábitos diários permite enxergar o descanso na velhice sob uma perspectiva mais realista e humana. Ao valorizar a Higiene do Sono e respeitar as alterações naturais do organismo, é possível proporcionar noites mais tranquilas e dias mais dispostos, promovendo saúde e bem-estar sem dependência de intervenções desnecessárias.
Palavras-chave:
Sono no idoso; Senescência e sono; Arquitetura do sono; Higiene do sono; Cochilos diurnos; Insônia na velhice; Ritmo circadiano; Gerontologia.
Referências
- AMERICAN ACADEMY OF SLEEP MEDICINE (AASM). International Classification of Sleep Disorders. 3rd ed. Darien, IL: American Academy of Sleep Medicine, 2014.
- FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
- MORIN, Charles M. et al. Cognitive Behavioral Therapy for Insomnia in Older Adults: A Randomized Controlled Trial. JAMA, v. 282, n. 12, p. 1141-1146, 1999.
- PANDI-PERUMAL, S. R. et al. Sleep and Aging: A Clinical Guide to Sleep Disorders in Older Adults. New York: Springer, 2010.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE SONO (SBS). Consenso Brasileiro sobre Insônia. São Paulo: SBS, 2020.
