Qual é Melhor: Bengala ou Andador? A Chave para a Mobilidade Segura do Idoso

Olá, pessoal! Você, cuidador familiar ou profissional, sabe que a mobilidade do idoso é um dos temas mais importantes do nosso dia a dia, certo? Afinal, o envelhecimento é um processo heterogêneo, e manter a capacidade funcional é a meta principal para garantir o bem-estar e a independência. Quando o equilíbrio começa a falhar ou a dor aperta, os dispositivos auxiliares de marcha (DAMs), como a bengala ou o andador, se tornam nossos grandes aliados.

Mas, atenção! A escolha errada ou o uso incorreto de um desses dispositivos pode, na verdade, aumentar o risco de quedas e lesões, que, como sabemos, são um grande fator de risco para a perda de funcionalidade e até para a mortalidade em idosos.

Em primeiro lugar: Não Use Sem Avaliação Profissional

É fundamental entender que a decisão entre bengala e andador nunca deve ser baseada em “achismos” ou no que o vizinho usa. A prescrição de um Dispositivo Auxiliar de Marcha (DAM) exige uma avaliação detalhada da capacidade locomotora e do equilíbrio do idoso.

A reabilitação e o tratamento da dor crônica em pessoas idosas devem ser holísticos e personalizados. Por isso, busque sempre a orientação de um fisioterapeuta que é os profissional especializado para essa análise.

Bengala: Equilíbrio e Suporte para Problemas Moderados

A bengala é o dispositivo ideal quando o idoso apresenta um problema moderado de marcha e precisa de um ponto de apoio para melhorar o equilíbrio e reduzir a carga sobre uma perna.

Principais Indicações para a Bengala

1. Instabilidade Leve: O idoso consegue manter o equilíbrio semi-estático (parado) razoavelmente bem, mas precisa de ajuda para se sentir mais seguro ao caminhar.

2. Dor Unilateral: É muito usada quando há dor em uma das pernas, como no caso de osteoartrite (artrose) do joelho ou quadril, sendo recomendada em guidelines internacionais como terapia principal ou associada ao exercício.

3. Transferência de Peso: Auxilia a descarregar até 25% do peso corporal sobre o lado afetado.

Dica de Ouro: Como Usar a Bengala Corretamente

Lado Certo: O idoso deve sempre segurar a bengala no lado oposto (contralateral) ao membro inferior mais fraco ou dolorido.

Altura Ideal: O cotovelo deve ficar levemente flexionado, em um ângulo de 15° a 30°, para garantir que o dispositivo ajude na distribuição do peso.

Movimento: A bengala deve avançar simultaneamente com a perna afetada.

Andador: Máxima Estabilidade e Segurança

O andador é indicado para idosos com problemas graves de marcha ou quando há uma perda significativa do equilíbrio e força muscular. Ele oferece uma base de apoio mais ampla e robusta (quatro pontos), sendo muito mais estável que a bengala.

1. Alto Risco de Queda: Quando o idoso apresenta histórico de múltiplas quedas ou tem instabilidade postural grave.

2. Fraqueza Muscular Intensa: Necessidade de apoio para sustentar o peso corporal ou para auxiliar a se levantar (transferência).

3. Doenças Neurológicas Avançadas: Pacientes com quadros avançados de Doença de Parkinson (DP) ou sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), quando não comprometem os membros superiores, podem se beneficiar da estabilidade extra.

Atenção ao Risco!

• O uso inadequado de um andador fixo pode ser perigoso, aumentando em sete vezes o risco de quedas.

• A escolha do tipo é vital: Andadores fixos (sem rodas) dão mais estabilidade, mas exigem mais esforço. Andadores com rodas facilitam o movimento, mas exigem melhor controle de freio e cognição para gerenciar a velocidade.

Diferenciação Essencial: Lúcidos vs. Demência

A condição cognitiva do idoso muda completamente a abordagem do uso de dispositivos auxiliares.

Idosos Lúcidos

No caso de um idoso lúcido que apresenta resistência, o desafio principal é respeitar a sua autonomia e dignidade.

1. Valide o Sentimento: O idoso lúcido pode resistir por considerar o dispositivo um sinal de fraqueza ou incapacidade. O cuidador deve reconhecer essa relutância, mas apresentar o DAM como uma ferramenta de segurança que mantém a independência.

2. Diálogo Construtivo: Use a comunicação assertiva para mostrar as consequências da não utilização (como o risco de fratura de fêmur, que aumenta o risco de mortalidade) e respeite a decisão final, mesmo que discordem, se ele estiver lúcido.

Idosos com Alzheimer ou Outras Demências

Quando o idoso tem um quadro de demência, a insegurança, a desorientação e a perda da capacidade de julgamento criam desafios únicos.

1. Supervisão Obrigatória: Para idosos com demência, o uso de qualquer dispositivo auxiliar de marcha (bengala ou andador) é recomendado sob supervisão constante. O idoso pode esquecer como usar o dispositivo ou, pior, negligenciar riscos.

2. Avaliação Cognitiva: É indispensável que o médico (geriatra, psicogeriatra ou neurologista) realize o rastreio cognitivo antes da prescrição do DAM, pois a perda na função executiva dificulta a dupla-tarefa (andar e pensar) e o uso do dispositivo.

3. Segurança e Rotina: A rotina traz segurança para o idoso demenciado. Inclua o uso do andador ou bengala na rotina, associando-o a atividades agradáveis e familiares (como a caminhada diária) para reforçar o hábito.

Dicas de Adaptação e Treino para Cuidadores

Seja bengala ou andador, o sucesso do auxílio depende muito da sua capacitação e da adaptação do ambiente.

1. Treinamento da Marcha

Treino Intensivo: Não basta dar o dispositivo; é preciso treinar a marcha com o idoso, corrigindo a postura e o passo. A fisioterapia deve focar em exercícios que desafiem o equilíbrio e fortaleçam a musculatura.

Evite o Sedentarismo: O exercício é a principal intervenção para melhorar a mobilidade e funcionalidade, e deve ser mantido ao longo de todo o processo.

2. Adaptações Essenciais no Ambiente

Elimine Riscos: Remova tapetes soltos e fios espalhados. Os pisos devem ser uniformes e antiderrapantes, especialmente no banheiro (que é o local de maior risco).

Barras de Apoio: Instale barras de apoio no box do chuveiro e ao lado do vaso sanitário para maximizar a segurança.

Iluminação: Mantenha os ambientes, principalmente corredores e escadas, bem iluminados.

3. Cuidado com o Calçado

• O calçado ideal deve ser fechado, macio, confortável, ter solado antiderrapante e o salto não deve ultrapassar 2 cm.

• Evite chinelos de dedo (tipo flip-flop) e calçados sem apoio no calcanhar, pois podem enroscar e causar quedas.

4. A Chave da Leveza no Cuidado

Lembre-se que o desafio na demência é que o idoso perde a autocrítica e subestima os riscos. Sua resposta deve ser sempre de acolhimento, não de confronto. A distração e o foco em atividades prazerosas que o façam sentir-se útil são técnicas não farmacológicas essenciais.

Referências:

Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE) handbook: guidance on person-centred assessment and pathways in primary care. 2. ed. Geneva: WHO, 2024.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. World report on ageing and health. Geneva: WHO, 2015.

Ministério da Saúde

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de saúde da pessoa idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).

Alzheimer’s Disease International

  • PRINCE, M. et al. World Alzheimer Report 2015: the global impact of dementia: an analysis of prevalence, incidence, cost and trends. London: Alzheimer’s Disease International, 2015.

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

  • FREITAS, Elizabete Viana de; PY, Ligia (ed.). Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Estatuto da pessoa idosa: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Edição comemorativa de 20 anos. Rio de Janeiro: SBGG, 2023.

Artigos Científicos e Outras Referências Recentes

  • ALEXANDRE, Tiago da Silva. Sarcopenia e funcionalidade. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FISIOTERAPIA EM GERONTOLOGIA, 2023.
  • CATTANI, Álvaro; TELLES, Giana Daclê. Distúrbios da postura e da marcha. In: FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de geriatria e gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. Cap. 91.
  • CRUZ-JENTOFT, A. J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16-31, 2019.
  • LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. The Lancet, v. 396, n. 10248, p. 413-446, 2020.
  • PERRACINI, Monica Rodrigues; FLÓ, Cláudia Mara (org.). Funcionalidade e envelhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  • SINGH, M. et al. Importance of frailty in patients with cardiovascular disease. European Heart Journal, v. 35, n. 26, p. 1726-1731, 2014.
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