O Sono Nosso de Cada Dia: Como Melhorar as Suas Noites e as de Quem Você Cuida

Você já reparou no seu comportamento e o da pessoa idosa que você cuida quando a noite chega? Consegue deitar e adormecer rapidamente ou passa horas mudando de posição na cama? O impacto de uma noite mal dormida pode nos deixar mais cansados, irritados ou sem energia para as atividades do cotidiano.

Antigamente, as pessoas acreditavam que idoso precisava dormir pouco e que passar a noite em claro era “coisa da idade”. No entanto, a ciência moderna desmistificou essa ideia. Dormir bem é essencial em qualquer etapa da vida, especialmente no processo de envelhecimento ativo e saudável.

Nesta matéria, vamos conversar de forma simples e direta sobre o padrão de sono das pessoas idosas. Traremos dados estatísticos brasileiros recentes, os impactos do sono na saúde física e mental e, principalmente, dicas práticas de higiene do sono para você aplicar na sua rotina e na de quem você cuida com tanto carinho.


O Cenário no Brasil: O que Revelam os Dados do ELSI-Brasil?

Para compreendermos a dimensão desse desafio no nosso país, precisamos olhar para os dados científicos mais recentes. O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), uma pesquisa de grande relevância nacional coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), avaliou o sono de milhares de brasileiros com 60 anos ou mais.

Os resultados desse estudo nacional, publicados em 2023 pelas pesquisadoras Jaquelini Betta Canever, Núbia Carelli Pereira de Avelar e colaboradores, revelaram dados impressionantes que acendem um sinal de alerta para os cuidadores:

  • Queixas de Insônia: Impressionantes 58,6% das pessoas idosas sofrem com algum tipo de insônia.
  • Dificuldade para Iniciar e Manter o Sono: Cerca de 49,1% apresentam insônia inicial (dificuldade para adormecer) e 49,2% sofrem com insônia intermediária (dificuldade para permanecer dormindo).
  • Sonolência Diurna: Pelo menos 38,4% dos entrevistados relataram sentir muito cansaço e sono durante o dia.
  • Má Qualidade do Sono: Cerca de 15,6% avaliaram o seu próprio descanso como ruim ou muito ruim.

Além disso, em entrevista divulgada para veículos de comunicação, a Dra. Núbia Carelli explicou que ser do sexo feminino, ter duas ou mais doenças crônicas e apresentar uma autopercepção de saúde regular ou ruim são fatores fortemente associados a esses problemas de sono. Outra constatação interessante do grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi a influência do ambiente externo: idosos que vivem em vizinhanças com calçadas em mau estado, lixo nas ruas ou muito ruído de ônibus e carros têm chances significativamente maiores de relatar um descanso de má qualidade.


O Impacto do Sono na Saúde Física e Mental

Quando não conseguimos dormir o suficiente, o prejuízo vai muito além de bocejos no dia seguinte. O descanso inadequado afeta profundamente todo o funcionamento do organismo.

Saúde Física e o Risco de Acidentes

Durante o sono profundo, nosso corpo realiza a restauração física e regula os hormônios. A ausência desse descanso enfraquece o sistema imunológico e piora o controle de doenças crônicas como a hipertensão arterial e o diabetes melito. Além disso, a sonolência diurna diminui os reflexos e a atenção. Estudos associam diretamente os problemas de sono a um alto risco de quedas e fraturas, comprometendo gravemente a mobilidade e a independência funcional da pessoa idosa.

Saúde Mental e Sofrimento Psíquico

A fragmentação crônica do sono afeta o humor e a regulação emocional. Pessoas idosas que dormem mal apresentam maior incidência de sintomas depressivos, ansiedade e isolamento social. Do mesmo modo, a falta de um sono restaurador prejudica a saúde cerebral, afetando a memória, a concentração e a capacidade de tomar decisões no dia a dia.


Estratégias Práticas: Pequenas Mudanças Para Dormir Melhor?

Modificar pequenos hábitos e ajustar o ambiente do quarto são medidas eficazes e de baixo custo para melhorar o descanso. Essa prática é conhecida como higiene do sono. Veja este guia em tópicos com dicas simples para aplicar hoje mesmo:

  • Crie uma Rotina com Horários Fixos: Deitar e acordar sempre nos mesmos horários, inclusive nos finais de semana. Isso ajuda a regular o relógio biológico do corpo.
  • Controle as Sonecas Diurnas: Cochilos após o almoço são saudáveis, desde que sejam curtos (no máximo 20 a 30 minutos). Sonecas longas durante o dia “roubam” o sono da noite.
  • Cuidado com a Alimentação e Estimulantes: Refeições pesadas muito perto do horário de dormir. Além disso, restrinja o consumo de café, chá preto, refrigerantes ou chocolate após as 16h.
  • Ajuste o Ambiente do Quarto: O quarto deve ser um local silencioso, bem escuro e com temperatura agradável. Certifique-se de que a cama e os travesseiros sejam confortáveis e seguros.
  • Evite Telas Eletrônicas à Noite: Desligue a televisão, tablets ou celulares pelo menos uma hora antes de dormir. A luz azul desses aparelhos engana o cérebro, fazendo-o pensar que ainda é dia.
  • Estimule Atividades Físicas e Luz Solar: Tome um pouco de sol pela manhã e faça caminhadas ou exercícios leves ao longo do dia. O sedentarismo é um grande inimigo do descanso noturno.

O Cuidado Começa na Atenção Diária

Em resumo, zelar pela qualidade do sono é proteger a sua saúde física e a sua estabilidade emocional. Ao notar que as estratégias de higiene do sono não estão funcionando, ou que apresenta ronco excessivo e pausas na respiração, é o momento de buscar ajuda especializada com o médico.

A tomada de decisão clínica deve ser feita com cuidado, priorizando tratamentos não farmacológicos antes de recorrer a medicamentos indutores do sono, que podem aumentar o risco de confusão mental e quedas em idosos.

Cuidar de uma pessoa idosa exige muita dedicação e energia. Ao proteger as noites de sono de quem você cuida, você também garante um dia a dia mais tranquilo, harmonioso e seguro para você. Você faz um trabalho admirável. Continue firme nessa jornada de afeto!


Palavras-chave:

Sono na terceira idade, Problemas de sono em idosos, Estudo ELSI-Brasil, Insônia na velhice, Qualidade do sono do idoso, Dicas para cuidadores, Higiene do sono, Saúde mental do idoso, Envelhecimento saudável, Prevenção de quedas.


Referências

CANEVER, Jaquelini Betta; CÂNDIDO, Letícia Martins; MOREIRA, Bruno de Souza; DANIELEWICZ, Ana Lúcia; CIMAROSTI, Helena Iturvides; LIMA-COSTA, Maria Fernanda; AVELAR, Núbia Carelli Pereira de. Estudo nacional sobre queixas de sono e fatores associados em idosos: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 39, n. 10, e00083923, 2023. Disponível em: SciELO.

FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.

REZENDE, Fabíola de Oliveira et al. Qualidade do sono, depressão e ansiedade em idosos residentes na comunidade. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 25, n. 3, p. 145-156, 2022.

SUTIL, Daiana Vieira; MOREIRA, Bruno de Souza; CANEVER, Jaquelini Betta; CÂNDIDO, Letícia Martins; DANIELEWICZ, Ana Lúcia; LIMA-COSTA, Maria Fernanda; AVELAR, Núbia Carelli Pereira de. Associação entre autopercepção do ambiente da vizinhança e problemas de sono em idosos brasileiros: resultados do ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, e00124523, 2024. Disponível em: Cadernos de Saúde Pública (Fiocruz).

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Decade of Healthy Ageing 2020–2030. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: WHO.

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