Você já passou pela situação de ser acusado de roubar um objeto, um documento ou dinheiro pelo idoso de quem você cuida, ou presenciou este idoso acusando alguém? Se sim, você sabe o quanto isso pode ser frustrante e até doloroso. Afinal, você dedica seu tempo e amor, e de repente é alvo de uma acusação injusta.
Mas respire fundo: isso não é um ataque pessoal. Esse comportamento faz parte dos Sintomas Psicológicos e Comportamentais da Demência (SPCD). Hoje, vamos entender por que esses delírios acontecem e como você pode agir para manter a paz no dia a dia.
Por que o idoso acha que está sendo roubado?
O delírio de roubo é uma tentativa do cérebro de preencher lacunas. Quando a memória falha, o idoso não lembra onde guardou um objeto. Em vez de aceitar que esqueceu (o que é assustador para ele), a mente cria uma explicação, que para ele é “lógica”: “se não está aqui, alguém pegou”. Mas ele não cria essa hipótese de forma proposital, infelizmente a doença o faz criar essa ideia.
Pode parecer que o idoso está escondendo de forma proposital o objeto, afinal, ele guarda em locais inapropriados, dando a impressão de ser um esconderijo. Mas na verdade, o cérebro dele da uma “apagão” e ele guarda este objeto sem ter nenhuma consciência que ali não é o local dele, porém, no momento da lucidez, ele não consegue reconhecer que tenha feito isso e muito menos ele se lembra de ter feito.
- Diferença importante: No idoso lúcido, o esquecimento geralmente gera uma busca organizada e ele aceita ajuda para procurar. No idoso com Alzheimer, o esquecimento se transforma em uma convicção falsa e resistente à lógica (delírio), muitas vezes acompanhada de paranoia (FREITAS et al., 2022).

Dicas práticas: O que fazer na hora do conflito?
Para o idoso, aquele roubo é uma verdade absoluta. Tentar convencê-lo do contrário com provas só aumentará a agitação. Siga estes passos:
1. Mantenha a calma e não discuta
O confronto direto é o gatilho para a agressividade. Se você diz “eu não peguei nada!”, ele entende que você está mentindo. Em vez disso, use um tom de voz baixo e acolhedor.
2. Valide a preocupação dele
Tente dizer: “Poxa, deve ser ruim perder algo importante. Vou te ajudar a procurar”. Isso desarma a defensiva e coloca você como um aliado, não como um suspeito.
3. Tenha “reservas” de itens comuns
Se o idoso costuma dizer que roubaram sua carteira ou chaves, tente ter duplicatas. Quando ele reclamar, você pode “encontrar” a reserva em um lugar comum, aliviando a ansiedade dele rapidamente.
4. Observe os “esconderijos”
Idosos com Alzheimer costumam esconder objetos para protegê-los e depois esquecem o local. Verifique debaixo de colchões, dentro de sapatos ou gavetas de roupas. Evite tirar o objeto do esconderijo na frente dele, pois isso pode gerar uma nova crise.
Tabela: Como reagir de forma estratégica
| Se o idoso disser… | Evite responder… ❌ | Tente responder… ✅ |
| “Você pegou meu dinheiro!” | “Eu nunca faria isso, que absurdo!” | “Sério? Vamos olhar juntos naquela gaveta?” |
| “Tem gente estranha entrando aqui.” | “Não tem ninguém aqui, você está imaginando.” | “Vou trancar a porta agora para ficarmos seguros.” |
| “Guardei meu relógio e sumiu.” | “Você que esqueceu onde colocou.” | “Entendo seu susto. Vamos lanchar e depois procuramos?” |

Conclusão
Cuidar de alguém com Alzheimer exige uma “paciência de ferro” e um coração resiliente. Lembre-se que o delírio é um sintoma da doença, não do caráter da pessoa que você ama. Ao validar o sentimento dele, você reduz o estresse de ambos.
O seu familiar costuma esconder objetos? Qual o lugar mais inusitado onde você já encontrou algo? Compartilhe sua experiência nos comentários!
Referências:
ALZHEIMER’S DISEASE INTERNATIONAL (ADI). World Alzheimer Report 2021: Journey through the diagnosis of dementia. London: ADI, 2021.
FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA (SBGG). Guia de Manejo de Sintomas Comportamentais na Demência. São Paulo: SBGG, 2023.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.