É muito comum ouvirmos que esquecer as coisas faz parte do envelhecimento. No entanto, existe diferença entre as mudanças naturais do cérebro e os sinais de um quadro de demência. Nosso objetivo é trazer clareza para que sua jornada de cuidado seja baseada em conhecimento e segurança.
O envelhecimento saudável é um processo de manutenção da habilidade funcional e do bem-estar. Portanto, entender quando a memória pede socorro é o primeiro passo para garantir qualidade de vida ao idoso.
1. O que é normal no envelhecimento?
Com o passar dos anos, o cérebro sofre uma redução natural de volume e de conexões entre os neurônios. Por isso, é esperado que o idoso apresente um processamento de informações um pouco mais lento.
Esquecer o nome de um conhecido distante ou demorar para lembrar onde guardou os óculos, mas conseguir encontrá-los depois, geralmente não indica uma doença. Nessas situações, a inteligência cristalizada (conhecimento acumulado e vocabulário) costuma permanecer estável.
Este tipo de esquecimento não traz nenhum grande prejuízo à vida dessa pessoa idosa. Ela continua sendo capaz de manter sua autonomia e construir raciocínios lógicos de pensamento e diálogo, mesmo estando com o processamento das informações um pouco mais lento.

2. Sinais de Alerta: Quando o sinal amarelo acende
A perda de memória se torna preocupante quando começa a impactar as atividades de vida diária. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o declínio cognitivo deve ser investigado se houver prejuízo na autonomia.
Fique atento se o idoso apresentar estes comportamentos:
• Repetição excessiva: Fazer a mesma pergunta ou contar a mesma história várias vezes em poucos minutos.
• Desorientação no tempo e espaço: Confundir o dia da semana, o ano ou perder-se em caminhos que sempre fez.
• Dificuldade em tarefas simples: Atrapalhar-se para fazer coisas rotineiras, que sempre fez com muita facilidade e sem nenhum auxílio.
• Dificuldade em tarefas complexas: Deixar de conseguir gerenciar o próprio dinheiro, cuidar dos medicamentos ou outro tipo de tarefa que exija mais atenção e habilidades específicas.
• Mudanças de personalidade: Aparecimento súbito de irritabilidade, apatia ou desinteresse por hobbies.

3. A Diferença no Olhar
É fundamental diferenciar como o idoso percebe a própria falha de memória, pois a abordagem do cuidador deve mudar completamente.
Declínio Cognitivo Subjetivo
A própria pessoa percebe que sua memória está falhando, mas os testes formais de avaliação clínica, ainda podem dar resultados normais. As atividades rotineiras não são impactadas e as pessoas que convivem com este idoso não percebem nenhum tipo de alteração significativa.
• O que observar: O idoso reclama que “a cabeça está estranha” e demonstra sofrimento com os lapsos.
• Como agir: Não minimize a queixa. Incentive o uso de agendas, calendários e promova estimulação cognitiva, como aprender habilidades novas para fortalecer a reserva cerebral.
Fase Inicial da Demência
Aqui, muitas vezes ocorre a anosognosia, que é a falta de consciência da doença. Esta pessoa reconhece as falhas da sua memória, mas minimiza o problema usando frases do tipo: “sempre fui assim.” “Isso é da idade.”
O grande impacto está nas atividades rotineiras, que essa pessoa fazia sem ajuda e já começa se tornar desafiadora, chegando ao ponto de não conseguir executar.
• O que observar: O idoso nega que esqueceu, inventa desculpas ou acusa outras pessoas de terem escondido seus objetos. Ele perde a memória de curto prazo (o que acabou de acontecer), mas lembra com detalhes de fatos de 40 anos atrás.
• Como agir: Nunca discuta ou tente provar que ele está errado. Validar os sentimentos que essa pessoa apresenta é sempre o melhor caminho.

4. Outras Causas de Esquecimento
Nem todo esquecimento é devido a quadros demenciais. Existem outras condições que causam esquecimentos e confusões mentais que, quando tratadas, o quadro é reversível e a condição cognitiva é reestabelecida. Portanto, é importante investigar:
- Hipotireoidismo
- Baixa de Vitamina B12
- Transtornos Depressivos
- Transtorno de Ansiedade
- Quadros infecciosos
- Desidratação
- Medicamentos
Dicas Práticas para o Cuidador
1. Mantenha a Rotina: A previsibilidade dos horários reduz a ansiedade e a confusão mental do idoso.
2. Procure um Especialista: O diagnóstico de demência é clínico e deve ser feito por um neuropsicólogo, geriatra, neurologista ou psicogeriatra, através de testes de testes específicos.

Referências:
Organização Mundial da Saúde (OMS)
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2024.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on ageing and health. Geneva: World Health Organization, 2015.
Ministério da Saúde
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
- BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
Alzheimer’s Disease International
- ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2015: The Global Impact of Dementia: An analysis of prevalence, incidence, cost and trends. London: ADI, 2015.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
- FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
- REBELLATO, C.; GOMES, M. C. A.; CRENITTE, M. R. F. (org.). Introdução às velhices LGBTI+. Rio de Janeiro: SBGG-RJ, 2021.
Artigos Científicos e Outras Referências (Bases SciELO/PubMed/BVS)
- APRAHAMIAN, I.; BIELLA, M. M.; SIQUEIRA, A. S. S. Rastreio cognitivo em idosos. In: FREITAS, E. V.; PY, L. (org.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. p. 1340-1360.
- DENT, E. et al. The International Conference on Frailty and Sarcopenia Research (ICFSR) International Clinical Practice Guidelines for Identification and Management of Frailty. Journal of Nutrition, Health & Aging, v. 23, n. 9, p. 771-787, 2019.
- MONTERO-ODASSO, M. et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing, v. 51, n. 9, p. 1-36, 2022.
- PERRACINI, M. R.; FLÓ, C. M. Avaliação multidimensional da pessoa idosa. São Paulo: Editora Atheneu, 2019.