Quando idosos com Alzheimer perguntam por entes falecidos o que devo responder?

Sabemos que cuidar de um idoso, seja da família ou profissionalmente, traz desafios diários, não é mesmo? E quando a pessoa tem Alzheimer ou outra demência, algumas situações podem ser ainda mais delicadas e confusas. Uma das mais comuns, e que muitas vezes nos deixa sem chão, é quando eles perguntam por alguém que já faleceu. Parece simples, mas a forma como respondemos faz toda a diferença.

Neste post, vamos conversar de maneira bem direta e prática sobre como lidar com essas perguntas, pensando sempre no bem-estar de quem cuidamos.

Entendendo a Memória do Idoso Com Demência?

A demência é um sintoma de doenças que afetam o cérebro, como o Alzheimer. Ela causa perda de memória, principalmente a memória recente. O idoso pode esquecer de situações vividas, nomes de pessoas ou coisas. Pra ele, muitas vezes, o que aconteceu há muito tempo (memória remota) pode estar mais vivo do que o que aconteceu hoje ou ontem (memória imediata/recente).

Por que perguntam por alguém que já morreu?

No momento que ele faz essa pergunta, ele acredita que está vivendo no tempo em que essa pessoa ainda estava viva (Sim, eles acreditam que estão vivendo lá em 1900 e alguma coisa). A desorientação temporal, um sintoma bem comum no Alzheimer, faz com este idoso perca a noção do tempo presente, portanto, eles querem saber onde está essa pessoa e insistem em perguntar.  A insistência na pergunta não se trata de teimosia, eles realmente não lembram que já perguntaram, nem da sua resposta. Para eles, é sempre a primeira vez que perguntam ou que você responde, afinal, como a memória recente está comprometida.

O Que Nunca Dizer e Por Que Não Dizer Isso:

Jamais diga frases como:

“Seu pai já morreu,” 

“Sua mãe já morreu,” 

“Seu irmão já morreu há não sei quanto tempo”. 

Também evite dizer: “Eu já te falei,” “Eu já te respondi,” 

Para o idoso com demência, ouvir isso é como receber a notícia da morte pela primeira vez. Você ativa um gatilho de dor, sofrimento, tristeza, agitação, nervosismo e até agressividade. É como reviver o luto a cada pergunta.

Mostrar irritação deixa o idoso ainda mais confuso. Ele realmente não se lembra, e isso só causa frustração e insegurança.

O Que Fazer (E Por Quê) 

A melhor forma de lidar com isso é não tentar trazê-lo à força para a “nossa” realidade, mas sim entrar na realidade dele.

Isso é o que nós profissionais chamamos de “mentira terapêutica”. Não é pra enganar por mal, mas sim para trazer tranquilidade e evitar o sofrimento desnecessário causado pela doença.

Use Respostas Gentis e Plausíveis: 

◦ Diga que a pessoa está viajando, está trabalhando e não pode sair, está cuidando de alguém e virá visitar outro dia. Pense em algo que faça sentido com o passado dele.

◦ Você Pode Repetir: Não se preocupe em dar a mesma resposta várias vezes. Ele não vai lembrar que você já respondeu.

◦ Use um Áudio Gravado: Uma técnica interessante mencionada é ter um áudio gravado de alguém (fingindo ser a pessoa falecida) dizendo que não pode ir visitá-lo no momento por estar trabalhando, por exemplo. Colocar o áudio para ele ouvir pode trazer tranquilidade.

◦Mude o Foco Rapidamente: Depois de dar a resposta, mude o assunto e distraia o idoso com outra atividade. Coloque uma música que ele gostava, mostre fotos antigas, chame para fazer uma atividade que ele se sinta útil (como cuidar de plantas ou organizar algo simples). A distração é um caminho excelente!

Essa estratégia acalma a situação e facilita a vida de vocês, cuidadores, que já enfrentam uma rotina cheia de desafios. 

Lembre-se: a demência impede que ele aceite a realidade; somos nós que precisamos nos adaptar.

Referências

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BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Portaria nº 2.528/GM, de 19 de outubro de 2006. Brasília: Ministério da Saúde, 2006..

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