Quando falamos em saúde do idoso e envelhecimento ativo, a primeira coisa que vem à mente é: “Ele precisa se exercitar!” Mas você sabia que existe uma diferença importante entre Atividade Física e Exercício Físico?
Essa distinção não é apenas técnica; é vital para planejar o cuidado diário, especialmente quando a mobilidade ou a cognição do idoso já estão comprometidas. Entender a diferença ajuda você a otimizar o cuidado e a fazer com que todo esforço conte.
1. Atividade Física: O Movimento do Dia a Dia
O termo Atividade Física (A.F.) é amplo e engloba qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulte em gasto energético.
Pense assim: a A.F. é tudo aquilo que fazemos ao longo do dia, sem a necessidade de um plano estruturado de treino.
Exemplos Comuns de Atividade Física:
• Realizar tarefas domésticas, como varrer e lavar louça,
• Cuidar do jardim ou fazer jardinagem,
• Brincar com crianças,
• Caminhar até o supermercado ou a padaria,
• Passear com animais de estimação.
Afinal de contas, toda a Atividade Física é benéfica, e cada movimento conta para o bem-estar.

2. Exercício Físico: O Treino Planejado e Estruturado
Já o Exercício Físico (E.F.) é uma subcategoria da Atividade Física. No entanto, a principal diferença é que ele é planejado, estruturado e repetitivo, tendo como objetivo melhorar ou manter um ou mais componentes das capacidades físicas.
O E.F. é o que fazemos com a intenção clara de ganhar força muscular, equilíbrio ou condicionamento cardiorrespiratório.
Tipos de Exercício Físico Essenciais:
1. Exercício Aeróbico (Cardiovascular): Aumenta a frequência cardíaca e melhora o condicionamento cardiorrespiratório. (Ex: Caminhada em ritmo acelerado, natação, dança),
2. Exercício Resistido (Força): Usa pesos, elásticos ou o próprio peso corporal para ganhar massa muscular. (Ex: Musculação, Pilates, subir escadas,). É considerado a principal intervenção para prevenção e tratamento da fragilidade e sarcopenia.

3. O Ponto Crucial: Por Que o Exercício é Essencial para Pessoas Idosas?
Muitos cuidadores pensam apenas em evitar que o idoso caia, mas o exercício é a melhor estratégia de prevenção e manutenção da capacidade funcional, que garante mais independência às pessoas idosas.
Poupança de Músculo e Cérebro
O músculo é a maior poupança que podemos fazer para um envelhecimento saudável. Não adianta só pensar em guardar dinheiro; a poupança de músculo e cognição são fundamentais!.
• Prevenção Cognitiva: A prática regular de exercício físico está ligada a uma melhor saúde do cérebro, sendo que 60% dos casos de demência no Brasil poderiam ter sido evitados com medidas simples, incluindo atividade física. Quando ganhamos massa muscular, nosso corpo libera uma proteína que se conecta ao cérebro e aumenta as conexões cerebrais, protegendo contra o declínio cognitivo.
• Controle de Doenças: O exercício físico e a atividade física ajudam a prevenir e a controlar fatores de risco para doenças crônicas, como doenças cardiovasculares (Infarto, AVC, Tromboses e outras), além de reduzir sintomas de depressão e ansiedade.
• Prevenção de Quedas: O treino de força, resistência e equilíbrio (chamados exercícios multimodais), frequentemente combinado em exercícios aeróbicos , são cruciais para o controle postural e para reduzir o risco de quedas e fraturas.

4. Diferenciando o Cuidado: Lúcidos vs. Demência
A forma como você incentiva a A.F. e o E.F. muda completamente dependendo da condição cognitiva do idoso.
Idosos Lúcidos: Respeito à Autonomia e Diálogo
Com um idoso lúcido que apresenta resistência, o desafio é equilibrar a segurança com o direito de escolha.
• Diálogo Franco e Consequências: Não tente convencer pela força, mas sim pelo diálogo. Apresente as consequências da inatividade, como o risco de perda de funcionalidade.
• Respeite a Escolha: Lembre-se, mesmo que a decisão dele pareça errada, se ele está lúcido, a escolha precisa ser respeitada.
• Incentive o Propósito: Atividades que dão sentido de utilidade são muito eficazes. Pensando nisso, incentivar a realização de atividades diversas no dia a dia, como limpar, lavar, cuidar de plantas e animais, fazer compras e tantas outras tarefas que estejam dentro da capacidade desta pessoa idosa, já conta como atividade física. Uma excelente opção é incentivar o trabalho voluntário, por exemplo, que está relacionado a menos sintomas depressivos e maior satisfação pela vida.
• Dica: Sugira que ele comece devagar, mantendo a constância nos exercícios, mesmo que a intensidade seja baixa no início.

Idosos com Demência: Rotina, Segurança e Estratégias Não Farmacológicas
Para idosos com Alzheimer ou outras demências, a recusa ou a agitação em relação ao exercício ou atividade física não é teimosia, mas pode ser medo e insegurança causados pela incapacidade de processar informações.
• A Rotina é Segurança: Mantenha um horário fixo para todas as atividades, incluindo o exercício. A rotina traz previsibilidade e acalma o idoso.
◦ Distração e Música: Use a Técnica da Distração, como colocar músicas antigas que ele gostava para levá-lo a atividades de jardinagem, cuidados com pets ou qualquer outro tipo de atividade que ele seja capaz de executar. A música estimula a memória remota (a última a ser afetada pelo Alzheimer) e acalma.
◦ Faça-o Sentir Útil: Adapte tarefas simples, como cuidar de plantas ou arrumar gavetas, para que ele tenha a sensação de ser útil e capaz.
◦ Supervisão: Embora o exercício seja recomendado para idosos com comprometimento cognitivo leve a moderado, a sua realização deve ocorrer sob supervisão.
• Comunicação Simples: Dê comandos verbais simples, como “dobre a toalha”, e permita que ele processe a informação para então executar. Não dê muitos comandos de uma única vez.

Dicas Finais para o Cuidador
• Comece Agora: Não importa a idade, é sempre tempo de começar a poupança muscular e cognitiva.
• Não Force: Nunca confronte a agitação ou a recusa, tanto em pessoas idosas lúcidas ou com declínio cognitivo. Tente adaptar o exercício físico para uma modalidade que esta pessoa goste ou, se não for possível o exercício, de forma estruturada, incentive as atividades físicas nas tarefas do dia a dia. Qualquer movimento conta!
• O Simples Funciona: Atividades simples de vida diária que mantêm a funcionalidade são inestimáveis.
Referências:
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- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on the public health response to dementia. Geneva: WHO, 2021.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on ageing and health. Geneva: WHO, 2015.
Ministério da Saúde (Brasil)
- BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Orientações técnicas para a implementação de Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
Alzheimer’s Disease International
- ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL. World Alzheimer Report 2023: Reducing the risk of dementia: world resources. London: ADI, 2023. (Referência correlata baseada no escopo de prevenção citado no texto ).
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
- FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (Ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da Pessoa Idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003 (atualizado até 2022). Rio de Janeiro: SBGG, 2023.
Artigos Científicos e Consensos Recentes (Últimos 2-3 anos)
- ALEXANDRE, Tiago da Silva. O exercício é um medicamento: princípios da prescrição de exercício para idosos. In: FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
- CRUZ-JENTOFT, Alfonso J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16-31, 2019.
- KIM, J. S.; ROCKWOOD, K. Physical Frailty: International Clinical Practice Guidelines for Identification and Management. In: Journal of Nutrition, Health and Aging, v. 23, p. 771-787, 2024 (atualização baseada em Dent et al., 2019).
- LIVINGSTON, Gill et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.